tag:theconversation.com,2011:/br/home-pageThe Conversation: notícias e análises produzidas por cientistas e pesquisadores – The Conversation2026-02-04T15:14:47Ztag:theconversation.com,2011:article/2751462026-02-04T15:14:47Z2026-02-04T15:14:47ZPesquisa mostra o quanto o peso financeiro do tratamento oncológico dificulta acesso de pacientes a seus direitos garantidos por lei<p>No horizonte do Dia Mundial do Câncer, é essencial lançar luz sobre uma face da oncologia frequentemente ofuscada pela discussão clínica: a cidadania do paciente. </p>
<p>Entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, o <a href="https://www.oncoguia.org.br/painel-politicas-publicas/estatuto-da-pessoa-com-cancer-agora-e-lei/?utm_source=chatgpt.com">Oncoguia</a> realizou um levantamento abrangente com 1.559 respondentes, dentre familiares e pacientes, de 25 estados brasileiros, equilibrando vozes do SUS (45%) e da saúde suplementar (43%). Os resultados revelam um paradoxo alarmante: embora 94% dos pacientes afirmem conhecer ou já ter ouvido falar em seus direitos, o que se observa na prática é um <a href="https://www.oncoguia.org.br/direitos-dos-pacientes/?utm_source=chatgpt.com">desconhecimento estrutural sobre as garantias de saúde que compromete o desfecho do cuidado</a>.</p>
<p>O dado é contundente: o saque do FGTS é o único direito amplamente conhecido (75%). Quando mergulhamos em benefícios de natureza tributária ou previdenciária, o índice de conhecimento cai para menos de 15%; já aqueles ligados a cuidados em saúde não chegam nem a 5%. E por que os Direitos Sociais ganham da Saúde na percepção do paciente? Este fenômeno não é aleatório, ele reflete a toxicidade financeira do tratamento oncológico. No Brasil, o câncer não ataca apenas o organismo, mas a estrutura socioeconômica da família.</p>
<p>Historicamente, <a href="https://oabrj.org.br/sites/default/files/cartilha_final-1.pdf?utm_source=chatgpt.com">o conceito de “direito do paciente” foi reduzido a auxílios sociais e isenções fiscais.</a> Para o paciente que enfrenta a perda de renda e o aumento de custos acessórios, o saque do FGTS e o auxílio doença, por exemplo, são vistos como recurso para garantir a subsistência. Contudo, essa visão cega a sociedade e o próprio sistema de saúde para o que deveria ser o núcleo dos direitos dos pacientes: o acesso ao tratamento e à qualidade de vida.</p>
<h2>Direitos garantidos por leis</h2>
<p>Um dos aspectos mais sensíveis da pesquisa é o desconhecimento de leis que sustentam o acesso clínico. Impressionantes 68% dos respondentes nunca ouviram falar em legislações fundamentais como a <a href="https://www.oncoguia.org.br/painel-politicas-publicas/nota-agora-ja-esta-valendolei-que-garante-tratamento-do-cancer-em-ate-60-dias-apos-o-diagnostico-entra-em-vigor-hoje-dia-23/?utm_source=chatgpt.com">Lei dos 60 Dias (início do tratamento) ou a Lei dos 30 Dias (diagnóstico)</a>. Menos de 1% citou conhecer direitos vitais como o acesso a bolsas de ostomia, medicamentos para controle da dor ou o Tratamento Fora de Domicílio (TFD).</p>
<p>A reconstrução mamária, direito garantido por lei e pilar da reabilitação psicossocial, não foi citada por ninguém como um direito conhecido espontaneamente, mesmo tendo 45% dos respondentes sendo familiares ou pacientes com câncer de mama. Há uma desconexão: o paciente não enxerga a cirurgia, o medicamento de suporte ou a agilidade do diagnóstico como um direito exigível, mas como uma concessão ou uma “sorte” do sistema.</p>
<p>Dos 63% que tentaram acessar algum direito, a imensa maioria focou na recomposição de renda. <a href="https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/saude/direitos-de-pacientes-com-cancer-existem-mas-esbarram-em-desinformacao-e-demora-diz-pesquisa/?utm_source=chatgpt.com">Apenas 5% buscaram garantias relacionadas diretamente a tratamentos </a>(cirurgias ou medicamentos). Os relatos colhidos pela pesquisa expõem a ferida aberta da desigualdade: “O tratamento é pelo SUS, mas o transporte para ir ao hospital e o advogado para garantir o remédio saem do meu bolso, e eu não tenho”, desabafa um paciente. Mesmo no setor privado, a dor é semelhante: “A briga constante com o convênio que coloca obstáculos em cada etapa”.</p>
<h2>O câncer não espera a burocracia</h2>
<p>Enquanto o paciente gasta sua energia combatendo a burocracia ou a negativa do plano, o tempo biológico do câncer avança. A judicialização, mencionada por muitos como a única saída, torna-se um sintoma de um sistema que falha em informar e em acolher.</p>
<p>Neste Dia Mundial do Câncer, é preciso reforçar que o acesso à saúde não se limita à entrega do quimioterápico. <a href="https://www.oncoguia.org.br/painel-politicas-publicas/estatuto-da-pessoa-com-cancer-agora-e-lei/?utm_source=chatgpt.com">Direito é também informação clara, prazos cumpridos e suporte para os efeitos colaterais.</a> Precisamos ressignificar o que entendemos por “direitos dos pacientes”.</p>
<p>Garantir o saque do FGTS é muitas vezes essencial para a subsistência, mas garantir a aplicação da Lei dos 60 dias é essencial para a vida. É urgente que profissionais de saúde, gestores e o poder público compreendam que um paciente desinformado é um paciente em risco. Precisamos superar a barreira da desinformação e do impacto financeiro do tratamento para que o tempo do direito finalmente coincida com o tempo da vida.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/275146/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Luciana Holtz é líder do Instituto Oncoguia, que conta com o patrocínio institucional de empresas farmacêuticas para pesquisas, campanhas, projetos educativos e eventos.
</span></em></p><p class="fine-print"><em><span>Helena Esteves é Conselheira Nacional de Saúde e coordenadora de advocacy do Instituto Oncoguia, que conta com o patrocínio institucional de empresas farmacêuticas para pesquisas, campanhas, projetos educativos e eventos.</span></em></p>Historicamente, o conceito de “direito do paciente” foi reduzido a auxílios sociais e isenções fiscais. Essa visão distancia o paciente do mais importante: o acesso ao tratamento e à qualidade de vidaLuciana Holtz de Camargo Barros, Psico-oncologista, especialista em Bioética e Health Literacy, Instituto OncoguiaHelena Neves Esteves, Cientista política, coordenadora de advocacy e pesquisadora, Instituto OncoguiaLicensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2747772026-02-04T14:05:00Z2026-02-04T14:05:00ZEntenda o peso do acordo entre o Mercosul e a União Europeia no cenário internacional<p>O <a href="https://policy.trade.ec.europa.eu/eu-trade-relationships-country-and-region/countries-and-regions/mercosur/eu-mercosur-agreement_en?utm_source=chatgpt.com">acordo entre o Mercosul e a União Europeia </a>, assinado em janeiro deste ano, reflete importantes transformações da ordem internacional desde a década de 1990. Não apenas a evolução das negociações acompanhou a história das relações internacionais nas últimas décadas, mas a própria assinatura e as perspectivas para sua ratificação simbolizam as mudanças contemporâneas e antecipam cenários possíveis para o futuro. </p>
<p>Nos anos 1990, os Estados Unidos assumiram a condição de potência em um sistema unipolar e, entre outras ações, propuseram a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) para consolidar o modelo liberal de economias de mercado em sua região mais próxima. Nessa conjuntura, Mercosul e União Europeia iniciaram as negociações por um acordo que reduzisse a dependência sul-americana em relação aos EUA e garantisse influência da Europa sobre regiões emergentes.</p>
<p>Ao longo dos anos seguintes, a relação entre América do Sul, Europa e as potências hegemônicas (seja Estados Unidos, seja China) foi um dos fatores que influenciou o andamento das negociações. Diante das vantagens e desvantagens para cada parte, assumir um compromisso de longo prazo nem sempre foi consensual. No entanto, nas últimas décadas, a ordem internacional liberal e o processo de crescente interdependência econômica vêm passando por crises e desafios que impulsionaram o acordo. </p>
<h2>Crise da ordem liberal e reposicionamento das potências</h2>
<p>Particularmente no século XXI, as contestações vêm aumentando, com medidas unilaterais por grandes potências, uso de força militar, contestação às organizações multilaterais e desrespeito ao Direito Internacional.</p>
<p>Diante dessa instabilidade, países, regiões e organizações internacionais buscam manter a ordem existente ao mesmo tempo em que se adaptam às mudanças em andamento, dentro de uma conjuntura de transição hegemônica. Em particular, a União Europeia – frente a ameaça militar da Rússia, crescimento da China e perda da confiança nos Estados Unidos - busca manter tanto a coesão interna quanto sua relevância no sistema internacional. Para isso, vem ampliando as parcerias com o Sul Global, incluindo <a href="https://link.springer.com/article/10.1007/s10308-021-00627-1">critérios nos acordos que vinculem cooperação política e defesa de Direitos Humanos</a>, democracia e meio ambiente. A finalização <a href="https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/en/ip_26_184">negociações com a Índia</a> das negociações com a Índia — parceria que envolve um espaço econômico de cerca de 2 bilhões de pessoas — aponta nessa direção e demonstra que o esforço das negociações com o Mercosul não é isolado nem é a única alternativa para a política externa da UE. Assim, conecta importantes potências do Sul Global à aliança com o projeto europeu. </p>
<p>Para os países do Sul Global, a fragilidade da ordem internacional liberal, somada a desafios internos, motivam a direcionar sua agenda externa para garantir ganhos. No caso dos membros do Mercosul, nos últimos anos, vêm se aproximando de múltiplos polos de poder, com <a href="https://www.scielo.org.mx/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0185-013X2019000100047">foco específico em garantir acordos de livre-comércio – o que contrasta com a agenda mais ampla que o bloco teve no passado</a>.</p>
<h2>Entraves políticos na Europa e pressa no Mercosul</h2>
<p>Para um acordo internacional entrar em vigor – isto é, que passe a ter valor jurídico e seja executado – deve ser ratificado pelas instituições internas de cada parte signatária. Em outras palavras, deve ser aprovado pelos parlamentos para que se torne uma lei. Depois da cerimônia de assinatura em Assunção, era esperado que essa etapa fosse iniciada muito em breve. Entretanto, o <a href="https://www.europarl.europa.eu/news/pt/press-room/20260116IPR32450/ue-mercosul-parlamento-quer-parecer-juridico-sobre-a-conformidade-com-tratados">Parlamento Europeu aprovou um pedido</a> para que o texto do acordo fosse avaliado pelo Tribunal de Justiça da União Europeia, a fim de que fosse analisado se corresponde aos princípios dos tratados fundacionais do bloco. Assim, a UE não pode aprovar definitivamente o acordo até que essa avaliação seja concluída – o que pode demorar anos conforme os prazos usuais do Tribunal.</p>
<p>Esse episódio demonstra que não há consenso interno a respeito da parceria com o Mercosul. Pelo contrário, múltiplos setores do empresariado e de movimentos sociais mobilizam o nível político para barrar a abertura de mercado à América do Sul. <a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c9dv02ezlnpo">As recorrentes manifestações em várias capitais e a opinião pública</a> reforçam a percepção de que a aprovação interna não será fácil.</p>
<p>Por outro lado, no Mercosul, a aprovação nos parlamentos nacionais deve ocorrer mais rapidamente. <a href="https://www.scielo.br/j/rbpi/a/cjHVr3VqjNFkbhP8gsWSY7P/?lang=en">Historicamente, não há registro de rejeições a acordos comerciais</a>, apesar de haver poucos casos ainda pendentes de aprovação. No caso do acordo com a UE, os <a href="https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/01/22/senado-e-camara-querem-rapidez-no-acordo-mercosul-ue-diz-nelsinho">legisladores já sinalizaram que o processo não deve ser demorado</a>, com expectativa de ser concluído neste ano. O compromisso dos membros do Mercosul com a parceria seria uma forma de pressionar as instituições europeias a concluírem seu lado da ratificação, mesmo que em caráter provisório devido aos procedimentos judiciais.</p>
<p>Ademais, as recorrentes ameaças dos Estados Unidos à Europa – como as propostas de aumento de tarifas e <a href="https://theconversation.com/groenlandia-expoe-os-limites-da-coercao-entre-aliados-e-uma-nova-gramatica-na-politica-internacional-274174">de uso de força militar contra a soberania da Groenlândia</a> – impulsionam a União Europeia a reestruturar suas estratégias, diante da imprevisibilidade do parceiro atlântico. </p>
<p><a href="https://theconversation.com/ameacas-geopoliticas-de-trump-confirmaram-acordo-ue-mercosul-apesar-da-oposicao-dos-agricultores-europeus-273614">A necessidade de diminuir a dependência em relação aos EUA, tanto em questões de segurança quanto de economia</a>, e de criar regras mais estáveis no sistema internacional motivou a UE a assinar o acordo com o Mercosul. Por esse mesmo motivo, há pressões sistêmicas para que a UE coloque o acordo em vigor o quanto antes, garantindo oportunidades para os europeus. Ao mesmo tempo, o acordo assegura a influência sobre um grupo importante que está geograficamente próximo dos EUA e com crescente presença da China.</p>
<p>Seguindo essa linha, o texto entre Mercosul e União Europeia não se limita a oportunidades comerciais e à cooperação em outros setores, mas faz parte de reações a uma conjuntura de contestações às instituições e de rompimento de alianças que sustentaram a ordem internacional nas últimas décadas.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/274777/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>André Araújo recebe financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
</span></em></p>Em negociação desde os anos 90, acordo assinado em janeiro reflete as mudanças contemporâneas e antecipam cenários possíveis para o futuroAndré Araujo, Doutor em Ciências Políticas e Sociais e Professor Convidado, Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)Licensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2747602026-02-04T13:33:25Z2026-02-04T13:33:25ZTerapia ancestral: plantas medicinais acendem esperança para alternativas mais acessíveis no combate ao câncer<p><em>Hoje, 4 de fevereiro, é o Dia Mundial do Câncer, movimento liderado pela União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), com aval da OMS. Por isso, o The Conversation Brasil publica, hoje e pelos próximos dias, artigos exclusivos sobre o assunto, assinados por grandes especialistas brasileiros em oncologia.</em></p>
<hr>
<p>Atualmente, cerca de 21.3 milhões de pessoas estão acometidas de algum tipo de câncer ao redor do mundo. Provavelmente, menos da metade delas irá sobreviver. É o que dizem os números do <a href="https://gco.iarc.fr/tomorrow/en/dataviz/isotype?types=0&single_unit=500000&populations=900&group_populations=0&multiple_populations=0&years=2025">“cancer tomorrow”</a> do Globocan, uma ferramenta da Organização Mundial da Saúde.</p>
<p>A ferramenta é capaz de prever a incidência e a mortalidade do câncer no mundo todo. Além da incidência cada dia mais alarmante, o prognóstico da doença é diretamente afetado por diferenças socioeconômicas. </p>
<p>Pobreza, ruralidade e raça se apresentam como barreiras de acesso ao diagnóstico precoce e a tratamentos eficazes. Nesse contexto, o uso de plantas medicinais no enfrentamento do câncer acende uma esperança para a obtenção de novas alternativas terapêuticas mais acessíveis. </p>
<p>Além disso, tal prática constrói, por meio da <a href="http://cienciaecultura.bvs.br/pdf/cic/v55n3/a21v55n3.pdf">Etnofarmacologia</a>, uma ponte entre tecnologias ancestrais e lacunas atuais. Essa associação reafirma a importância dos saberes tradicionais, sem se apropriar ou descontextualizar o conhecimento que eles trazem.</p>
<h2>Mãe-de-milhares: ancestralidade que se tornou popular</h2>
<p>Conhecidas também como Aranto, Folha Miraculosa (uma tradução livre de “Miracle-Leaf”), Folha-da-fortuna e, tradicionalmente, nomeada de Àbàmòdá (nomenclatura Yorubá para <em>Kalanchoe pinnata</em>), as espécies do gênero Kalanchoe carregam simbologia e exemplificam com notável clareza a profundidade e a sofisticação dos saberes oriundos das populações tradicionais brasileiras.</p>
<p>Nessas tradições, as práticas terapêuticas não apenas resistem ao tempo, mas se atualizam e se expandem por meio dos fluxos migratórios internos e da diáspora afrodescendente.</p>
<p>Os terreiros de matriz africana, enquanto espaços de culto, cura e conhecimento, despontam como verdadeiros repositórios de saberes <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Etnobot%C3%A2nica">Etnobotânicos</a> e <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Cosmologia">Cosmológicos</a>. Estes saberes articulam corpo, território e espiritualidade.</p>
<p>Reconhecer a relevância desses sistemas de conhecimento na construção de soluções terapêuticas contemporâneas não é apenas uma demanda ética, mas um imperativo científico e político.</p>
<h2>Usos litúrgicos e curativos</h2>
<p>Diversos relatos indicam que os usos litúrgico e curativo dessas plantas são incorporados à medicina tradicional africana por meio da Cosmologia. Nesta, doenças físicas e espirituais são tratadas conjuntamente.</p>
<p>As plantas são mediadoras entre corpo, território e ancestralidade. Essa rede simbólica e funcional sustentou a circulação destas plantas no contexto da diáspora. </p>
<p>E seu uso permanece ativo em casas de axé no Brasil, <a href="https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/64029533/Plantas_medicinais_e_os_cuidados_com_a_saude_-_impressao_%281%29-libre.pdf?1595856948=&response-content-disposition=inline%3B+filename%3DPlantas_medicinais_e_os_cuidados_com_a_s.pdf&Expires=1769626485&Signature=YJPzyO5CtYuGAGXNjLMYADK27e6dS24Qs5Xa7ifF355A4vCFrxzZTu4U1iTNF1CHVrcrJasanbBOmvW9JDUant0a6GMwNfYhXz4aitsxFItWH5kSbjaYzWK3-xq3Rlr7keX1QNmYe04SHAOpHU5646BpjS6fOXRhPH40jWR7tC5ZjhgiOy9jlVUjKpwNKucLSEQhzyqQtFw0mygHp31vMm3BeYlztJWVAbMexTyQN7dcSUJDmksV-ySsYAOaihHyLXDMYWzoESBEm9Vx8BImVn-Z3Cyy7R8lvKkJrBk5Tb0OaxRL-MibFG39zIl1N09aRZ2h-PJqh8eHX%7ExKRlM%7E2Q__&Key-Pair-Id=APKAJLOHF5GGSLRBV4ZA#page=139">reforçando a continuidade do conhecimento ancestral africano nos sistemas religiosos afro-brasileiros</a>.</p>
<p>O uso das espécies de <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Kalanchoe">Kalanchoe</a> como plantas medicinais se popularizou tanto no Brasil que é possível encontrar diversos resultados utilizando as chaves de busca: “Aranto medicinal” no Google, apresentando desde <a href="https://saude.abril.com.br/coluna/e-verdade-ou-fake-news/aranto-mata-celulas-do-cancer-e-pode-servir-de-tratamento-nao-e-bem-assim/#google_vignette">reportagens em veículos de grande mídia</a>, artigos em blogs pessoais a <a href="https://www.youtube.com/shorts/twkyzOAK0b0">vídeos no Youtube®</a>.</p>
<p><a href="https://gauchazh.clicrbs.com.br/saude/vida/noticia/2019/06/aranto-nao-ajuda-no-tratamento-do-cancer-cjwkrcou503if01oibng0wm04.html">Dentre os resultados mais relevantes, encontram-se reportagens</a> que alertam a população sobre o uso indiscriminado destas plantas. E reforçam o cuidado com a divulgação de dados que ainda não foram plenamente confirmados pela ciência.</p>
<h2>Uso popular e tradicional x evidências científicas:</h2>
<p>Dentre as espécies mais proeminentes estão <em>Kalanchoe pinnata</em> e <em>Kalanchoe daigremontiana</em>, cujo valor ornamental e facilidade de cultivo contribuíram para que se espalhassem pelo mundo.</p>
<p>Ambas são <a href="https://www.mdpi.com/1420-3049/28/14/5574">popularmente</a> e <a href="https://philpapers.org/rec/DEJEAC">tradicionalmente</a> utilizadas como tratamento para feridas, furúnculos, inchaços, dermatoses, hipertensões, doenças proliferativas e do trato gastrointestinal. </p>
<p>Além disso, ajudam a combater inflamações no geral. Diversas evidências científicas contemporâneas vêm de forma progressiva pavimentando um caminho técnico para a elucidação de suas atividades biológicas.</p>
<p>O uso tradicional de <em>Kalanchoe pinnata</em> no alívio de dores de cabeça e como analgésico encontra respaldo em <a href="http://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1155/2014/429256">evidências que demonstram seu potencial efeito antinociceptivo, com mecanismos de ação semelhantes à inibição da enzima ciclooxigenase (COX) e à consequente redução de mediadores inflamatórios</a>.</p>
<p>Esses achados também ajudam a esclarecer sua aplicação no tratamento de inchaços, frequentemente associados a quadros de dor e inflamação.</p>
<p>Estudos com extratos aquosos e etanólicos da planta demonstraram propriedades <a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30856538/">anti-inflamatórias</a>, <a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32924590/">cicatrizantes</a> e <a href="https://www.cambridge.org/core/journals/parasitology/article/abs/effectiveness-of-the-immunomodulatory-extract-of-kalanchoe-pinnata-against-murine-visceral-leishmaniasis/98855A096EF0C2C01DB3E0715675EB70">antimicrobianas</a>. </p>
<p>Os resultados são evidenciados pela redução da área de feridas, diminuição dos níveis de citocinas inflamatórias como <a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3076185/">IL-1β</a> e <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Factor_de_necrose_tumoral">TNF-α</a>. </p>
<p>Além disso, há estudos sobre a promoção da <a href="https://www.oncoguia.org.br/conteudo/angiogenese/7206/840/">angiogênese</a> por meio da indução da expressão do <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Fator_de_crescimento_do_endot%C3%A9lio_vascular">Fator de Crescimento Endotelial Vascular (VEGF)</a>.</p>
<p>A crença em seu uso como diurético, com infusões preparadas a partir das folhas, encontra paralelo em estudos em que demonstraram efeitos <a href="https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/27697061.2024.2442615">hepatoprotetores</a>, <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0753332217349533?via%3Dihub">antioxidantes</a> e <a href="https://pt.scribd.com/document/348569972/1088-1719-2-PB">hipoglicemiantes</a>. </p>
<p>Esses estudos sugerem uma ação sistêmica capaz de auxiliar na eliminação de toxinas e no equilíbrio metabólico.</p>
<p>Tais evidências também justificam seu uso tradicional para o <a href="https://www.semanticscholar.org/paper/Assessment-of-the-medical-benefit-in-the-folkloric-Ghasi-Egwuibe/b7ea33276c8b9d88b1f317dfa03d22df81b7fd1c">tratamento da hipertensão</a>. Neste uso, há fortalecimento da função renal e ação antioxidante que podem contribuir para a regulação da pressão arterial.</p>
<h2>Multitarget</h2>
<p><em>Kalanchoe daigremontiana</em> é constantemente citada por sua grande concentração de moléculas bioativas com perfil “multitarget”. </p>
<p>Esta espécie possui mecanismos sofisticados de ação como os bufadienolídeos e flavanóide glicosilados. Ela também apresenta relevante ação <a href="https://link.springer.com/article/10.1007/s11101-017-9525-1">anti-inflamatória</a>, <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0141813018320907">antioxidante</a> e <a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32715869/">imunomoduladora</a>.</p>
<p>Seu uso popular no combate a doenças proliferativas (como tumores) encontra respaldo científico em evidências que destacam sua ação antitumoral em células <a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11388478/">JB6 Cl41( câncer de pele)</a>, <a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31994149/">HeLa (adenocarcinoma de colo do útero), SKOV-3 (câncer de ovário), MCF-7 (adenocarcinoma de mama) e A375 (melanoma maligno)</a> de forma seletiva. </p>
<p>Esta ação acontece por meio da modulação de genes ligados a morte celular e do balanço redox de células de origem tumoral.</p>
<p>Em nosso laboratório, o <a href="https://www.labmut.com">Labmut</a>, do Departamento de Biofísica e Biometria, do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), fizemos <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0731708523005964?via%3Dihub">a análise da composição química de extratos aquosos de <em>Kalanchoe daigremontiana</em></a>. </p>
<p>Nossos estudos foram realizados pela técnica de cromatografia líquida de ultra-alta eficiência acoplada à espectrometria de massas de alta resolução. E revelou uma ampla diversidade de compostos bioativos com potencial farmacológico.</p>
<p>Entre esses compostos, estão moléculas com características relacionadas à absorção, distribuição, metabolismo, excreção e baixa toxicidade. </p>
<p>Essas moléculas são relevantes para a prospecção de novos agentes, especialmente no contexto da quimioterapia.</p>
<p>Mais do que um achado químico, o uso de extratos aquosos carrega um significado importante. Ele dialoga diretamente com as formas tradicionais de preparo e uso da planta, amplamente descritas em sistemas de medicina ancestral.</p>
<p>A água, historicamente empregada como solvente em chás, infusões e macerações, não apenas respeita o saber Etnofarmacológico associado à Kalanchoe, como também demonstra ser capaz de extrair compostos biologicamente relevantes. E isso, agora, já é validado por ferramentas analíticas modernas.</p>
<p>Esse encontro, entre tecnologia de ponta e conhecimento tradicional, reforça a ideia de que práticas ancestrais não representam um saber “pré-científico”, mas sim um ponto de partida legítimo para a investigação biomédica contemporânea. </p>
<p>Com isso, contribuímos para o desenvolvimento de terapias mais acessíveis, culturalmente contextualizadas e biologicamente eficazes.</p>
<h2>Valorização do passado para um futuro sustentável</h2>
<p>Em um mundo marcado por profundas <a href="https://www.scielo.br/j/mana/a/pxpXn7k6ZvxdprGpF4QsBfB/?format=html&lang=pt">desigualdades sociais</a> e <a href="https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/03/29/prefeitura-do-rio-revoga-resolucao-que-reconhecia-praticas-de-matriz-africana-no-sus-retrocesso-dizem-entidades.ghtml">por recorrentes formas de violência epistêmica</a>, há algo especial e poderoso quando a comunidade científica se dispõe a investigar esses temas sem se apropriar, silenciar ou deslegitimar os saberes dos quais eles emergem.</p>
<p>É importante reconhecer o pertencimento desses conhecimentos. É fundamental respeitar o contexto histórico, cultural e social em que foram construídos. </p>
<p>E é ainda mais relevante quando conseguimos mobilizar o saber e a tecnologia de um povo no enfrentamento de uma de suas maiores mazelas: o câncer.</p>
<p>Nesse cenário, a interlocução entre ciência contemporânea e saberes tradicionais desponta como um caminho promissor. </p>
<p>Além disso, torna-se eticamente comprometido para a concretização de <a href="https://www.who.int/europe/about-us/our-work/sustainable-development-goals">Objetivos de Desenvolvimento Sustentável</a>. E que não sejam apenas retóricas, mas efetivamente ancorados em equidade.</p>
<p>É importante destacar a preservação da biodiversidade e a justiça social. Ao integrar métodos científicos rigorosos com a medicina ancestral, ampliam-se não apenas as possibilidades de validação científica desses saberes, mas também o acesso a estratégias de cuidado em saúde mais inclusivas. </p>
<p>Pensamos especialmente nas comunidades historicamente marginalizadas e socialmente vulneráveis.</p>
<hr>
<p><em>Esta pesquisa recebe apoio financeiros de agências como a <a href="https://www.faperj.br/">Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj)</a>, <a href="https://www.gov.br/cnpq/pt-br">Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)</a> e da <a href="https://www.gov.br/capes/pt-br">Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes)</a>, que também financia a publicação deste artigo.</em></p><img src="https://counter.theconversation.com/content/274760/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Lays Souza da Silva recebe financiamento da FAPERJ. </span></em></p><p class="fine-print"><em><span>Carlos Fernando Araujo Lima de Oliveira recebe financiamento da FAPERJ, CAPES e CNPq.</span></em></p><p class="fine-print"><em><span>Israel Felzenszwalb recebe financiamento da Faperj e do CNPq</span></em></p>Conhecidas também como Aranto ou Folha Miraculosa, espécies de plantas do gênero Kalanchoe são usadas no tratamento de diversos tipos de inflamação e exemplificam a profundidade e a sofisticação dos saberes tradicionais brasileiros no combate a doenças complexasLays Souza da Silva, Biomédica, professora universitária e doutoranda em Biociências, UERJCarlos Fernando Araujo Lima, Professor Adjunto no Departamento de Genética e Biologia Molecular da UniRio e docente colaborador do Programa de Pós-graduação em Biociências da Uerj, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)Israel Felzenszwalb, professor Titular do Departamento de Biofísica e Biometria, Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes, UERJLicensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2750012026-02-04T13:15:07Z2026-02-04T13:15:07ZTranscriptômica espacial: quando o local onde surge o câncer importa tanto quanto a célula<figure><img src="https://images.theconversation.com/files/716250/original/file-20260204-86-i2mumm.png?ixlib=rb-4.1.0&rect=240%2C0%2C2455%2C1637&q=45&auto=format&w=1050&h=700&fit=crop" /><figcaption><span class="caption">Mapear o território tumoral pode abrir caminhos para terapias mais precisas: novas ferramentas como a transcriptômica espacial revelam por que o contexto do tumor faz diferença. </span> <span class="attribution"><span class="source">Imagem: American Chemical Society</span>, <a class="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/">CC BY</a></span></figcaption></figure><p><em>Hoje, 4 de fevereiro, é o Dia Mundial do Câncer, movimento liderado pela União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), com aval da OMS. Por isso, o The Conversation Brasil publica, hoje e pelos próximos dias, artigos exclusivos sobre o assunto, assinados por grandes especialistas brasileiros em oncologia.</em></p>
<hr>
<p>Durante décadas, estudar o câncer foi como tentar compreender uma cidade observando apenas seus habitantes, um a um. Não sabíamos onde viviam, como se organizavam ou com quem interagiam. Faltava o mapa.</p>
<p>Esse cenário começa a mudar com o surgimento de uma nova geração de tecnologias capazes de revelar algo até então invisível e essencial tanto para a pesquisa como para o tratamento: onde os genes estão ativos dentro dos tecidos doentes?</p>
<p>É nesse contexto que emerge a <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Transcrit%C3%B4mica_espacial">transcriptômica espacial</a>. É uma abordagem que permite mapear a atividade gênica diretamente em cortes de tecido intacto, preservando a localização original das células.</p>
<h2>Transcriptômica na pesquisa em câncer</h2>
<p>Ao mostrar não apenas quais genes estão ativados, mas em que lugar e em interação com quais células, essa tecnologia vem transformando a compreensão da biologia das doenças.</p>
<p>Seus impactos são particularmente promissores no câncer, ao abrir caminhos para o desenvolvimento de novos medicamentos e estratégias terapêuticas mais precisas.</p>
<p>É nesse campo ainda extremamente novo — e repleto de desafios — que nós, pesquisadores do <a href="https://www.gov.br/inca/pt-br">Instituto Nacional de Câncer (Inca)</a>, temos concentrado nossos esforços nos últimos anos.</p>
<p>A integração da <a href="https://www-frontiersin-org.translate.goog/journals/neuroscience/articles/10.3389/fnins.2021.591122/full?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc">transcriptômica de célula única</a> com a abordagem espacial permite compreender a heterogeneidade tumoral com um nível de precisão sem precedentes. Orienta tratamentos mais eficazes e subsidia intervenções em saúde pública.</p>
<p>Acreditamos que essas tecnologias são fundamentais para identificar assinaturas moleculares específicas da população local. E contribui para o aprimoramento da detecção precoce, o direcionamento de programas de rastreamento e a descoberta de novos alvos terapêuticos.</p>
<p>Mais do que um avanço científico importante, trata-se de um passo estratégico para o fortalecimento da ciência nacional. E mais: importante para embasar políticas públicas, decisões de investimento e incorporação de novas terapias no sistema de saúde público e privado.</p>
<h2>Potencial clínico e científico</h2>
<p>Um exemplo concreto desse potencial é um estudo atualmente em andamento no Inca. </p>
<p>Pelo projeto, geramos dados de célula única e transcriptômica espacial de <a href="https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/tipos/ovario">pacientes com câncer de ovário</a> que não respondem à quimioterapia. E comparamos-os com dados de pacientes que apresentam boa resposta ao tratamento.</p>
<p>O objetivo é identificar marcadores celulares e moleculares capazes de explicar essa diferença de resposta.</p>
<p>A perspectiva é de que, no futuro, esses achados possam ser incorporados à prática clínica. </p>
<p>Contribuir para o manejo terapêutico e a personalização do cuidado das pacientes é o nosso foco.</p>
<h2>Como tudo começou</h2>
<p>Foi assim que surgiu a necessidade de obter informações neste nível de resolução para os casos da nossa população. E não de populações dos Estados Unidos e Europa, onde a maioria das pesquisas com essa tecnologia ocorre.</p>
<p>Ao tentar implementar esta tecnologia, notamos que era fundamental mapear e evidenciar a histórica sub-represntação dos países da América Latina.</p>
<p>Iniciativas internacionais como a expansão do <a href="https://www.humancellatlas.org/">Human Cell Atlas</a> e os programas de <a href="https://chanzuckerberg.com/science/programs-resources/cell-science/ancestry-networks/">Ancestry Networks da Chan Zuckerberg Initiative</a> já apontavam lacunas para pesquisas da América Latina que mostrassem nossas características diferenciadas de outros povos.</p>
<p>E com isso, reforçar a urgência de uma ação coordenada entre os países da região.</p>
<p>Diante disso, reunimos pesquisadores da América Latina em um esforço colaborativo para compreender necessidades locais, avaliar a capacidade instalada e identificar barreiras estruturais, a partir de inquéritos regionais sistemáticos.</p>
<h2>Desigualdades e barreiras</h2>
<p>Apesar do potencial transformador dessas tecnologias para a ciência e a saúde, o estudo da transcriptômica em câncer na América Latina enfrenta desafios profundos.</p>
<p>Essas barreiras foram a mola propulsora para a produção de um artigo de reflexão, coordenado por nosso grupo do Inca e, recentemente, publicado. </p>
<p>O estudo foi feito em parceria com pesquisadores do <a href="https://www.sanger.ac.uk/">Instituto Wellcome Sanger</a>, do <a href="https://www.wellcomeconnectingscience.org/">Wellcome Connecting Science</a>, no Reino Unido, e de diversas universidades e institutos da América Latina.</p>
<p>Intitulado <a href="https://www.cell.com/cell/abstract/S0092-8674(25)01081-5">Exploring Latin America cell by cell</a> (em português, Explorando a América Latina célula por célula), o trabalho foi publicado no final de 2025 na revista científica <a href="https://www.cell.com/cell/home">Cell</a> - um dos periódicos mais influentes da área.</p>
<p>No artigo, discutimos o enorme potencial da região para oferecer <em>insights</em> únicos sobre diversidade genética, adaptações ambientais e desafios urgentes de saúde, como doenças crônicas não transmissíveis — incluindo câncer e obesidade — e doenças infecciosas endêmicas, como Zika e dengue.</p>
<p>Além do enorme potencial dos dados da América Latina para o campo da transcriptômica, identificamos enormes desafios. </p>
<p>O principal obstáculo foi o financiamento insuficiente, especialmente diante dos altos custos de reagentes e outros produtos consumíveis.</p>
<p>Em nosso estudo, 93% dos pesquisadores apontaram esses insumos como a barreira mais crítica. Em muitos casos, os preços praticados na região chegam a ser o dobro dos valores internacionais.</p>
<p>Outro achado marcante foi o impacto desproporcional dos custos operacionais. Em muitos casos, o gasto anual com reagentes equivale ao orçamento total de um laboratório latino-americano.</p>
<p>Soma-se a isso, o acesso limitado a equipamentos, a concentração de infraestrutura em poucos centros e as dificuldades de colaboração interinstitucional.</p>
<p>Como consequência, observamos um predomínio de pesquisas em bioinformática. Quase 90% dos cientistas trabalham exclusivamente com dados públicos, enquanto apenas 6% conseguem gerar resultados experimentais.</p>
<p>Ainda assim, houve um aumento expressivo no acesso às plataformas de genômica de célula única entre 2022 e 2024 — de 15% para 61% — embora de forma desigual e concentrada em países como Brasil, Chile e México.</p>
<p>Há ainda entraves éticos e regulatórios, além do risco da chamada “pesquisa de helicóptero "— quando cientistas de países de alta renda coletam amostras na América Latina, mas publicam os resultados em revista de impacto internacional, mas com envolvimento e reconhecimento mínimo de cientistas locais.</p>
<h2>Caminhos para a superação</h2>
<p>Para enfrentar esses desafios, propomos três pilares centrais. O primeiro é o financiamento orientado pela equidade, com subsídios para insumos e priorização de regiões historicamente sub-representadas.</p>
<p>O segundo envolve o investimento em infraestrutura comunitária, incluindo <a href="https://www.gov.br/conselho-nacional-de-saude/pt-br/camaras-tecnicas-e-comissoes/conep/biobancos">biobancos</a> e instalações compartilhadas em escala continental, que permitam compras coletivas e uso racional de recursos.</p>
<p>Por fim, defendemos o fortalecimento de práticas institucionais e políticas públicas que simplifiquem acordos interinstitucionais, promovam colaborações justas e ampliem a conscientização social e política sobre a relevância estratégica desse campo de pesquisa.</p>
<p>Porque compreender o câncer, afinal, exige mais do que observar células isoladas: exige enxergar o território em que elas vivem.</p>
<hr>
<p><em>Esta pesquisa contou com apoio da <a href="https://wellcome.org/">Wellcome Trust</a>, <a href="https://www.wellcomeconnectingscience.org/">Wellcome Connecting Science</a>, <a href="https://chanzuckerberg.com/blog/ai-biology-grand-scientific-challenges/">Chan Zuckerberg Initiative</a>, <a href="https://royalsociety.org/">Royal Society</a> e <a href="https://www.cancer.org.br/">Fundação do Câncer</a>.</em></p><img src="https://counter.theconversation.com/content/275001/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Patricia Abrão Possik recebeu financiamento da WCS, CZI, Royal Society, CNPq</span></em></p><p class="fine-print"><em><span>João Paulo de Biaso Viola recebe financiamento da FAPERJ, CNPq, FINEP, CAPES. </span></em></p><p class="fine-print"><em><span>Mariana Boroni recebeu financiamento da WCS, CZI e CNPq. </span></em></p>Nova geração de tecnologias começa a revelar algo até então invisível e essencial tanto para a pesquisa como para o tratamento do câncer: onde os genes estão ativos dentro dos tecidos doentes?Patricia Abrão Possik, pesquisadora Titular, Instituto Nacional de Câncer (INCA)João Paulo de Biaso Viola, coordenador de Pesquisa e Inovação e vice-Diretor Geral, Instituto Nacional de Câncer (INCA)Mariana Boroni, pesquisadora Titular, líder do Laboratório de Bioinformática e Biologia Computacional e docente do programa de pós-graduação em Oncologia do INCA, Instituto Nacional de Câncer (INCA)Licensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2750002026-02-04T13:14:44Z2026-02-04T13:14:44ZUniversal, mas desigual: como os sistemas de saúde impactam a sobrevida no câncer de mama<p><em>Hoje, 4 de fevereiro, é o Dia Mundial do Câncer, movimento liderado pela União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), com aval da OMS. Por isso, o The Conversation Brasil publica, hoje e pelos próximos dias, artigos exclusivos sobre o assunto, assinados por grandes especialistas brasileiros em oncologia.</em></p>
<hr>
<p>O Brasil possui um <a href="https://www.gov.br/saude/pt-br/sus">sistema de saúde universal</a>, que é um exemplo internacionalmente reconhecido. Embora todas as mulheres tenham o direito de <a href="https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/setembro/ministerio-da-saude-garante-acesso-a-mamografia-a-partir-dos-40-anos">acesso ao rastreamento</a>, ao diagnóstico e ao tratamento do câncer de mama, na prática, isso não acontece.</p>
<p>Um <a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41616243/">estudo</a> publicado recentemente por nosso grupo mostra que o sistema de saúde no qual a mulher realiza o tratamento, seja público ou privado, influencia diretamente sua chance de sobreviver. O estudo, assinado por médicos e pesquisadores dos institutos <a href="https://www.gov.br/inca/pt-br">Nacional de Câncer</a>, <a href="https://www.rededorsaoluiz.com.br/instituto/idor">D’Or de Pesquisa e Ensino</a>, da <a href="https://ufrj.br/">Universidade Federal do Rio de Janeiro</a>, <a href="https://www.ufrgs.br/site/">Universidade Federal do Rio Grande do Sul</a> e pela <a href="https://www.roche.com.br/?cid=ps_googlesearchsrinstitucional_roche2301brsearch_cp-institucional_roche_kw-roche-brasil-frase&utm_source=google&utm_medium=sem&utm_campaign=ps_googlesearchsrinstitucional_roche2301brsearch_cp-institucional_roche_kw-roche-brasil-frase&gad_source=1&gad_campaignid=19641387749&gbraid=0AAAAADgO3gOClAfMMby82Pq2poi_kWtnz&gclid=CjwKCAiA1obMBhAbEiwAsUBbInmL1E6og8rVs7MKAq_qJEIZbQ4AOxA6-XoLyl7H65eiKaBl4hpkGxoC46oQAvD_BwE">Roche Farmacêutica</a>, foi publicado no <em>Journal of Clinical Oncology - Global Oncology</em>, uma das principais revistas científicas da oncologia mundial.</p>
<p>A pesquisa analisou dados de 63.663 mulheres diagnosticadas com câncer de mama invasivo entre 2012 e 2019. As informações vieram do maior registro hospitalar de câncer do Brasil, que reúne dados de dezenas de hospitais públicos e privados do estado de São Paulo.</p>
<p>Embora os dados sejam estaduais, São Paulo concentra cerca de 22% da população brasileira e a maior rede oncológica do país, o que torna os resultados altamente relevantes para a realidade nacional.</p>
<h2>O tempo faz diferença</h2>
<p>Os achados são claros e preocupantes. A primeira grande desigualdade aparece no momento do diagnóstico. Entre as mulheres tratadas pelo <a href="https://www.gov.br/saude/pt-br/sus">Sistema Único de Saúde (SUS)</a>, 41% chegaram ao hospital com doença avançada, nos <a href="https://www-bcrf-org.translate.goog/about-breast-cancer/breast-cancer-stages/?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc">estágios III ou IV</a>. Na saúde suplementar, esse percentual foi de 21%.</p>
<p>Em câncer de mama, o tempo faz diferença. Tumores diagnosticados em fases iniciais têm maiores chances de cura e exigem tratamentos menos agressivos. Quando o diagnóstico atrasa, o tratamento se torna mais complexo e a sobrevida diminui.</p>
<p>O estudo também avaliou se as pacientes receberam o chamado tratamento mínimo padrão, definido de acordo com o estágio da doença.</p>
<p>Para tumores iniciais, isso significa cirurgia. Para doença localmente avançada, cirurgia combinada com quimioterapia e radioterapia. Para doença metastática, quimioterapia.</p>
<p>Mesmo considerando apenas esse mínimo esperado, o acesso não foi igual. No SUS, 74,6% das mulheres receberam esse cuidado. No sistema privado, o percentual foi de 80,9%.</p>
<h2>Diferenças de acesso e de tempo impactam na sobrevida</h2>
<p>Cinco anos após o diagnóstico, 79,7% das mulheres tratadas na saúde suplementar estavam vivas, em comparação com 66,2% das tratadas no sistema público. Isso representa uma diferença absoluta de 13,5 pontos percentuais. Em termos simples, a cada 100 mulheres, cerca de 13 a mais morreram em cinco anos no SUS.</p>
<p>Para avaliar se essa diferença poderia ser explicada apenas por fatores como idade, estágio da doença ou escolaridade, foi realizada uma análise estatística ajustada.</p>
<p>Mesmo após esse ajuste, as mulheres atendidas no SUS apresentaram um risco de morte 53% maior ao longo de cinco anos, em comparação com aquelas tratadas na saúde suplementar. Essa desigualdade apareceu em todos os estágios da doença, inclusive nos tumores diagnosticados precocemente.</p>
<h2>Determinantes sociais</h2>
<p>Não se pode atribuir piores desfechos apenas à biologia do câncer. Os resultados desta pesquisa mostram que fatores estruturais do cuidado - como acesso, tempo de espera, organização do sistema e <a href="https://dssbr.ensp.fiocruz.br/dss-o-que-e/">determinantes sociais</a>, têm um papel central na sobrevida.</p>
<p>Mais da metade das mulheres tratadas no SUS tinham até oito anos de escolaridade. A menor escolaridade esteve associada a pior sobrevida, independentemente do estágio da doença.</p>
<p>Isso evidencia o impacto dos determinantes sociais da saúde, que influenciam o acesso à informação, a capacidade de buscar atendimento e de navegar pelo sistema de saúde.</p>
<p>Os dados também refletem problemas já conhecidos da oncologia brasileira: atrasos no diagnóstico, filas para tratamento, desigualdade na oferta de radioterapia e dificuldade de acesso a terapias adequadas no tempo ideal.</p>
<p>O Brasil avançou ao garantir acesso universal à saúde. Mas universalidade não significa <a href="https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/equidade-em-saude">equidade</a>. Ter direito ao cuidado não garante que ele chegue de forma oportuna e adequada para todas as pessoas.</p>
<p>Se desigualdades dessa magnitude existem em São Paulo, o estado com maior infraestrutura do país, é razoável supor que o cenário seja semelhante ou pior em outras regiões.</p>
<p>A ciência cumpriu seu papel ao tornar visível essa desigualdade. Agora, o desafio é transformar evidência em decisão e ação.</p>
<p>Vale lembrar que a <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12732.htm">Lei brasileira número 12.732</a>, instituída em 2012, também conhecida como “Lei dos 60 Dias”, garante que o paciente com neoplasia maligna inicie o tratamento em até 60 dias após o diagnóstico. Ou em prazo menor, conforme a necessidade clínica. O prazo começa a contar a partir da data do diagnóstico confirmado em laudo patológico e inclui cirurgias, quimioterapia ou radioterapia.</p>
<p>Enquanto as políticas públicas voltadas ao cuidado do câncer de mama permanecerem no papel e não forem efetivamente implementadas, o sistema de saúde seguirá definindo quem tem mais chance de sobreviver no país.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/275000/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Cintia Sayuri Kurokawa La Scala de Oliveira trabalha para Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos. </span></em></p><p class="fine-print"><em><span>Iago Diogo Silveira trabalha para Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos. </span></em></p><p class="fine-print"><em><span>Nelson Francisco Correa Netto trabalha para Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos. </span></em></p><p class="fine-print"><em><span>Anne Dominique Lima, José Bines e Patrícia Klarmann Ziegelmann não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.</span></em></p>Em câncer de mama, tumores diagnosticados em fases iniciais têm maiores chances de cura e exigem tratamentos menos agressivos. Quando o diagnóstico atrasa, o tratamento se torna mais complexo e a sobrevida diminuiJosé Bines, Médico Oncologista do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino, da Clínica São Vicente, Instituto Nacional de Câncer (INCA)Anne Dominique Lima, médica mastologista, UFRJCintia Sayuri Kurokawa La Scala de Oliveira, médica pela Unifesp, tem especialização em Pediatria, Terapia Intensiva, Alergologia e Imunologia. Mestrado em Ciências, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)Iago Diogo Silveira, Analista de RWD na Roche, focado na geração de evidências estratégicas a partir de dados complexos de saúde e Engenheiro de Bioprocessos e Biotecnologia, Universidade Estadual Paulista (Unesp)Nelson Francisco Correa Netto, enfermeiro e cientista de dados, com doutorado em Ciências da SaúdePatrícia Klarmann Ziegelmann, professora titular do Departamento de Estatística e do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)Licensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2736682026-02-03T15:17:24Z2026-02-03T15:17:24ZDesign restrito, a falha silenciosa de inovação nas startups brasileiras<p>O Brasil vive um boom de startups. <a href="https://www.poder360.com.br/poder-empreendedor/brasil-tem-18-000-startups-em-operacao-sp-lidera-com-1-900-empresas/">Atualmente são 18 mil</a> e cada ano surgem novas empresas prometendo soluções inovadoras para velhos problemas. Mesmo assim, <a href="https://agenciasebrae.com.br/inovacao-e-tecnologia/metade-das-startups-brasileiras-nao-sobrevive-falta-de-faturamento-compromete-ecossistema-de-inovacao/">metade das startups brasileiras não sobrevive</a>. Um dos motivos menos discutidos para esse fracasso é o seguinte: muitas startups brasileiras buscam inovação, mas não sabem como fazê-lo de maneira sistemática.</p>
<p>Quando olhamos para empresas bem-sucedidas, como Apple e Google, muitos atribuem ao design parte do sucesso de suas inovações. São produtos inéditos e desejados pelo público. Mas quando se fala em design no ecossistema de startups, a associação mais comum é com aspectos visuais, identidade da marca ou interface de aplicativos.</p>
<p>Esses elementos são importantes, mas representam apenas uma parte do que o design pode oferecer. Pesquisas em inovação e empreendedorismo mostram que o design também é uma ferramenta utilizada para reduzir incertezas, organizar decisões estratégicas e transformar ideias em soluções viáveis.</p>
<p>Esse ponto é especialmente relevante no Brasil. Startups brasileiras operam em um ambiente marcado por <a href="https://empreendedor.com.br/tecnologia/startups/startups-crescem-no-brasil-mas-enfrentam-burocracia-e-regulacao/">escassez de recursos, instabilidade econômica e mudanças constantes nas regras do jogo</a>. Nessas condições inovar é imprescindível, mas errar custa caro. Decidir rápido, aprender com o usuário e ajustar o rumo é uma questão de sobrevivência. Especialmente se consideramos a importância do design para a <a href="https://sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/a-importancia-do-design-para-os-negocios,6e1b300bac71c510VgnVCM1000004c00210aRCRD">criação de produtos e para percepção de marca</a>.</p>
<h2>Design apenas em nível operacional é um problema</h2>
<p>Foi exatamente isso que investigou-se em uma pesquisa realizada entre 2021 e 2023 junto a empreendedores de startups brasileiras, especialistas em inovação e professores de design. Ao todo, foram mais de 40 entrevistas, analisadas de forma sistemática. O objetivo era entender como as startups inovam na prática e qual é, de fato, o papel do design nesse processo.</p>
<p>Descobriu-se que o design está presente em quase todas as startups, mas quase sempre restrito ao nível operacional. Ele aparece na criação de logotipos, interfaces, materiais de comunicação e, em alguns casos, na experiência do usuário. Raramente participa das decisões estratégicas ou da definição do próprio modelo de negócio.</p>
<p>Isso é um problema porque inovar não é apenas ter uma boa ideia. Inovação acontece quando uma solução nova é implementada e aceita pelo mercado. Autores como Peter Drucker e Eric Ries mostram que inovar exige testar hipóteses, aprender rápido e lidar com a incerteza de forma estruturada. É justamente nesse ponto que o design pode contribuir por meio de metodologias de trabalho próprias da área.</p>
<p>A pesquisa identificou quatro formas principais pelas quais startups brasileiras buscam inovar. A primeira é a inovação viável, quando o foco está em resolver um problema que muitas pessoas têm, apostando que o mercado aceitará a solução. A segunda é a inovação factível, baseada nos recursos e competências já disponíveis na empresa. A terceira é a inovação criativa, mais intuitiva, baseada em insights e ideias não estruturadas.</p>
<h2>A importância do ‘design thinking’</h2>
<p>A quarta abordagem é a que mais se aproxima do que a literatura chama de <a href="https://www.ibm.com/br-pt/think/topics/design-thinking">design thinking</a>. Trata-se de um processo que combina imersão no problema, geração de ideias e testes rápidos com usuários. Diferente do que muitos pensam, design thinking não é uma tempestade de ideias informal. É um método estruturado para tomar decisões em ambientes incertos.</p>
<p>Entre as quatro abordagens, apenas o design thinking aparece em outros estudos associado diretamente ao aprendizado contínuo e até mesmo à redução de riscos. Mesmo assim, seu uso nas startups brasileiras ainda é superficial. </p>
<p>Outro achado importante diz respeito aos designers. Eles são vistos pelos participantes da pesquisa como profissionais criativos e essenciais para inovação, mas raramente confiados a posições de liderança. Isso acontece também porque muitos cursos de design ainda não preparam seus alunos para empreender ou minimamente para entender a dinâmica dos negócios. O resultado é que o designer acaba atuando como executor, não como um gestor ou tomador de decisão.</p>
<p>Isso é um desperdício de potencial. Designers são treinados para resolver problemas complexos, equilibrando aspectos técnicos, econômicos e humanos. Essa habilidade é conhecida como criatividade orientada a objetivos: não se trata de criar por criar, mas de criar para resolver problemas reais.</p>
<p>Em startups, essa competência pode ajudar a alinhar tecnologia, necessidades do usuário e metas do negócio. Também pode apoiar a criação de produtos mais simples, testáveis e adaptáveis, algo essencial em mercados instáveis como o brasileiro.</p>
<h2>Não falta criatividade: falta entendimento de design</h2>
<p>O que essa pesquisa mostra, em resumo, é que o problema não é falta de criatividade nas startups brasileiras. O problema está relacionado à falta de entendimento do design como parte do processo de inovação. Enquanto o design for visto apenas como acabamento, muitas boas ideias continuarão morrendo antes de virar soluções sustentáveis.</p>
<p>Fortalecer a inovação no Brasil passa por rever como formamos designers, como empreendedores tomam decisões e como o design é integrado às empresas. Não se trata de moda ou tendência. Trata-se de usar melhor uma ferramenta que já mostrou, na prática, que ajuda empresas a inovar com menos risco.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/273668/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Rodrigo Schoenacher foi pesquisador bolsista da Capes durante o período de 2019 a 2020 e atualmente atua como Diretor Senior de Operações na Conservation International Brasil, organização sem fins lucrativos dedicada a projetos ambientais.</span></em></p>Pesquisa realizadajunto a empreendedores de startups brasileiras procurou entender como elas inovam na prática e qual é, de fato, o papel do design nesse processoRodrigo Schoenacher, Doutor em Empreendedorismo e Inovação, UERJLicensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2731332026-02-03T14:58:58Z2026-02-03T14:58:58ZJoão Pessoa: como a exploração excessiva do turismo e do mercado imobiliário está mudando a vida na capital da Paraíba<figure><img src="https://images.theconversation.com/files/715975/original/file-20260203-66-pjk7dn.png?ixlib=rb-4.1.0&rect=752%2C0%2C1823%2C1215&q=45&auto=format&w=1050&h=700&fit=crop" /><figcaption><span class="caption">A orla de João Pessoa: por anos considerada uma alternativa mais barata e sustentável ao turismo de massa no Nordeste, a capital da Paraíba vem sofrendo muito com o turismo desordenado e a explosão imobiliária. </span> <span class="attribution"><span class="source">Foto: Wikipedia</span>, <a class="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/">CC BY</a></span></figcaption></figure><p>Vivendo em João Pessoa não é possível deixar de perceber o que está acontecendo com a cidade, com a vida de quem vive nela e como o seu ecossistema vem sendo alterado pela quantidade de pessoas e de resíduos gerados, em especial esgoto, os preços de bens de consumo e sobre se deslocar na cidade em especial ao final da tarde. São vários exemplos e detalhes que podem ser trazidos. Claro, observa-se também o planejamento para faturar com o turismo na alta temporada, ao passo que falta planejamento infraestrutural para o impacto que isso representa.</p>
<p>João Pessoa costuma ser apresentada como um exemplo bem-sucedido de turismo “sustentável”, o ponto mais oriental das Américas e pela beleza de suas praias. A imagem de cidade verde, tranquila, dotada de praias urbanas balneáveis ou mesmo como a <a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c878w1140evo">“nova queridinha” do Nordeste</a> tornou-se um ativo estratégico de hype nas redes sociais e de marketing, contribuindo para projetar a capital paraibana no circuito nacional do turismo e da moradia desejável. </p>
<p>Junto a esse discurso positivo, o turismo de massa revela contradições profundas, que dizem respeito ao modo como o espaço urbano é produzido, apropriado e governado. Longe de ser apenas um setor econômico, o turismo e o mercado imobiliário tornaram-se um princípio organizador da cidade, com impactos sociais, ambientais e relações políticas pouco transparentes que exigem análise crítica e ação imediata dos orgãos de controle e fiscalização.</p>
<p>Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o<a href="https://auniao.pb.gov.br/noticias/caderno_paraiba/pb-cresce-mais-que-a-media-do-pais">crescimento populacional da Paraíba superou as médias nacional e nordestina</a>, com João Pessoa destacando-se como a capital do Nordeste que mais cresceu proporcionalmente nos últimos anos. Parte significativa dos novos moradores é composta por aposentados e profissionais que atuam em regime de trabalho remoto e são atraídos pela momentânea experiência turística e pela propaganda da qualidade de vida.</p>
<h2>Turismo de massa como elemento estrutural do modelo urbano</h2>
<p>A literatura crítica na sociologia urbana permite compreender o turismo de massa não como efeito colateral, mas como elemento estrutural de um modelo urbano orientado pelo lucro e dissociado do bem-estar da maioria da população. No caso de João Pessoa, essa dinâmica expressa uma marca histórica do urbanismo brasileiro: <a href="https://labcs.ufsc.br/files/2011/12/07.-MARICATO-E.-As-id%C3%A9ias-fora-do-lugar-e-o-lugar-fora-das-id%C3%A9ias.pdf">a separação entre planejamento formal e realidade social</a>). </p>
<p>O Estado concentra investimentos em áreas estratégicas para o capital turístico-imobiliário, como a orla e o centro histórico, enquanto bairros populares como Gramame – que <a href="https://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2024/11/14/mangabeira-permanece-como-o-bairro-mais-populoso-da-paraiba-gramame-assume-2o-lugar.ghtml">recebeu mais de 40 mil novos habitantes na última década</a> – permanecem com déficits estruturais, consolidando um “urbanismo de fachada”.</p>
<p>Essa seletividade espacial articula-se à <a href="https://www.abecip.org.br/imprensa/noticias/raquel-rolnik-investiga-causas-da-crise-global-da-moradia">financeirização da moradia</a>. A expansão da <a href="https://auniao.pb.gov.br/noticias/economia/capital-lidera-crescimento-vertical-em-todo-nordeste">verticalização desenfreada</a> por meio de flats, aluguéis de curta duração e empreendimentos voltados ao turismo transforma a habitação em ativo financeiro, eleva preços e promove a expulsão indireta de moradores de baixa renda, sobretudo nas áreas mais valorizadas. </p>
<p>Em sua obra, o filósofo e sociólogo francês <a href="https://monoskop.org/images/f/fc/Lefebvre_Henri_O_direito_a_cidade.pdf">Henry Lefebvre</a> aprofundou essa crítica ao evidenciar a negação do direito à cidade, uma vez que o espaço urbano passa a ser organizado segundo seu valor de troca, e não como obra coletiva orientada ao uso social. </p>
<p>Já o geógrafo e antropólogo contemporâneo <a href="https://pratclif.com/economy/money_files/harvey_a_brief_history_of_neoliberalism.pdf">David Harvey</a> interpreta o turismo predatório como parte da acumulação por espoliação, na qual recursos públicos, bens comuns e direitos urbanos são mobilizados para absorver as demandas de interesses privados e privatizando benefícios, socializando os custos sociais e <a href="https://www.instagram.com/movimentoesgotei/">ambientais</a> para a maioria da população.</p>
<h2>Desenvolvimento contraditório</h2>
<p>Essa dinâmica gera uma contradição central: o turismo depende da preservação ambiental e da qualidade de vida urbana, mas sem o planejamento adequado ao longo do ano e com ampla participação social, como no caso de João Pessoa, gera danos nos ecossistemas costeiros. Além de aumentar a pressão sobre infraestrutura urbana e intensificar as desigualdades sociais. </p>
<p>A cidade passa a viver uma tensão permanente entre ser um lugar de vida e o lugar de lucro e de poluição de grupos de investidores e frações da elite local que se beneficiam da atual situação. Em períodos de alta estação especialmente, essa contradição se torna visível com o aumento do <a href="https://www.instagram.com/movimentoesgotei/">esgoto sem tratamento jogado na orla,</a> o <a href="https://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2025/11/17/turismo-sustentavel-producao-de-lixo-aumenta-30percent-na-alta-estacao-com-maior-fluxo-de-turistas-na-paraiba.ghtml">aumento da produção de lixo</a>, do consumo de <a href="https://www.instagram.com/reels/DRfCL9RDkf_/">água</a> e energia, na superlotação das praias.</p>
<p>Episódios recorrentes de despejo irregular de esgoto nas praias de Tambaú, Manaíra, Bessa e Cabo Branco expõem a dificuldade do poder público em conter práticas poluidoras protagonizadas por empreendimentos que buscam na cidade o seu lucro. Casos como o do Bar do Cuscuz, <a href="https://www.polemicaparaiba.com.br/polemicas/denuncia-bar-do-cuscuz-pode-ser-responsavel-por-esgoto-despejado-na-praia-de-cabo-branco/">conhecido desde 2017 pelos órgãos ambientais</a>por despejar esgoto diretamente no mar, ilustram a reincidência dessas infrações, <a href="https://www.brasildefato.com.br/2025/08/28/mppb-investiga-bar-do-cuscuz-por-suspeita-de-despejo-de-esgoto-em-praia-de-joao-pessoa/">continua até hoje sendo alvo de denúncias</a>. </p>
<p>Situação semelhante é a do Hotel Nord Easy, também identificado como um dos responsáveis por despejar esgoto no mar, cujo gerenciamento é feito pela Rede Nord,<a href="https://jornaldaparaiba.com.br/politica/pleno-poder/ligacao-de-secretario-de-turismo-com-esgoto-na-praia-coloca-tema-na-mesa-de-cicero-lucena">pertencente ao ex-secretário de Turismo de João Pessoa</a>. Esses e outros episódios, por exemplo, evidenciam possíveis conflitos de interesse e as assimetrias na aplicação da legislação ambiental.</p>
<p>O discurso do turismo sustentável, ao enfatizar atributos naturais e práticas pontuais de preservação, ele tende a ocultar as relações de poder que organizam o uso do território em João Pessoa. Sustentabilidade, nesse contexto, transforma-se em retórica legitimadora, desvinculada de mecanismos efetivos de controle urbano, participação social e justiça ambiental como é o caso do <a href="https://jpsustentavel.joaopessoa.pb.gov.br/">Programa João Pessoa Sustentável</a>. Fala-se em cidade verde, mas evita-se discutir quem paga o preço e como os contribuintes irão <a href="https://www.iadb.org/pt-br/noticias/brasil-fortalecera-o-desenvolvimento-urbano-integrado-e-sustentavel-de-joao-pessoa-com">pagar os empréstimos ao BID</a> para promover essa “sustentabilidade” e quem de fato se apropriará do montante financeiro gerado.</p>
<p>O desafio para os governos municipal e estadual na Paraíba, parece não ser apenas tornar o turismo mais eficiente ou mais “verde”, mas recolocar no centro do debate a pergunta fundamental: a cidade está tão boa para a sua população, quanto está para o turismo de massa e a especulação imobiliária?</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/273133/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.</span></em></p>João Pessoa costuma ser apresentada como um exemplo bem-sucedido de turismo “sustentável” no Nordeste, mas revela contradições profundas, que dizem respeito ao modo como o espaço urbano é produzido, apropriado e governadoSérgio Botton Barcellos, Docente do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Universidade Federal da Paraíba (UFPB)Henry Santos, Assistente de pesquisa e membro do Grupo de Ensino e Pesquisa em Sociologia, Estado e Movimentos Sociais (Gepsem), Universidade Federal da Paraíba (UFPB)Licensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2749602026-02-03T14:00:55Z2026-02-03T14:00:55ZSaiba porque seus genes parecem ser mais importantes para sua longevidade hoje do que seriam há um século<figure><img src="https://images.theconversation.com/files/715871/original/file-20260202-56-l257wc.jpg?ixlib=rb-4.1.0&rect=0%2C1%2C6720%2C4480&q=45&auto=format&w=1050&h=700&fit=crop" /><figcaption><span class="caption">Estudo recente identificou maior influência da chamada "herdabilidade", que acompanhou melhorias na qualidade de vida da população em geral: quando a variação ambiental diminui, a proporção da variação restante atribuída à genética aumenta por necessidade matemática</span> <span class="attribution"><a class="source" href="https://www.shutterstock.com/image-photo/back-view-elderly-couple-walking-doing-2598717767?trackingId=588ef893-3cbd-46f4-8d9f-e27571d47957&listId=searchResults">buritora/Shutterstock.com</a></span></figcaption></figure><p>Até que ponto os seus genes determinam quanto tempo você viverá? Está é uma questão que nos fascina e tem sido debatida há décadas. Durante anos, a resposta parecia estar definida: os genes são responsáveis por cerca de 20% a 25% da variação na expectativa de vida humana, sendo o restante atribuído ao estilo de vida e ao ambiente.</p>
<p>Mas um novo estudo publicado na revista científica <a href="https://www.science.org/doi/10.1126/science.adz1187"><em>Science</em></a> desafia essa visão, sugerindo que a contribuição genética pode ser consideravelmente maior.</p>
<p>A razão, de acordo com os pesquisadores, é que as estimativas anteriores não levaram em conta como as causas de morte mudaram ao longo do tempo. Há um século, muitas pessoas morriam do que os cientistas chamam de causas extrínsecas – acidentes, infecções e outras ameaças externas.</p>
<p>Hoje, pelo menos nos países desenvolvidos, a maioria das mortes resulta de causas intrínsecas: o desgaste gradual de nossos corpos devido ao envelhecimento e doenças relacionadas à idade, como demência e doenças cardíacas.</p>
<p>Para obter uma imagem mais clara, a equipe de pesquisa analisou grandes grupos de gêmeos escandinavos, excluindo cuidadosamente as mortes por causas externas. Eles também estudaram gêmeos que foram criados separadamente e irmãos de centenários nos Estados Unidos.</p>
<p>Quando excluíram as mortes por acidentes e infecções, a contribuição genética estimada aumentou drasticamente — dos conhecidos 20-25% para cerca de 50-55%.</p>
<p>O padrão faz sentido quando se analisa doenças individuais. A genética explica grande parte da variação no risco de demência, tem um efeito intermediário nas doenças cardíacas e desempenha um papel relativamente modesto no câncer. À medida que os ambientes se tornam mais favoráveis, as populações envelhecem e as doenças causadas pelo próprio processo de envelhecimento se tornam mais comuns, o componente genético naturalmente parece maior.</p>
<h2>Nossos genes não ficaram mais poderosos</h2>
<p>Mas é aqui que a interpretação se torna crucial. Uma estimativa mais alta não significa que os genes de repente se tornaram mais poderosos, nem significa que você só pode influenciar metade de suas chances de chegar à velhice. O que mudou foi o ambiente, não nosso DNA.</p>
<p>Considere a altura humana como exemplo. Cem anos atrás, a altura que você alcançava dependia muito de você ter comida suficiente e de doenças infantis atrapalharem seu crescimento.</p>
<p>Hoje, em nações ricas, quase todo mundo recebe nutrição adequada. Como essas diferenças ambientais diminuíram, a maior parte da variação restante na altura agora é explicada por diferenças genéticas — não porque a nutrição deixou de ser importante, mas porque a maioria das pessoas agora atinge seu potencial genético. Mas uma criança desnutrida ainda não conseguirá crescer, independentemente de seus genes. </p>
<p>O mesmo princípio se aplica à expectativa de vida. À medida que melhoramos a vacinação, reduzimos a poluição, aprimoramos a dieta e adotamos estilos de vida mais saudáveis, diminuímos o impacto geral dos fatores ambientais.</p>
<p>Quando a variação ambiental diminui, a proporção da variação restante atribuída à genética — o que os cientistas chamam de “herdabilidade” — aumenta por necessidade matemática. As estimativas anteriores não estavam erradas; elas simplesmente refletiam circunstâncias históricas diferentes.</p>
<figure class="align-center ">
<img alt="Um gráfico mostrando a dupla hélice do DNA humano." src="https://images.theconversation.com/files/715669/original/file-20260202-56-5vf5ts.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&fit=clip" srcset="https://images.theconversation.com/files/715669/original/file-20260202-56-5vf5ts.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=600&h=336&fit=crop&dpr=1 600w, https://images.theconversation.com/files/715669/original/file-20260202-56-5vf5ts.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=600&h=336&fit=crop&dpr=2 1200w, https://images.theconversation.com/files/715669/original/file-20260202-56-5vf5ts.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=600&h=336&fit=crop&dpr=3 1800w, https://images.theconversation.com/files/715669/original/file-20260202-56-5vf5ts.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&h=422&fit=crop&dpr=1 754w, https://images.theconversation.com/files/715669/original/file-20260202-56-5vf5ts.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=754&h=422&fit=crop&dpr=2 1508w, https://images.theconversation.com/files/715669/original/file-20260202-56-5vf5ts.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=754&h=422&fit=crop&dpr=3 2262w" sizes="(min-width: 1466px) 754px, (max-width: 599px) 100vw, (min-width: 600px) 600px, 237px">
<figcaption>
<span class="caption">Seus genes não mudaram. O ambiente mudou.</span>
<span class="attribution"><a class="source" href="https://www.shutterstock.com/image-photo/dna-gene-helix-spiral-molecule-structure-2489450877?trackingId=b9488a61-c33b-4f53-8c91-17c7884c9b03&listId=searchResults">romakhan3595/Shutterstock.com</a></span>
</figcaption>
</figure>
<p>Isso revela algo fundamental: a herdabilidade não é uma propriedade biológica fixa, mas uma medida que depende inteiramente da população e das circunstâncias que você está observando. O número tradicional de 20% a 25% descrevia a expectativa de vida como era realmente vivida nas populações históricas, onde as ameaças externas eram grandes.</p>
<p>A nova estimativa de 50% a 55% descreve um cenário diferente, onde essas ameaças foram amplamente removidas – essencialmente descrevendo uma característica diferente.</p>
<p>O número principal da expectativa de vida ser cerca de <a href="https://www.livescience.com/health/ageing/lifespan-may-be-50-percent-heritable-study-suggests">“50% hereditária”</a> corre o risco de ser mal interpretado como significando que os genes determinam metade das chances de vida de uma pessoa. Na realidade, a contribuição genética para qualquer indivíduo pode variar de muito pequena a muito grande, dependendo de suas circunstâncias.</p>
<p>Existem inúmeras maneiras de se ter uma vida longa: algumas pessoas têm perfis genéticos robustos que as protegem mesmo em condições difíceis, enquanto outras compensam uma genética menos favorável por meio de excelente nutrição, exercícios e cuidados com a saúde. Cada pessoa representa uma combinação única, e muitas combinações diferentes podem resultar em longevidade excepcional.</p>
<p>Quais combinações se mostram mais comuns depende inteiramente da população e das condições em que as pessoas vivem e envelhecem. À medida que as causas externas de morte continuam a diminuir no mundo real — embora não venham a desaparecer totalmente —, será fascinante ver como esses padrões evoluem.</p>
<p>Os autores deste recente estudo admitem que cerca de metade da variação da expectativa de vida ainda depende do ambiente, estilo de vida, cuidados de saúde e processos biológicos aleatórios, como a divisão descontrolada das células no câncer. Eles argumentam que seu trabalho deve renovar os esforços para identificar os mecanismos genéticos envolvidos no envelhecimento e na longevidade. Compreender como diferentes fatores genéticos interagem com diferentes ambientes é provavelmente a chave para explicar por que algumas pessoas vivem muito mais do que outras.</p>
<p>O estudo oferece insights valiosos sobre como diferentes tipos de mortalidade moldaram nossa compreensão da expectativa de vida. Mas seus resultados são melhor compreendidos como mostrando como a herdabilidade muda em diferentes contextos, em vez de estabelecer uma contribuição genética única e universal para o tempo que vivemos.</p>
<p>No final das contas, tanto os genes quanto o ambiente são importantes. E, talvez mais importante, eles são importantes juntos. Portanto, quer isso pareça uma boa ou uma má notícia, você provavelmente nunca terá uma resposta simples para quanto da sua expectativa de vida é determinada apenas pelos genes.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/274960/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Karin Modig recebe financiamento do Swedish Research Council for Health, Working Life and Welfare e recursos do Karolinska Institutets.</span></em></p>Entenda por que o proporção que os cientistas se referem à influência genética na expectativa de vida parece ter dobradoKarin Modig, Associate Professor, Epidemiology, Karolinska InstitutetLicensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2749482026-02-03T13:57:20Z2026-02-03T13:57:20ZÚltimo tratado nuclear entre EUA e Rússia expira dia 4 de fevereiro e deixa mundo vulnerável a uma nova corrida armamentista<p>O tratado <em>New START</em>, o último acordo que limitava o número de armas nucleares da Rússia e dos EUA, expira em 4 de fevereiro.</p>
<p>Também não há negociações para prorrogar os termos do tratado. Como o presidente dos EUA, Donald Trump, <a href="https://www.nytimes.com/live/2026/01/08/us/trump-nyt-interview">afirmou de forma desdenhosa em uma entrevista recente</a>, “se ele expirar, ele expira”.</p>
<p>É difícil exagerar a importância do New START. À medida que outros tratados nucleares foram revogados nos últimos anos, este era o único acordo restante prevendo mecanismos de notificação, inspeção, verificação e conformidade entre a Rússia e os EUA. Juntos, estes dois países têm <a href="https://www.icanw.org/nuclear_arsenals">87% das armas nucleares do mundo</a>.</p>
<p>A expiração do tratado dará um fim definitivo e alarmante à limitação nuclear na relação entre as duas potências. E pode muito bem <a href="https://thebulletin.org/doomsday-clock/2026-statement/">acelerar uma corrida global pelo desenvolvimento e produção de armas nucleares por outros países</a>.</p>
<h2>O que é o New START?</h2>
<p>O <a href="https://2017-2021.state.gov/11-205">New START</a>, ou Tratado de Praga, foi assinado pelo então presidente dos EUA, Barack Obama, e seu homólogo russo, Dimitri Medvedev, em Praga, em 8 de abril de 2010. Ele entrou em vigor no ano seguinte. </p>
<p>Ele substituiu um tratado de 2002 que obrigava Rússia e Estados Unidos a reduzir e limitarem suas ogivas nucleares estratégicas operacionais para entre 1.700 e 2.200 até o final de 2012. </p>
<p>O New START também exigia reduções adicionais no número de armas nucleares de longo alcance e fornecia mais detalhes sobre os diferentes tipos de lançadores. Os novos limites eram:</p>
<ul>
<li>700 mísseis balísticos intercontinentais e lançados por submarinos (juntamente com bombardeiros pesados)</li>
<li>1.550 ogivas nucleares implantadas nessas plataformas, e</li>
<li>800 lançadores (em operação e não operacionais).</li>
</ul>
<p>Essas reduções foram alcançadas até 5 de fevereiro de 2018.</p>
<p>O tratado incluía mecanismos de conformidade e verificação que funcionaram de forma eficaz. Ele previa trocas semestrais de dados e notificações mútuas contínuas sobre o movimento das forças nucleares estratégicas, o que, na prática, ocorria quase diariamente. </p>
<p>É importante ressaltar que o tratado também exigia inspeções <em>in loco</em> com pouca antecedência dos mísseis, ogivas e lançadores abrangidos pelo tratado, fornecendo informações valiosas e estabilizadoras sobre as operações nucleares da outra parte. </p>
<p>Por fim, o tratado estabeleceu uma comissão consultiva bilateral e procedimentos claros para resolver questões ou disputas.</p>
<p></p>
<h2>Limitações do acordo</h2>
<p>O tratado foi criticado na época por seus cortes modestos no número de ogivas e pelos tipos limitados de armas nucleares que abrangia. </p>
<p>Mas a desvantagem mais duradoura foi o <a href="https://nonproliferation.org/new-start-ratification-a-bittersweet-success/">preço político</a> que Obama pagou para conseguir a ratificação pelo Senado dos EUA.</p>
<p>Para garantir apoio republicano suficiente, ele concordou com um programa de longo prazo de renovação e modernização de todo o arsenal nuclear dos EUA – além das instalações e programas que produzem e mantêm armas nucleares. O custo total foi estimado em bem mais de <a href="https://www.reachingcriticalwill.org/resources/publications-and-research/publications/15669-assuring-destruction-forever-2022">US$ 2 trilhões</a>. </p>
<p>Isso provavelmente causou mais danos ao consolidar a posse de armas nucleares pelos Estados Unidos e frustrar as perspectivas de desarmamento.</p>
<p>Como o New START estava prestes a expirar em 2021, a Rússia ofereceu prorrogá-lo por mais cinco anos, conforme permitido pelos termos. O presidente dos EUA, Donald Trump, no entanto, recusou-se a retribuir. </p>
<p>Após vencer as eleições presidenciais dos EUA em 2020, Joe Biden concordou em prorrogar o tratado em 3 de fevereiro de 2021, apenas dois dias antes de sua expiração. O tratado não prevê novas prorrogações.</p>
<p>Em fevereiro de 2023, a Rússia suspendeu a implementação de aspectos chave do tratado, incluindo a troca de dados sobre estoques e inspeções locais. Mas não se retirou formalmente e se comprometeu a continuar a cumprir os limites numéricos do tratado relativos a ogivas, mísseis e lançadores. </p>
<h2>O que pode acontecer a seguir</h2>
<p>Com a expiração iminente do tratado este ano, o presidente russo Vladimir Putin anunciou em setembro de 2025 que estava disposto a continuar a observar os limites numéricos por mais um ano, se os EUA agissem de forma semelhante. </p>
<p>Além de um comentário improvisado de Trump – “parece-me uma boa ideia” –, os EUA não responderam formalmente à oferta russa.</p>
<p>Trump complicou ainda mais as coisas ao insistir que as negociações sobre quaisquer acordos futuros de controle de armas nucleares incluíssem a China. Mas a China tem se recusado consistentemente a isso. Também não há precedentes para tais negociações trilaterais de controle nuclear ou desarmamento, que sem dúvida seriam longas e complexas. Embora em crescimento, o arsenal da China ainda é <a href="https://fas.org/initiative/status-world-nuclear-forces/">menos de 12%</a> do tamanho do arsenal dos EUA e menos de 11% do tamanho do arsenal da Rússia.</p>
<p>O novo tratado START agora parece prestes a expirar sem qualquer acordo para continuar a observar seus limites até que um tratado sucessor seja negociado.</p>
<p>Isso significa que Rússia e EUA <a href="https://fas.org/publication/if-arms-control-collapses-us-and-russian-strategic-nuclear-arsenals-could-double-in-size/">poderiam aumentar</a> suas ogivas operacionais em 60% e 110%, respectivamente, em questão de meses. Isso porque ambos têm capacidade para carregar um número maior de ogivas em seus mísseis e bombardeiros do que atualmente. Ambos os países também têm um grande número de ogivas em reserva ou programadas para desmantelamento, mas ainda intactas. </p>
<p>Se tomassem essas medidas, ambos os países poderiam efetivamente dobrar seus arsenais nucleares estratégicos operacionais.</p>
<p>O fim dos processos de verificação, troca de dados, conformidade e notificação do tratado também leva a um aumento da incerteza e da desconfiança. Isso, por sua vez, poderia levar a um aumento ainda maior das capacidades militares já gigantescas de ambos os países.</p>
<p></p>
<h2>Um alerta sinistro</h2>
<p>A parte mais inquietante dessa situação é que isso significa que o desarmamento nuclear e até mesmo o mais modesto controle de armas estão agora moribundos. </p>
<p>Nenhuma nova negociação para o desarmamento ou mesmo para a redução dos riscos nucleares está em andamento. Nenhuma está programada para começar. </p>
<p>No mínimo, após a expiração do New START esta semana, tanto a Rússia quanto os EUA deveriam concordar em <a href="https://theelders.org/news/expiration-new-start-threatens-our-collective-security">respeitar seus limites</a> até que negociem novas reduções e controles.</p>
<p>E, 56 anos após assumirem um compromisso vinculativo no <a href="https://disarmament.unoda.org/en/our-work/weapons-mass-destruction/nuclear-weapons/treaty-non-proliferation-nuclear-weapons#:%20%7E:text=O%20TNP%20%C3%A9%20um%20marco,usos%20pac%C3%ADficos%20da%20energia%20nuclear">Tratado de Não Proliferação Nuclear</a> para alcançar o desarmamento nuclear, ambas as nações devem trabalhar para implementar um acordo verificável entre todos os Estados com armas nucleares para eliminar seus arsenais.</p>
<p>Mas a Rússia, os EUA e outros Estados com armas nucleares estão indo na direção contrária.</p>
<p>As ações de Trump desde que assumiu o cargo pela segunda vez — desde bombardear o Irã até derrubar o líder da Venezuela — mostram seu desdém geral pelo direito internacional e por tratados. Elas também confirmam seu desejo de usar qualquer instrumento de poder para afirmar os interesses e a supremacia dos EUA (e seus interesses pessoais).</p>
<p>Putin, por sua vez, <a href="https://www.nytimes.com/2026/01/08/world/europe/russia-ukraine-nuclear-capable-missile.html">usou um míssil balístico de alcance intermediário com capacidade nuclear</a> para atacar a Ucrânia, fez <a href="https://www.theguardian.com/world/%202025/dez/30/r%C3%BAssia-afirma-ter-transferido-sistema-de-m%C3%ADsseis-com-capacidade-nuclear-para-a-bielorr%C3%BAssia">ameaças repetidas</a> de usar armas nucleares contra Kiev e o Ocidente e continuou sua <a href="https://www.aspistrategist.org.au/%20riscos-de-guerra-das-usinas-nucleares-basta-olhar-para-zaporizhzhia/">militarização sem precedentes e profundamente perigosa das usinas nucleares da Ucrânia</a>. </p>
<p>Essas ações sinalizam uma postura russa mais agressiva, que também ignora a Carta das Nações Unidas. </p>
<p>Tudo isso é um mau presságio para a prevenção de uma guerra nuclear e para o avanço do desarmamento nuclear.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/274948/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Tilman Ruff é afiliado à International Physicians for the Prevention of Nuclear War, à International Campaign to Abolish Nuclear Weapons, à The Medical Association for Prevention of War, ao Doctors for the Environment Australia e à Public Health Association of Australia.</span></em></p>A expiração do tratado dará um fim definitivo e alarmante à contenção nuclear entre as duas potências.Tilman Ruff, Honorary Principal Fellow, School of Population and Global Health, The University of MelbourneLicensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2746692026-02-03T13:51:47Z2026-02-03T13:51:47ZEstudos indicam que psicodélicos podem exercer influência sobre o processo de envelhecimento celular<p>Desde que o ser humano tomou consciência que envelhece, tenta negociar com o tempo. Uns recorrem à filosofia, outros à genética. Há quem confie na fé, há quem confie em suplementos.</p>
<p>No século XXI, essa negociação ganhou um novo figurino: relógios inteligentes, startups bilionárias e pesquisas sobre longevidade que parecem roteiro de filme de ficção científica.</p>
<p>O empresário estadunidense <a href="https://g1.globo.com/inovacao/noticia/2025/07/21/quem-e-o-milionario-de-47-anos-que-tenta-reverter-o-tempo-e-voltar-a-ter-18-com-experimentos-no-corpo.ghtml">Bryan Johnson</a> talvez seja o exemplo mais conhecido dessa obsessão contemporânea. </p>
<p>Ele monitora obsessivamente cada aspecto do próprio corpo — metabolismo, inflamação, sono, idade biológica — numa tentativa quase artesanal de atrasar o envelhecimento.</p>
<p>Em outra escala, empresas como a <a href="https://www.calicolabs.com/">Calico Labs</a>, criada pelo Google, e iniciativas como o <a href="https://www-altoslabs-com.translate.goog/?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc&_x_tr_hist=true">Altos Labs</a> investem bilhões para entender os mecanismos mais profundos da biologia do envelhecimento. A ideia é ambiciosa e simples: se o envelhecimento é um processo biológico, talvez possa ser controlado.</p>
<p>Em meio a esse cenário, uma pergunta começou a ganhar espaço nos laboratórios: e se algumas das moléculas mais antigas da cultura humana — os <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Psicodelia">psicodélicos</a> — também interferirem nos mecanismos biológicos que regulam o envelhecimento?</p>
<h2>Psicodélicos: muito além da “viagem”</h2>
<p>Durante décadas, substâncias como o <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/LSD">LSD</a>, a <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Psilocibina">psilocibina</a> e a <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Dimetiltriptamina">DMT</a> foram estudadas quase exclusivamente pelo que fazem à mente. </p>
<p>Essas substâncias alteram a percepção, dissolvem fronteiras do “eu”, bagunçam o tempo subjetivo e produzem experiências que costumam render descrições entusiasmadas e inesperadas.</p>
<p>Aos poucos, ficou claro que esses compostos fazem algo ainda mais profundo: ativam vias de <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Sinaliza%C3%A7%C3%A3o_celular">sinalização celular</a> ligadas à neuroplasticidade, ao metabolismo energético e à capacidade de adaptação do organismo ao estresse.</p>
<p>Em outras palavras, psicodélicos não são apenas moduladores da consciência, mas agentes biológicos ativos com impactos significativos no metabolismo celular. Como se tais fenômenos pudessem ser realmente separados.</p>
<p>Muitas dessas vias de sinalização são as mesmas envolvidas com o envelhecimento celular. </p>
<p>Entre elas a famosa <a href="https://pmc-ncbi-nlm-nih-gov.translate.goog/articles/PMC6611156/?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc">via mTOR/TOR</a>. </p>
<p>Esta via é uma espécie de central de comando metabólico que decide se a célula cresce, economiza energia, entra em modo de reparo ou acelera o envelhecimento.</p>
<p>É a mesma via modulada pela restrição calórica, uma das raríssimas intervenções que, de forma consistente, prolonga a vida em organismos tão diferentes quanto leveduras, vermes, moscas, camundongos e primatas.</p>
<h2>O que psicodélicos fazem ao cérebro — quando ninguém está “tendo uma experiência”</h2>
<p>Em 2017, nosso grupo publicou <a href="https://www.nature.com/articles/s41598-017-12779-5">um estudo</a> que ajudou a deslocar o foco da pesquisa psicodélica. </p>
<p>Em vez de investigar o comportamento, relatos subjetivos ou neuroimagem funcional, decidimos observar o que essas moléculas fazem ao cérebro humano em nível molecular, usando <a href="https://cienciapioneira.org/aplicacao-de-organoides-cerebrais-na-pesquisa-com-psicodelicos/">organoides cerebrais, frequentemente chamados de “minicérebros”</a>.</p>
<p>Organoides cerebrais são estruturas tridimensionais derivadas de <a href="https://pmc-ncbi-nlm-nih-gov.translate.goog/articles/PMC4699068/?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc">células-tronco pluripotentes</a> humanas. </p>
<p>Eles não pensam, não sentem e não têm consciência, mas expressam milhares de genes, formam sinapses, organizam circuitos rudimentares e reproduzem aspectos relevantes da arquitetura cerebral humana.</p>
<p>Ao expor esses organoides a uma dimetiltriptamina (DMT), utilizamos <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Prote%C3%B4mica">proteômica</a> em larga escala para mapear quais proteínas tinham sua expressão alterada. </p>
<p>O resultado foi evidente: centenas de proteínas associadas à plasticidade sináptica, redução de inflamação, reorganização do citoesqueleto neuronal, crescimento de neuritos e processos ligados à aprendizagem e memória foram moduladas.</p>
<p>Mesmo fora do corpo humano — e fora de qualquer experiência subjetiva — o tecido neural respondia com uma reorganização molecular profunda.</p>
<p>Mais recentemente, em <a href="https://pubs.acs.org/doi/full/10.1021/acsomega.4c04712">2024</a>, avançamos ao investigar os efeitos do LSD também em organoides cerebrais humanos. </p>
<p>Novamente, utilizando proteômica quantitativa, mostramos que o LSD modula proteínas envolvidas em proteostase — o delicado equilíbrio entre síntese, dobramento e degradação de proteínas — além de processos ligados a metabolismo energético, autofagia e neuroplasticidade.</p>
<p>Esses processos são cruciais não apenas para o funcionamento das células do cérebro, mas para sua manutenção ao longo do tempo. </p>
<p>Afinal, envelhecer é, em grande parte, perder a capacidade de manter a ordem interna das células. Neurônios são especialmente vulneráveis a esse colapso, pois não se auto-renovam.</p>
<p>Esses nossos achados ajudaram a consolidar a seguinte hipótese: psicodélicos podem reprogramar redes celulares complexas além dos neurônios, com efeitos que potencialmente dialogam com processos de envelhecimento.</p>
<h2>E então entraram os vermes</h2>
<p>Se os organoides cerebrais pareciam responder ativando genes ligados à longevidade, a pergunta seguinte era inevitável: esses efeitos se restringem ao sistema nervoso ou atingem o organismo como um todo?</p>
<p>Para explorar essa questão, recorremos a um personagem improvável: o <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Caenorhabditis_elegans">nematódeo <em>Caenorhabditis elegans</em></a>. Transparente, com cerca de um milímetro de comprimento e expectativa de vida de apenas duas a três semanas, esse verme é um dos modelos mais importantes da biologia do envelhecimento.</p>
<p>O motivo é simples: ele compartilha conosco as principais vias moleculares que regulam metabolismo, resposta ao estresse e longevidade. </p>
<p>A diferença é que tudo acontece muito mais rápido. O que em humanos leva décadas, nele ocorre em dias.</p>
<p>Não por acaso, esse verme modesto já esteve no centro de descobertas fundamentais sobre <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Apoptose">apoptose</a>, <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/ARN_interferente">RNA de interferência</a> e regulação genética. E rendeu vários Prêmios Nobel e provou que, na ciência, tamanho raramente é documento.</p>
<p>Em nosso estudo mais recente, compartilhado como <a href="https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2025.06.16.659936v1.full">preprint</a>, mostramos que o LSD é capaz de estender significativamente a vida desses animais. Mas o dado mais interessante não foi apenas o aumento da longevidade.</p>
<p>Os nematódeos tratados com LSD viveram mais, acumularam menos <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Lipofuscina">lipofuscina</a>, um pigmento fluorescente que se deposita nas células com a idade, funcionando como uma espécie de “ferrugem biológica”, e exibiram um perfil metabólico muito semelhante ao observado em animais submetidos à restrição calórica.</p>
<h2>O detalhe curioso: eles não comeram menos</h2>
<p>Ou seja, o LSD não reduziu a ingestão alimentar, mas induziu internamente um estado fisiológico semelhante ao da escassez controlada — aquele estado em que o organismo desacelera crescimento, reduz síntese proteica e prioriza manutenção e reparo celular.</p>
<p>Em termos técnicos, observamos modulação da via TOR, redução progressiva da síntese proteica e ativação do fator de transcrição PHA-4/FOXA, peça-chave da longevidade. </p>
<p>Em termos mais simples: o verme “interpretou” o ambiente como desafiador e resolveu envelhecer mais devagar.</p>
<h2>Vermes são interessantes. Camundongos convencem mais.</h2>
<p>Se tudo parasse nos vermes, seria fácil tratar o assunto como uma curiosidade elegante de laboratório. Mas resultados semelhantes começaram a surgir em modelos mais próximos do nosso.</p>
<p>Um <a href="https://www.nature.com/articles/s41514-025-00244-x">estudo publicado</a> por cientistas das universidades Emory e Baylor College of Medicine, além do sistema de saúde de veteranos de Atlanta, mostrou que a psilocibina, psicodélico produzido por alguns tipos de cogumelo, gerou efeitos notáveis em camundongos idosos.</p>
<p>Camundongos idosos tratados com psilocibina apresentaram maior sobrevida, mesmo quando o tratamento começou tardiamente na vida. </p>
<p>Além disso, os animais exibiam sinais externos de envelhecimento atenuado, como melhor condição da própria pelagem.</p>
<p>Os mecanismos apontados novamente convergiam para vias clássicas do envelhecimento: SIRT1, resposta ao dano no DNA, metabolismo energético e controle do estresse oxidativo. </p>
<p>Quando diferentes psicodélicos, em modelos distintos, de células humanas a organismos inteiros, começam a apontar para os mesmos circuitos biológicos, a hipótese deixa de parecer exótica.</p>
<h2>Um alerta necessário: isso não é uma receita de longevidade</h2>
<p>Antes que alguém interprete esse conjunto de estudos como um convite para experimentar psicodélicos em nome da juventude eterna, é preciso colocar os pés no chão.</p>
<p>Esses resultados não dizem que psicodélicos prolongam a vida humana. Eles mostram algo mais sutil — e mais importante: que essas moléculas são ferramentas poderosas para entender os mecanismos biológicos do envelhecimento.</p>
<p>Entre um verme, um camundongo e um ser humano existe um abismo de complexidade. Doses, contextos, efeitos colaterais, riscos psicológicos e fisiológicos não podem ser ignorados. Além disso, viver mais não é sinônimo de viver melhor.</p>
<p>A ciência da longevidade avança justamente quando evita muitas promessas.</p>
<h2>E enquanto isso… o básico continua vencendo</h2>
<p>Talvez o maior paradoxo da ciência da longevidade seja este: quanto mais sofisticadas ficam as intervenções experimentais, mais robustas permanecem as mais simples.</p>
<p>Entre todas as estratégias conhecidas até hoje, o exercício físico regular continua sendo a intervenção mais eficaz e consistente para promover um envelhecimento saudável.</p>
<p>Revisões da literatura científica publicadas recentemente mostram que atividade física melhora a função mitocondrial, reduz inflamação crônica, preserva massa muscular. Além disso, sustenta a saúde cognitiva, modula positivamente o metabolismo e está associada a uma redução significativa da mortalidade por todas as causas.</p>
<p>Nenhuma pílula, microdose ou protocolo experimental conseguiu, até agora, replicar esse conjunto de benefícios de forma tão ampla.</p>
<h2>Menos hype, mais curiosidade</h2>
<p>Psicodélicos não são atalhos para a imortalidade. Mas estão se revelando lentes inesperadas para observar como o organismo entra em estados adaptativos profundos — estados que envolvem plasticidade neural, metabolismo, reparo celular e envelhecimento.</p>
<p>Enquanto bilionários tentam comprar mais tempo, a biologia segue oferecendo pistas, não garantias. E, por enquanto, ela continua repetindo, com certa ironia científica:</p>
<p>mexa o corpo, durma bem, cuide do metabolismo… e, se quiser entender o envelhecimento, talvez valha a pena olhar também para um verme de um milímetro — ou para um minicérebro exposto a psicodélicos crescendo em uma placa de laboratório.</p>
<hr>
<p><em>Nossa pesquisa tem apoio da <a href="https://cienciapioneira.org/">Ciência Pioneira</a>, <a href="https://www.rededorsaoluiz.com.br/instituto/idor/">Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR)</a>.</em></p><img src="https://counter.theconversation.com/content/274669/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Stevens Rehen é também afiliado à Promega Corporation e ao Instituto Usona. É professor licenciado, sem remuneração, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele recebe financiamento da Ciência Pioneira/IDOR.</span></em></p>Psicodélicos não são apenas moduladores da consciência, mas agentes biológicos ativos com impactos significativos no metabolismo celular.
Muitas dessas vias de sinalização são as mesmas envolvidas com o envelhecimentoStevens Rehen, Pesquisador, Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR)Licensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2748542026-02-02T15:20:36Z2026-02-02T15:20:36ZVírus Nipah volta a preocupar saúde global após casos na Índia, mas sem cenário de novo surto<p>Sempre que surge a notícia de uma onda de casos envolvendo um vírus pouco
conhecido, a pergunta que surge quase automaticamente é se estamos diante de
uma nova ameaça pandêmica? Neste caso, o vírus Nipah costuma ocupar esse lugar no
debate público. Associado a quadros clínicos graves e a altas taxas de
letalidade, ele é frequentemente citado como um dos patógenos mais
preocupantes do ponto de vista científico. Mas preocupação não é sinônimo
de pânico — e entender essa diferença é essencial.</p>
<p>Em janeiro de 2026, as autoridades de saúde da Índia notificaram à Organização Mundial da Saúde (OMS) <a href="https://www.who.int/emergencies/disease-outbreak-news/item/2026-DON593?utm_source=chatgpt.com">dois casos laboratoriais confirmados</a> de infecção pelo Nipah no estado de Bengala Ocidental. Os casos ocorreram em profissionais de saúde do mesmo hospital em Barasat, com sintomas iniciados no fim de dezembro de 2025 e confirmados em 13 de janeiro — um dos pacientes melhora, o outro permanece sob cuidados críticos. Desde então, mais de 190 contatos foram rastreados e testados negativamente até o momento, sem detecção de transmissão comunitária adicional. </p>
<p><a href="https://www.aa.com.tr/en/health/who-says-regional-global-risk-from-nipah-virus-in-india-remains-low/3815986?utm_source=chatgpt.com">A OMS classifica o risco como moderado no âmbito subnacional e baixo nos níveis nacional, regional e global</a>, e não há indicação de disseminação fora de território indiano associada a esse evento. Em resposta, países vizinhos e alguns aeroportos asiáticos reforçaram medidas de triagem e vigilância sanitária — reforçando, assim, a capacidade de resposta, mas sem sinais de propagação sustentada do vírus fora do quadro isolado em Bengala Ocidental.</p>
<p>Identificado pela primeira vez em 1998, durante um surto na Malásia, o
vírus Nipah é <a href="https://www.science.org/doi/10.1126/science.288.5470.1432">um vírus zoonótico do gênero Henipavirus, da família
Paramyxoviridae</a>. Seu reservatório natural são morcegos frugívoros do gênero Pteropus, amplamente distribuídos no sul e sudeste da Ásia. Desde então, surtos têm sido registrados principalmente em Bangladesh e na Índia, <a href="https://www.cdc.gov/nipah-virus/about/">geralmente de forma localizada e com número limitado de casos humanos</a>.</p>
<p>Do ponto de vista clínico, <a href="https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/nipah-virus">trata-se de um vírus capaz de produzir sintomas graves</a>. A infecção pode causar encefalite aguda, insuficiência respiratória e rápida evolução para óbito, com taxas de letalidade que variam entre 40% e 75%, dependendo
do surto e do acesso aos serviços de saúde. Essa gravidade explica por
que o Nipah integra listas internacionais de patógenos prioritários para
pesquisa e desenvolvimento de vacinas e terapias.</p>
<h2>Vigilância não é alarme, gravidade não é sinônimo de pandemia</h2>
<p>É fundamental esclarecer que a alta letalidade não significa que o vírus tenha um alto potencial pandêmico. Para que um vírus cause uma pandemia, é necessário que apresente transmissão eficiente e sustentada entre humanos. </p>
<p>No caso do Nipah, <a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2878219/">embora a transmissão pessoa a pessoa já tenha sido documentada</a>, ela ocorre principalmente em contextos de contato próximo, como entre familiares e cuidadores, e não se mantém ao longo do tempo. Não há evidência de cadeias prolongadas de transmissão comunitária, um critério central para a disseminação global.</p>
<p>Estudos epidemiológicos mostram que a maioria dos casos humanos está
relacionada à transmissão direta a partir do reservatório animal ou de
exposições ambientais específicas. Em Bangladesh, por exemplo, surtos
recorrentes estão associados ao consumo de seiva de tamareira
contaminada por secreções de morcegos infectados, um hábito cultural local
bem documentado na literatura científica. Esse padrão ajuda a explicar por
que os surtos são sazonais, geograficamente restritos e previsíveis, em vez
de eventos globais imprevisíveis.</p>
<p>A própria biologia do vírus também limita sua disseminação. Até o
momento, o Nipah não apresenta características que favoreçam uma
transmissão respiratória altamente eficiente entre humanos, como
observado em vírus influenza ou coronavírus. <a href="https://www.nature.com/articles/nrmicro.2017.45">Análises de surtos anteriores</a>
indicam um número reprodutivo básico consistentemente baixo, insuficiente
para sustentar grandes cadeias de transmissão</p>
<h2>Diagnóstico molecular e sistemas de alerta sensíveis</h2>
<p>Ainda assim, o vírus continua sendo monitorado de perto e isso é
apropriado. O Nipah exemplifica os riscos associados à crescente interação
entre humanos, animais e meio ambiente. Desmatamento, urbanização
acelerada, mudanças no uso do solo e expansão agrícola aumentam o
contato entre populações humanas e reservatórios silvestres, criando
oportunidades para a passagem de patógenos de animais para humanos (eventos de <em>spillover</em>).</p>
<p>Além disso, vivemos uma era de vigilância muito mais sensível. Avanços em
diagnóstico molecular, sequenciamento genômico e sistemas de alerta
permitem detectar surtos rapidamente, o que cria a percepção de que
novos vírus estão surgindo com mais frequência. Na prática, muitos deles
sempre circularam; o que mudou foi nossa capacidade de identificá-los.
No contexto pós-COVID-19, esse aumento da detecção se soma a um
trauma coletivo recente. </p>
<p>Qualquer novo vírus tende a ser interpretado à luz
da experiência da pandemia, frequentemente com extrapolações
inadequadas. O risco, nesse cenário, não está na vigilância que é essencial,
mas na comunicação imprecisa. Confundir alerta científico com ameaça
iminente pode gerar medo desnecessário e comprometer a confiança da
população em estratégias de saúde pública.</p>
<p>Reconhecendo esse desafio, iniciativas internacionais têm investido em
pesquisa pré-pandêmica, incluindo o <a href="https://cdn.who.int/media/docs/default-source/blue-print/nipah_rdblueprint_roadmap_advanceddraftoct2019.pdf?download=true&sfvrsn=4f0dc9ad_3&utm_source=chatgpt.com">desenvolvimento de vacinas</a> experimentais contra o Nipah, mesmo sem um cenário de emergência global. A lógica é se preparar para riscos potenciais sem tratá-los como inevitáveis.</p>
<p>O caso do vírus Nipah ilustra um princípio fundamental da saúde pública: vigilância não é alarme, e gravidade não é sinônimo de pandemia. Informar
com precisão, contextualizar riscos e comunicar incertezas de forma
honesta são tão importantes quanto detectar novos patógenos. A ciência não existe para produzir medo, mas para reduzir incertezas: e isso nunca
foi tão necessário.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/274854/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Klinger Soares Faíco Filho é fundador do InfectoCast, podcast dedicado à educação médica. </span></em></p>Organização Mundial de Saúde classifica o risco de disseminação do Nipah como moderado no âmbito subnacional, e baixo nos níveis nacional, regional e global. Não há indicação de surto fora da Índia, mas fiscalização foi reforçadaKlinger Soares Faíco Filho, Professor da Disciplina de Clínica Médica e Medicina Laboratorial, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)Licensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2738902026-02-02T15:07:18Z2026-02-02T15:07:18ZEntenda o que é simbiose neural como terapia para desordens afetivas e o dilema evolutivo da espécie humana<figure><img src="https://images.theconversation.com/files/715738/original/file-20260202-56-b47awa.png?ixlib=rb-4.1.0&rect=127%2C0%2C1152%2C768&q=45&auto=format&w=1050&h=700&fit=crop" /><figcaption><span class="caption">Em atividades como correr ao ar livre, os fractais visuais das árvores, a irregularidade do terreno e os sons da mata ativam redes de atenção involuntária, permitindo o descanso do córtex pré-frontal e favorecendo a neuroplasticidade, num fenômeno que pode ser descrito como "simbiose neural". </span> <span class="attribution"><span class="source">Imagem gerada por IA, via Envato Labs</span>, <a class="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/">CC BY</a></span></figcaption></figure><p>Uma das descobertas mais notáveis da neurociência moderna é a de que o cérebro adulto é <a href="https://journals.lww.com/nrronline/fulltext/2019/14110/Neurogenesis_in_the_hippocampus_of_adult_humans_.17.aspx">capaz de produzir novos neurônios</a>, em diversas espécies de mamíferos, incluindo humanos. <a href="https://journals.lww.com/nrronline/fulltext/2019/14110/Neurogenesis_in_the_hippocampus_of_adult_humans_.17.aspx">Por mais de 30 anos, a ciência negou</a> essa possibilidade, que foi confirmada por diversos <a href="https://journals.plos.org/plosbiology/article?id=10.1371/journal.pbio.1002045">trabalhos importantes</a>.</p>
<p>Além de aumentarem em quantidade, parece que eles desempenham funções relevantes. Várias <a href="https://www.nature.com/articles/nrn.2017.45">evidências apontam</a> que esses novos neurônios têm um papel essencial na flexibilidade cognitiva, aprendizagem e especialmente na “memória de separação de padrões”, que nos permite recordar situações parecidas evitando que se misturem, como diferentes encontros com a mesma pessoa.</p>
<p>Estudo recente do neurocientista sueco Jonas Frisén, <a href="https://news.ki.se/new-research-confirms-that-neurons-form-in-the-adult-brain">publicado no periódico <em>Science</em></a>, confirmou que essa neurogênese é contínua no cérebro humano. No entanto, experimentos com animais mostraram que o estresse crônico pode impedir a neurogênese e até mesmo <a href="https://www.nature.com/articles/s41380-018-0036-2">prejudicar a fisiologia normal do cérebro na região do hipocampo</a>.</p>
<p>Isso é um sinal de alerta para quem sofre de transtornos afetivos, incluindo depressão, ansiedade, <em>burnout</em> e transtorno de estresse pós-traumático, que acometem mais de <a href="https://news.un.org/pt/story/2025/09/1850854">1 bilhão de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde</a> (OMS).</p>
<p>Ao mesmo tempo, essas descobertas levantam a interessante possibilidade de que terapias inspiradas na neurogênese – incluindo exercícios aeróbicos e meditação – <a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32310686/">possam se tornar uma ferramenta importante</a> na psiquiatria e psicologia.</p>
<h2>Um interesse acadêmico e pessoal</h2>
<p>Esse tema é especialmente importante para mim, pois, além de neurocientista do <a href="https://isco.ufopa.edu.br/isco/laboratorios/lista-de-laboratorios-do-isco/">Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará</a> (ISCO-UFOPA), também lutei por dois anos contra esse inimigo invisível que assola as mentes. Sentia sintomas de <a href="https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-de-sa%C3%BAde-mental/transtornos-do-humor/depress%C3%A3o">depressão</a> e <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome_de_burnout"><em>burnout</em></a>. A sensação fenomenológica, no entanto, era de estar enjaulado, desconectado, sem motivação.</p>
<p>No meu caso, a recuperação definitiva não veio de intervenções farmacológicas, mas de uma mudança radical de ambiente e comportamento que passei a chamar de “Simbiose Neural”. É um conceito que trata de uma <a href="https://www.jesocarneiro.com.br/opiniao/felicidade-ao-amanhecer-a-importancia-das-coisas-simples-para-saude-mental-por-walace-gomes-leal.html">reconciliação com a natureza</a>, pelo movimento e estímulos sensoriais que ela propicia, para induzir neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de adaptar-se a novas situações.</p>
<p>Publiquei <a href="https://www.frontiersin.org/journals/neuroscience/articles/10.3389/fnins.2021.594448/full">uma revisão da literatura científica sobre esse tema na revista <em>Frontiers in Neuroscience</em></a>. Nele, reúno evidências científicas recentes sobre o potencial de terapias inspiradas na neurogênese para reduzir os sintomas desses transtornos afetivos. Mas, antes de entrar em detalhes sobre isso, gostaria de destacar algumas teorias que ajudam a entender a relevância desse tipo de abordagem.</p>
<h2>Contraste dos antepassados</h2>
<p>Se analisarmos a questão sob uma perspectiva evolutiva, é evidente a discrepância brutal entre o ambiente no qual nosso cérebro evoluiu, a partir das savanas africanas e as “selvas de pedra” onde vivemos hoje. Nossos ancestrais passaram 99% da sua história evolutiva como nômades e caçadores-coletores. Nossos genes e circuitos neurais foram esculpidos não apenas para o movimento, mas para o processamento de um ambiente sensorialmente rico.</p>
<p><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Daniel_Lieberman">Daniel Lieberman</a>, biólogo evolutivo de Harvard, chama nossa condição atual de “doença de <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Incompatibilidade_evolutiva">incompatibilidade evolutiva</a>” (<em>Evolutionary mismatch disease</em>). Ele mostra em seus estudos que a origem de muitas doenças modernas pode ser interpretada como uma falta de sincronia dos nossos corpos com o ambiente atual, rico em alimentos calóricos e escasso em exercício físico.</p>
<p>Ou seja, é um <a href="https://theconversation.com/a-cultura-humana-esta-mudando-rapido-demais-para-que-a-evolucao-a-acompanhe-e-isso-afeta-a-todos-nos-231677">descompasso entre a evolução de nossa biologia e as demandas do dia a dia</a>, resultando em problemas como ganho de peso e dependências comportamentais. E o sedentarismo é apenas parte do problema. Produzimos <a href="https://theconversation.com/microplasticos-minusculos-no-nome-gigantescos-no-problema-258865">microplásticos que se acumulam</a> no cérebro e <a href="https://theconversation.com/dieta-pouco-saudavel-aumenta-o-risco-de-desenvolver-depressao-221964">alimentos ultraprocessados que causam câncer</a>. Além disso, há uma pobreza sensorial e motora. Paredes lisas, luz artificial, telas e ar condicionado também fazem parte da nossa evolução desordenada.</p>
<p>É como se estivéssemos tentando rodar um software do Pleistoceno em um hardware moderno. Somos primatas, cujo córtex cerebral expandiu além da nossa adaptação evolutiva. O resultado da nossa privação sensorial e motora em ambientes naturais é um colapso sistêmico do sistema nervoso induzido pelo estresse crônico das sociedades modernas. E isso contribui para desordens afetivas.</p>
<h2>Fogo-amigo da imunidade</h2>
<p>Outro fator importante, que contribui para desordens afetivas, é o excesso de inflamação no cérebro. Eu também <a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6557106/">discuti sobre essa questão em outra revisão científica publicada na revista <em>Neural Regeneration Research</em></a>.</p>
<p>Parte do problema começa na micróglia, que é uma das <a href="https://link.springer.com/article/10.1007/s11481-009-9170-6">principais células de defesa do Sistema Nervoso Central</a> contra infecções. Ela patrulha ativamente por microrganismos invasores e, caso algum seja detectado, despeja uma série de respostas químicas e recruta outras células para ajudar a eliminá-los. Apesar de essenciais, algumas vezes essa inflamação acaba matando junto alguns neurônios.</p>
<p>Além disso, essas células também <a href="https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/brb3.51">desempenham um papel duplo</a>, matando neurônios após distúrbios neurológicos agudos e crônicos. Parece que o estresse causado por algumas desordens neurais confunde esse sistema, que é acionado de forma errônea. Isso gera o que denominei de “hipótese do fogo-amigo”: uma neuroinflamação causada pelo próprio corpo, que pode originar várias desordens afetivas, incluindo depressão e ansiedade.</p>
<h2>Como novos neurônios podem ajudar</h2>
<p>Acredito que o elo perdido entre o ambiente hostil em que muitos de nós vivemos e a saúde mental seja a neuroplasticidade. Trabalhos bem consolidados mostram que os neurônios gerados no hipocampo durante a idade adulta são <a href="https://www.nature.com/articles/nature10287">necessários para a expressão normal dos hormônios relacionados ao estresse</a>. Camundongos que não têm essa neurogênese respondem pior a diversas situações de estresse.</p>
<p>Alguns estudos já começam a testar o efeito de treinamentos mentais e físicos que visam aumentar a neurogênese no hipocampo de mamíferos. Por exemplo, <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0166432819306758">um programa de condicionamento</a> (<em>MAP-training</em>), proposto pela neuropsicóloga americana Tracey Shors, sugere 30 minutos de meditação com 30 minutos de exercício aeróbico, feito duas vezes por semana durante oito semanas. Estudos científicos mostram que o <em>MAP-Training</em> reduz os sintomas depressivos em pessoas com transtorno depressivo maior e ansiedade.</p>
<p>Especialmente interessantes foram os estudos pioneiros, ainda no final da década de 90, pela neurocientista holandesa <a href="https://www.fau.edu/medicine/directory/henriette-van-praag/">Henriette van Praag</a>, à época no Instituto Salk de Estudos Biológicos, em San Diego, Estados Unidos. Ela <a href="https://www.nature.com/articles/nn0399_266">mostrou que roedores que correm em rodinhas</a> acopladas às suas caixas de laboratório têm 40% a mais de neurônios no hipocampo do que os que não correm. Além disso, gaiolas turbinadas de estímulos motores e sensoriais, também induzem mais neurogênese hipocampal adulta do que os animais criados em gaiolas simples.</p>
<p>Uma <a href="https://www.nature.com/articles/nature10287">revisão publicada na Nature Neuroscience</a> discute que é difícil replicar em humanos os estudos sobre enriquecimento ambiental. Em laboratório, eles comparam situações artificiais e controladas. Em humanos, isso quase nunca é possível. Cada pessoa tem um histórico de vida único, difícil de medir, o que tornam imprecisas comparações diretas.</p>
<p>Ainda assim, o aumento de estímulos relativos tem se mostrado relevante em contextos como a reabilitação após um AVC, por exemplo. Nesses casos, o foco não é comparar resultados finais, mas as trajetórias individuais ao longo do tempo, com integração de diferentes áreas do conhecimento. Além disso, em alguns países, como o Japão, terapias da floresta que usam o contato com a natureza para aumentar a neuroplasticidade já são uma realidade.</p>
<p>Quando fiquei curado de desordens afetivas ao caminhar e correr nos parques da minha cidade, percebi que a natureza é o nosso ambiente enriquecido. Os fractais visuais das árvores, a irregularidade do terreno e os sons da mata ativam redes de atenção involuntária, permitindo o descanso do córtex pré-frontal.</p>
<p>Portanto, acredito que para ter melhores resultados, não basta apenas se exercitar. O exercício em esteira ou ambiente fechado oferece o esforço muscular, mas nega a informação ambiental. A hipótese que defendo é que o chamado “<a href="https://www.publico.pt/2017/12/24/impar/noticia/o-que-e-o-exercicio-verde-1796508">exercício verde</a>”, aquele feito em contato com a natureza, gera neuroplasticidade e bem-estar psíquico.</p>
<p>A simbiose neural é essa interação com a natureza estimulando os circuitos cerebrais, simulando o nosso passado evolutivo como caçadores-coletores. Essa ideia foi confirmada por revisão <a href="https://www.sciencedaily.com/releases/2026/01/260107225516.htm">sistemática recente do cientista Andrew Clegg</a> e seus colegas da Universidade de Lancashire, no Reino Unido. Esse estudo mostrou que o exercício físico pode ser ainda mais eficaz do que os antidepressivos modernos e sem efeitos colaterais.</p>
<p>Não podemos esperar milênios para que a evolução nos adapte aos escritórios e às cidades modernas, nossas selvas de pedra. Ao adotar essa mudança, estamos dando ao nosso cérebro um ambiente rico em movimento e estímulos onde ele realmente sabe como funcionar, se reparar e florescer. Precisamos nos conscientizar de que somos primatas que podem dirigir carros, pilotar aviões, escrever artigos, mas que não fomos programados evolutivamente para isso. Temos que buscar a interação com a natureza e cultivar o antepassado caçador-coletor dentro de nós.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/273890/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Walace Gomes Leal recebe financiamento do Instituto de Saúde Cerebral- INCT CNPQ e OKA Hub - Sebrae Nacional. </span></em></p>Trabalhos bem consolidados mostram que os neurônios gerados no hipocampo durante a idade adulta são necessários para a expressão normal dos hormônios relacionados ao estresse.Walace Gomes Leal, Neurocientista e professor do Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA)Licensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2748032026-02-02T14:44:06Z2026-02-02T14:44:06Z“Pluribus”: o que faz os seres humanos serem humanos<figure><img src="https://images.theconversation.com/files/715495/original/file-20260119-66-tukmwu.jpg?ixlib=rb-4.1.0&rect=0%2C0%2C5568%2C3711&q=45&auto=format&w=1050&h=700&fit=crop" /><figcaption><span class="caption">A atriz Rhea Seehorn no centro de uma cena em _Pluribus_: sua personagem, Carol Stucker, é uma das poucas pessoas a preservar sua individualidade depois que a maior parte da Humanidade é infectada por um vírus alienígena e passa a integrar uma mente coletiva e "feliz"</span> <span class="attribution"><a class="source" href="https://www.apple.com/es/tv-pr/originals/pluribus/episodes-images/">Apple TV</a></span></figcaption></figure><p>Uma das séries televisivas mais aclamadas dos últimos meses, <a href="https://tv.apple.com/us/show/pluribus/umc.cmc.37axgovs2yozlyh3c2cmwzlza"><em>Pluribus</em></a> tem a virtude de nos fazer refletir através de sua narrativa. Tal como acontece com a obra de grandes artistas, a ficção retrata de forma intuitiva questões de profundo significado antropológico: qual é o valor do indivíduo? Como alcançamos a nossa identidade? Em que consiste a felicidade? </p>
<p>O início do primeiro capítulo nos mergulha de cabeça em uma distopia: um vírus extraterrestre infectou toda a Humanidade. Bem, não toda: um grupo de pessoas espalhadas pelo globo acaba sendo imune. O vírus, como a droga “soma” do romance <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Admir%C3%A1vel_Mundo_Novo"><em>Admirável Mundo Novo</em></a>, de Aldous Huxley, anula os indivíduos e os transforma em uma amalgama de seres indiferenciados, uma mente coletiva na qual todos sentem e pensam o mesmo, e na qual todos são, supostamente, felizes. O que farão as exceções à regra? </p>
<figure>
<iframe width="440" height="260" src="https://www.youtube.com/embed/lNfwe5hvEhU?wmode=transparent&start=0" frameborder="0" allowfullscreen=""></iframe>
<figcaption><span class="caption">Trailer da primeira temporada de <em>Pluribus</em>.</span></figcaption>
</figure>
<p>A genialidade do criador da série, <a href="https://www.imdb.com/es-es/name/nm0319213/">Vince Gilligan</a> (também responsável por <em>Breaking Bad</em> e <em>Better Call Saul</em>) coloca a protagonista diante de um dilema: juntar-se aos felizes ou resistir. Ao contrário do que acontecia com o personagem principal de <em>Breaking Bad</em> (cuja decisão inicial de fabricar drogas o levou a uma espiral de decadência), a escritora Carol Sturka quer enfrentar o desafio, mas às vezes hesita, se rebela, se sente tentada a ceder… Gostemos ou não dela por causa de seu jeito de ser, serão suas constantes decisões, tomadas com total liberdade, que nos causarão atração ou repulsa. </p>
<p>Nessa linha, podemos apontar algumas ideias que nos ajudam a pensar o que nos constitui como indivíduos e o que nos destrói.</p>
<h2>“De muitos, um”</h2>
<figure class="align-right zoomable">
<a href="https://images.theconversation.com/files/713169/original/file-20260119-56-tmhaqr.png?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=1000&fit=clip"><img alt="Anverso do Grande Selo dos Estados Unidos, onde se lê " src="https://images.theconversation.com/files/713169/original/file-20260119-56-tmhaqr.png?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=237&fit=clip" srcset="https://images.theconversation.com/files/713169/original/file-20260119-56-tmhaqr.png?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=600&h=600&fit=crop&dpr=1 600w, https://images.theconversation.com/files/713169/original/file-20260119-56-tmhaqr.png?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=600&h=600&fit=crop&dpr=2 1200w, https://images.theconversation.com/files/713169/original/file-20260119-56-tmhaqr.png?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=600&h=600&fit=crop&dpr=3 1800w, https://images.theconversation.com/files/713169/original/file-20260119-56-tmhaqr.png?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&h=754&fit=crop&dpr=1 754w, https://images.theconversation.com/files/713169/original/file-20260119-56-tmhaqr.png?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=754&h=754&fit=crop&dpr=2 1508w, https://images.theconversation.com/files/713169/original/file-20260119-56-tmhaqr.png?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=754&h=754&fit=crop&dpr=3 2262w" sizes="(min-width: 1466px) 754px, (max-width: 599px) 100vw, (min-width: 600px) 600px, 237px"></a>
<figcaption>
<span class="caption">Anverso do Grande Selo dos Estados Unidos.</span>
<span class="attribution"><a class="source" href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Great_Seal_of_the_United_States_(obverse).svg">Governo dos EUA</a></span>
</figcaption>
</figure>
<p>O título da série faz referência à máxima latina que aparece no escudo dos Estados Unidos, “<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/E_pluribus_unum"><em>E pluribus unum</em></a>”: “de muitos, um”. Ela refletia a experiência das primeiras 13 colônias que se uniram para formar um único estado.</p>
<p>Mas, se pensarmos bem, todo grupo social implica pluralidade de membros. Somos indivíduos, sim, mas não isolados. E somos indivíduos porque vivemos em sociedade. Quando se trata de explicar como se dá essa relação entre indivíduo e grupo sem privilegiar um em detrimento do outro, nem toda teoria passa no teste da verdade.</p>
<p>Particularmente valiosa nesse sentido é a filosofia de Julián Marías. A partir da <a href="https://dn790007.ca.archive.org/0/items/meditacionesdelq00orte/meditacionesdelq00orte.pdf">frase de Ortega y Gasset</a> “Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo, não me salvo”, Marías, seu discípulo, desenvolveu sua própria reflexão. Segundo ele, as circunstâncias contribuem para a nossa identidade porque esta se descobre no encontro com o ambiente (os “quês”, as coisas), mas, acima de tudo, com o outro (os “quens”, as pessoas). </p>
<h2>Liberdade e criatividade</h2>
<p>É por acaso que a protagonista é uma escritora de novelas românticas? Não parece que a contribuição de Sturka vá passar para a história da literatura universal. No entanto, ela tinha milhares de seguidores que encontravam em seus livros chaves para se compreenderem a si mesmos e para se pensarem em um relacionamento valioso. </p>
<p>Marías nos diz que a pessoa se encarna em uma realidade concreta, em uma estrutura empírica pela qual nos instalamos no mundo. Sua filosofia não entende a identidade pessoal como uma ideia abstrata e desvinculada do real, mas como uma instalação no mundo. A identidade é uma narrativa. Cada indivíduo tem que escrever a sua e não seguir uma pauta externa imposta.</p>
<figure class="align-center zoomable">
<a href="https://images.theconversation.com/files/713170/original/file-20260119-56-1p38oa.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=1000&fit=clip"><img alt="Uma mulher grava-se a falar para uma câmara de vídeo." src="https://images.theconversation.com/files/713170/original/file-20260119-56-1p38oa.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&fit=clip" srcset="https://images.theconversation.com/files/713170/original/file-20260119-56-1p38oa.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=600&h=251&fit=crop&dpr=1 600w, https://images.theconversation.com/files/713170/original/file-20260119-56-1p38oa.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=600&h=251&fit=crop&dpr=2 1200w, https://images.theconversation.com/files/713170/original/file-20260119-56-1p38oa.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=600&h=251&fit=crop&dpr=3 1800w, https://images.theconversation.com/files/713170/original/file-20260119-56-1p38oa.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&h=315&fit=crop&dpr=1 754w, https://images.theconversation.com/files/713170/original/file-20260119-56-1p38oa.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=754&h=315&fit=crop&dpr=2 1508w, https://images.theconversation.com/files/713170/original/file-20260119-56-1p38oa.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=754&h=315&fit=crop&dpr=3 2262w" sizes="(min-width: 1466px) 754px, (max-width: 599px) 100vw, (min-width: 600px) 600px, 237px"></a>
<figcaption>
<span class="caption">Carol Sturka, protagonista da série, procura deixar um registro de tudo o que acontece.</span>
<span class="attribution"><a class="source" href="https://www.apple.com/es/tv-pr/originals/pluribus/episodes-images/">Apple TV</a></span>
</figcaption>
</figure>
<p>Já em Aristóteles encontramos três chaves que ainda hoje mostram seu potencial teórico. A primeira é que o ser humano é um animal político. A segunda, que todos os seres aprendemos uns com os outros por <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Mimese">mimese</a>, por imitação. E a terceira, que o que nos eleva à plenitude não é a imitação dos outros, mas aquelas ações que nos levam à felicidade.</p>
<p>O verdadeiro manual de ética desse filósofo grego encontra-se em sua <a href="https://archive.org/details/aristo-teles-poetica"><em>Poética</em></a>, e não no <a href="https://archive.org/details/aristoteles-u-o-etica-a-nicomaco">tratado que escreveu para seu filho Nicômaco</a>. Por quê? Porque cada indivíduo fundamenta sua individualidade na narrativa de sua própria vida, no diálogo de encontros e desencontros com os outros. Por isso não existe uma felicidade definitiva, nem igual para todos, nem homogênea. Se suprimirmos o espaço da criatividade pessoal, anulamos a pessoa.</p>
<h2>Indivíduos na sociedade</h2>
<p>Marías constrói em <a href="https://www.cervantesvirtual.com/obra/la-estructura-social-teoria-y-metodo/"><em>La estructura social</em></a> uma das tentativas mais lúcidas de articular a antropologia com a sociologia. A sociedade é o âmbito natural em que cada indivíduo expressa o que é e como se desenvolve em relação aos outros.</p>
<p>Há um dado dessa estrutura social que ajuda a descrever o que acontece na série. Assim como todo ser humano tem órgãos que nos permitem viver, a sociedade tem vigências. O que está em vigor (crenças, usos e costumes) não é escolhido por nós, é algo que encontramos (língua, leis…), mas cada indivíduo se configura dialogando ou lutando com eles. Por outro lado, os humanos infectados na série não dialogam com nada nem com ninguém. Eles sempre concordam, como um algoritmo da complacente IA.</p>
<figure class="align-center zoomable">
<a href="https://images.theconversation.com/files/713164/original/file-20260119-56-takp3u.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=1000&fit=clip"><img alt="Uma mulher em pé entre muitas pessoas deitadas." src="https://images.theconversation.com/files/713164/original/file-20260119-56-takp3u.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&fit=clip" srcset="https://images.theconversation.com/files/713164/original/file-20260119-56-takp3u.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=600&h=400&fit=crop&dpr=1 600w, https://images.theconversation.com/files/713164/original/file-20260119-56-takp3u.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=600&h=400&fit=crop&dpr=2 1200w, https://images.theconversation.com/files/713164/original/file-20260119-56-takp3u.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=600&h=400&fit=crop&dpr=3 1800w, https://images.theconversation.com/files/713164/original/file-20260119-56-takp3u.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&h=503&fit=crop&dpr=1 754w, https://images.theconversation.com/files/713164/original/file-20260119-56-takp3u.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=754&h=503&fit=crop&dpr=2 1508w, https://images.theconversation.com/files/713164/original/file-20260119-56-takp3u.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=754&h=503&fit=crop&dpr=3 2262w" sizes="(min-width: 1466px) 754px, (max-width: 599px) 100vw, (min-width: 600px) 600px, 237px"></a>
<figcaption>
<span class="caption">Uma entre todos.</span>
<span class="attribution"><a class="source" href="https://www.apple.com/es/tv-pr/originals/pluribus/episodes-images/">Apple TV</a></span>
</figcaption>
</figure>
<h2>Felizes para sempre?</h2>
<p>Aspiramos ser felizes, sim. Mas, definitivamente, não como na série: ser feliz não é ser insosso. Carol Sturka é perfeita como protagonista porque não é assim como pessoa. Nenhum de nós é, embora procuremos configurar nossa maneira de ser da melhor maneira possível. Ela sente saudades dos momentos de felicidade vividos antes de aquele vírus alienígena absorver todas as mentes e anular todos os corações. E procura outros novos. </p>
<p>Como expressa o escritor grego Cavafis em seu poema <a href="https://youtu.be/JCe0CEpSc6Y">Ítaca</a> , a felicidade primitiva é reencontrada em uma viagem rica em experiências e conhecimentos. É por isso que Marías fala da identidade pessoal de cada um como “inovação radical”, porque é o resultado da trajetória percorrida por cada um, da vida entendida como biografia.</p>
<p>No mundo de <em>Pluribus</em>, um mundo em que todos são iguais, não há inovação radical, não há identidade individual, apenas fotocópias.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/274803/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>José Ángel Agejas Esteban não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.</span></em></p>Em “Pluribus”, a Humanidade se transforma em uma mente coletiva feliz, exceto por um pequeno grupo de pessoas, entre elas, Carol.José Ángel Agejas Esteban, Catedrático de Ética y Deontología, Universidad Francisco de VitoriaLicensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2747862026-01-30T16:59:21Z2026-01-30T16:59:21ZO caso do cão Orelha, o sofrimento coletivo e o lugar do autocuidado em tempos de comoção social<p>Orelha foi um cão comunitário brutalmente espancado e eutanasiado em consequência das <a href="https://exame.com/pop/quem-e-orelha-conheca-a-historia-do-cao-comunitario-assassinado-em-sc/">agressões</a> que sofreu. Descrito como um animal dócil e brincalhão, por cerca de 10 anos foi cuidado por moradores da Praia Brava, um bairro de Florianópolis. Sua morte causou uma onda de protestos e indignação que ultrapassou os limites do bairro em que viveu.</p>
<p>Como psicoterapeuta e pesquisadora especialista no vínculo entre pessoas e animais observo com frequência o impacto profundo desse vínculo emocional. Da mesma forma, acompanho de perto o sofrimento envolvido com o rompimento desse vínculo.</p>
<hr>
<p>
<em>
<strong>
Leia mais:
<a href="https://theconversation.com/caso-orelha-agressoes-a-animais-podem-ser-sinal-de-alerta-para-situacoes-de-violencia-domestica-e-social-274711">Caso Orelha: agressões a animais podem ser sinal de alerta para situações de violência doméstica e social</a>
</strong>
</em>
</p>
<hr>
<p>Mas afinal o que é um animal comunitário e como explicar as reações emocionais tão intensas à morte de um animal que não era responsabilidade individual de ninguém? Até que ponto essa experiência pode ser vivida como traumática, mesmo que não seja um trauma no sentido clinico?</p>
<h2>O papel social do animal comunitário</h2>
<p>Como um <a href="https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/mundo-pet/noticia/2022/10/27/lei-define-conceito-de-animal-comunitario-em-sorocaba-entenda-o-que-significa.ghtml">cão comunitário</a>, Orelha era uma <a href="https://jsmcah.org/index.php/jasv/article/view/62/62">responsabilidade compartilhada</a> por aqueles que viviam na Praia Brava. Pesquisas indicam que animais comunitários tendem a ocupar um lugar importante na vida das pessoas que convivem com eles. Muitas vezes esses animais são <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1558787816300247?via%3Dihub">percebidos</a> como um elo social e um ponto de conexão que une moradores da região.</p>
<p>Dessa forma, esses animais podem aumentar a sensação de familiaridade em espaços públicos contribuindo para um aumento da sensação de pertencimento social. O engajamento espontâneo ou organizado em atos de cuidado ao animal também pode favorecer um senso de responsabilidade social compartilhado.</p>
<p>Com a convivência, assim como ocorre com o cão de companhia vivendo apenas com uma família, esses animais passam a ser parte da <a href="https://www.springernature.com/gp/open-science/about/the-fundamentals-of-open-access-and-open-research">organização cotidiana e identidade</a> emocional das pessoas. Ou seja, o Orelha sustentava uma rede de práticas coletivas de cuidado. Baseando-se na literatura, ao fazer isso, ele possivelmente criava micro vínculos cotidianos que contribuíam para a sensação de coesão social. Portanto, a perda do Orelha pode ser percebida por muitos que o conheceram como a perda de um elemento de conexão. Visto dessa perspectiva, é como se uma referência afetiva da Praia Brava tivesse sido destruída.</p>
<p>Além disso, a forma violenta como a morte ocorreu pode trazer uma sensação de que algo ainda mais amplo foi atingido: a <a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3462468/">sensação de segurança</a> em espaços coletivos. E em contextos de <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/en/the-justice-of-impunity-2/">impunidade</a> essa sensação de vulnerabilidade tende a se intensificar.</p>
<h2>Luto coletivo e reações emocionais intensas</h2>
<p>Casos de violência e brutalidade extrema como o do Orelha tendem a mobilizar dois tipos de processos coletivos distintos, mas interligados. O primeiro processo é o <a href="https://nhchc.org/wp-content/uploads/2023/06/Confronting-Collective-and-Cumulative-Grief_-Self-care-as-an-Institutional-Responsibility-1.pdf">luto coletivo</a>, porque o Orelha ocupava um lugar simbólico na comunidade em que vivia. Nesse cenário, a perda passa a ser compartilhada não apenas por quem convivia com ele, mas também por aqueles que o conheceram através de notícias e redes sociais.</p>
<p>Por outro lado, embora na maioria dos casos as reações emocionais intensas sejam esperadas diante de um tipo de violência que rompe o senso de segurança, em <a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11022913/">alguns casos</a>, podem ocorrer respostas mais intensas. Tais respostas podem ser decorrentes da exposição repetida à violência por meio das <a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7351429/">redes sociais e da mídia</a>.</p>
<p>No caso Orelha, a violência contra o animal, especialmente quando há identificação com o caso, pode ativar respostas fisiológicas e emocionais. Algumas pessoas podem pensar “Poderia ser meu cachorro”, o que aumenta a sensação de vínculo emocional com o cão.</p>
<p>A <a href="https://www.mhs-dbt.com/blog/parasympathetic-nervous-system-and-trauma/">ativação do sistema nervoso</a> acontece quando o corpo entra em estado de alerta em resposta a algo percebido como ameaçador, ainda que a ameaça não esteja concretamente diante da pessoa.</p>
<p>Alguns <a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3182008/">sinais</a> comuns diante de situações percebidas como ameaçadoras são coração acelerado, tensão muscular, irritabilidade ou vontade de chorar, dificuldade falar sobre o evento ou de dormir e focar em outras coisas. Ao mesmo tempo, o caso também pode ativar memórias, vínculos e experiencias pessoais de violência, fazendo com que a morte do Orelha seja percebida como mais próxima emocionalmente.</p>
<p>Portanto, diante de casos tão chocantes é compreensível que a comunidade se sinta abalada e emocionalmente mobilizada.</p>
<p>Como discutido em <a href="https://theconversation.com/caso-orelha-agressoes-a-animais-podem-ser-sinal-de-alerta-para-situacoes-de-violencia-domestica-e-social-274711">artigo recente</a> é importante transformar indignação em ação. Por outro lado, isso pode ser feito sem negligenciar o próprio cuidado emocional.</p>
<p>Diante de casos como esse, oferecer suporte não deve ser visto apenas como uma iniciativa individual, mas também uma <a href="https://nhchc.org/wp-content/uploads/2023/06/Confronting-Collective-and-Cumulative-Grief_-Self-care-as-an-Institutional-Responsibility-1.pdf">responsabilidade pública</a>. No entanto, do ponto de vista individual, alguns cuidados podem ser importantes nesse contexto:</p>
<p>· Limitar a exposição a conteúdos violentos, imagens e notícias relacionadas ao caso, já que a exposição sem limites pode intensificar o sofrimento.</p>
<p>· Prestar atenção ao corpo: tensão, respiração curta, dificuldade parar dormir, sentimentos intensos como tristeza e revolta que interferem no funcionamento diário são sinais de alerta. Incluir pequenas pausas e inserir momentos de autocuidado no dia a dia podem ser importantes formas de regular o sistema nervoso.</p>
<p>· Compartilhar sentimentos: ter uma rede social de apoio é importante para compartilhar o impacto emocional da experiência e tentar entender as próprias emoções. Isso ajuda a manejar a sobrecarga emocional.</p>
<p>· Transformar indignação em ação: apoiar causas ligadas a proteção animal, cobrar políticas públicas e se mobilizar de forma saudável. Isso ajuda a diminuir a sensação de impotência que casos como esse tende a mobilizar.</p>
<h2>Mobilização e apoio social</h2>
<p>Vários estudos apontam que eventos altamente impactantes do ponto de vista emocional podem <a href="https://psycnet.apa.org/doiLanding?doi=10.1037%2Fa0027255">fortalecer conexões sociais</a>, aumentar empatia e gerar mobilização social. Para que isso ocorra, no entanto, apoio social e sentido compartilhado são fundamentais.</p>
<p>Nesses casos, mais do que cuidado individual, é importante também desenvolver iniciativas institucionais de suporte psicológico à população. Quando atravessados coletivamente e através de ações concretas, esses eventos podem favorecer <a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4185140/">processos de resiliência</a>. Nada disso diminui a gravidade do que aconteceu, mas a mobilização em torno da história do Orelha pode contribuir para fortalecer ações coletivas e incentivar respostas institucionais efetivas diante da violência.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/274786/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Renata Roma não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.</span></em></p>O que é um animal comunitário e como explicar as reações emocionais tão intensas à morte de um animal que não era responsabilidade individual de ninguém?Renata Roma, Research Associate - Pawsitive Connections Lab, University of SaskatchewanLicensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2742572026-01-30T15:04:24Z2026-01-30T15:04:24ZMais de 55% da vegetação nativa do Cerrado, um dos Ecodomínios mais ricos e ameaçados do mundo, já foi perdida<p>Uma <a href="https://natureconservation.pensoft.net/article/168273/">revisão detalhada</a>, que sintetiza décadas de pesquisas, alerta que o Cerrado brasileiro, conhecido por suas vastas “florestas invertidas” e considerado um dos Ecodomínios mais ricos da Terra, está sob ameaça intensa. </p>
<p>Publicada na <em><a href="https://natureconservation.pensoft.net/">Nature Conservation</a></em>, a revisão mostra que, apesar de o Cerrado sustentar as principais bacias hidrográficas do Brasil, mais de 55% de sua vegetação nativa já foi convertida, principalmente ao longo das últimas cinco décadas.</p>
<h2>Ecodomínio ameaçado</h2>
<p>Em nossa pesquisa, criamos o conceito de Ecodomínio. Do grego <em>oikos</em> = casa, e do latim <em>dominium</em> = domínio, autoridade), o termo é utilizado por nós para designar grandes unidades ecológicas caracterizadas por uma relativa uniformidade de condições climáticas, geomorfológicas e biológicas, abrangendo diversas ecorregiões, biomas e ecossistemas. </p>
<p>Frequentemente ofuscado pela Amazônia, o Cerrado é o segundo maior Ecodomínio da América do Sul, <a href="https://www.embrapa.br/agencia-de-informacao-tecnologica/tematicas/bioma-cerrado">cobrindo 24% do território nacional</a> e sustentando grande parte das principais bacias hidrográficas do país, mas <a href="https://doi.org/10.1093/biosci/biae063">historicamente tem sido deixado de lado nos diálogos globais sobre conservação</a>.</p>
<p>Nossa revisão alerta que esse <a href="https://doi.org/10.1038/35002501"><em>hotspot</em> de biodiversidade</a> enfrenta atualmente uma crise ecológica massiva e multifacetada. Apesar de sua importância, a região já teve mais de 55% de sua vegetação nativa convertida, uma área que excede 1 milhão de km², sendo que a grande maioria dessa destruição ocorreu nos últimos 50 anos.</p>
<figure class="align-center ">
<img alt="" src="https://images.theconversation.com/files/715472/original/file-20260130-56-wsvdwc.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&fit=clip" srcset="https://images.theconversation.com/files/715472/original/file-20260130-56-wsvdwc.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=600&h=398&fit=crop&dpr=1 600w, https://images.theconversation.com/files/715472/original/file-20260130-56-wsvdwc.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=600&h=398&fit=crop&dpr=2 1200w, https://images.theconversation.com/files/715472/original/file-20260130-56-wsvdwc.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=600&h=398&fit=crop&dpr=3 1800w, https://images.theconversation.com/files/715472/original/file-20260130-56-wsvdwc.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&h=500&fit=crop&dpr=1 754w, https://images.theconversation.com/files/715472/original/file-20260130-56-wsvdwc.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=754&h=500&fit=crop&dpr=2 1508w, https://images.theconversation.com/files/715472/original/file-20260130-56-wsvdwc.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=754&h=500&fit=crop&dpr=3 2262w" sizes="(min-width: 1466px) 754px, (max-width: 599px) 100vw, (min-width: 600px) 600px, 237px">
<figcaption>
<span class="caption">O Jardim de Maitreya, na entrada da região da Chapada dos Veadeiros,é uma das mais deslumbrantes visões do cerrado brasileiro.</span>
<span class="attribution"><span class="source">Foto: Teo Neto / Wikipedia</span>, <a class="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/">CC BY</a></span>
</figcaption>
</figure>
<p>Embora dados recentes sugiram uma <a href="https://terrabrasilis.dpi.inpe.br/app/dashboard/deforestation/biomes/cerrado/increments">leve redução nas taxas anuais de desmatamento</a>, a perda acumulada continua a aumentar, tornando o Cerrado o Ecodomínio do Brasil com a <a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2025-10/cerrado-brasileiro-perdeu-28-da-vegetacao-nativa-em-40-anos">maior perda de vegetação nativa</a>. Essa expansão é impulsionada por uma combinação de crescimento agrícola e urbano, mineração e especulação fundiária, criando uma paisagem cada vez mais fragmentada e ecologicamente comprometida.</p>
<h2>Floresta invertida e carbono oculto</h2>
<p>Uma das características que tornam o Cerrado verdadeiramente único é sua “<a href="https://www.jardimbotanico.df.gov.br/voce-conhece-de-fato-o-bioma-cerrado/">floresta invertida</a>”. Diferentemente das florestas tropicais úmidas, que armazenam a maior parte de sua biomassa em copas elevadas, o Cerrado alcançou um feito ecológico de sobrevivência ao armazenar aproximadamente 90% de seu carbono abaixo do solo, por meio de sistemas radiculares profundos e maciços. Essa rede subterrânea torna o Ecodomínio um sumidouro de carbono crítico e um regulador fundamental da água.</p>
<p>No entanto, esforços de restauração mal orientados, que se concentram exclusivamente no plantio de árvores exóticas em áreas naturalmente abertas, podem agravar ainda mais esse problema. Isso ressalta a necessidade de estratégias de restauração que priorizem a funcionalidade ecológica e os bancos de sementes nativos, em vez da simples <a href="https://doi.org/10.1093/biosci/biv118">aforestação</a> (<em>afforestation</em>).</p>
<h2>Diversidade de ecossistemas e desafios para a conservação</h2>
<p>Não é apenas a vasta savana tropical do Cerrado que compõe essa floresta invertida, mas sim um mosaico complexo e interdependente de campos, savanas e florestas, cada um com estruturas, processos ecológicos e vulnerabilidades distintas. Tratá-lo como homogêneo invisibiliza tanto as formações campestres quanto as florestais, dificultando a formulação de políticas de conservação eficazes.</p>
<p>Por exemplo, os campos naturais, especialmente nos <a href="https://fapemig.br/difusao-do-conhecimento/imprensa/noticias-e-eventos/a-importancia-e-os-desafios-da-restauracao-dos-campos-rupestres">Campos Rupestres</a> montanos, ocupam áreas limitadas, abrigam alto <a href="https://conafer.org.br/reconecte-se-endemismo-a-riqueza-desconhecida-do-brasil/">endemismo</a> e enfrentam fortes pressões da mineração, de invasões biológicas e do aumento do fogo. Já as <a href="https://conafer.org.br/reconecte-se-cerrado-savana-tropical-mais-biodiversa-do-mundo/">savanas</a>, embora dominantes em extensão, têm sido amplamente convertidas em monoculturas, pastagens exóticas e silvicultura, comprometendo sua integridade ecológica.</p>
<p>Embora algumas espécies sejam adaptadas ao fogo natural, muitos ecossistemas - como as florestas, as formações alagadas Veredas e os Campos Rupestres montanos - são altamente vulneráveis. As <a href="https://doi.org/10.1186/s42408-024-00298-4">invasões por espécies exóticas</a> e o <a href="https://doi.org/10.1186/s42408-024-00298-4">aumento da frequência e da intensidade dos incêndios</a> agravam as perdas ecológicas mesmo sem desmatamento direto. </p>
<p>Constatamos que quase todos os incêndios no Cerrado são induzidos por atividades humanas e ocorrem fora dos regimes naturais, causando degradação cumulativa.</p>
<h2>Biodiversidade ameaçada e lacunas na conservação</h2>
<p>Nossa pesquisa evidencia um padrão preocupante de “extinções silenciosas” em todo o Cerrado. Embora este Ecodomínio abrigue milhares de plantas e animais únicos, identificamos uma enorme lacuna na forma como essas espécies são monitoradas. </p>
<p>Plantas e invertebrados são os grupos mais ameaçados, mas também os menos estudados. Isso significa que espécies estão desaparecendo antes mesmo de serem cientificamente documentadas.
evo
As políticas atuais falham porque se baseiam em dados incompletos: não podemos proteger o que ainda não foi catalogado. Para evitar um colapso total, é necessário expandir nossos critérios de conservação para proteger não apenas espécies individuais, mas também as complexas interações ecológicas que sustentam a água e o solo da região.</p>
<h2>Crise hídrica do Cerrado</h2>
<p>A crise ambiental no Cerrado também é uma “crise hídrica silenciosa”, que ameaça a segurança nacional do Brasil. O Ecodomínio <a href="https://www.savecerrado.org/cerrado-berco-aguas-brasileiras/">sustenta as principais bacias hidrográficas e grandes aquíferos do país</a>, mas esse equilíbrio está sendo perturbado pela agricultura irrigada, contaminação por agroquímicos e construção de barragens. </p>
<p>A retirada excessiva de água superficial e subterrânea já está levando à redução do fluxo dos rios e à degradação das Veredas, essenciais para a regulação hídrica.</p>
<p>Paradoxalmente, os próprios setores que impulsionam essa degradação, como o agronegócio e a produção de energia, são os mais dependentes desses recursos hídricos, criando um ciclo de insegurança crescente. Proteger as áreas ripárias e os aquíferos do Cerrado deixou de ser apenas uma preocupação ambiental, tornando-se um pré-requisito para a sobrevivência da economia regional e para a resiliência climática.</p>
<h2>Desconexão entre a lei e a realidade</h2>
<p>O Cerrado enfrenta uma perigosa desconexão entre a legislação ambiental e a realidade ecológica. Nossa pesquisa revela que a proteção atual é surpreendentemente limitada: embora tenhamos catalogado 706 Unidades de Conservação, elas cobrem apenas 8% do Ecodomínio, com menos de 3% sob proteção integral.</p>
<p>Para auxiliar pesquisadores e formuladores de políticas, <a href="https://figshare.com/articles/dataset/Unidades_de_Conserva_o_do_Cerrado_Lista_completa_incluindo_RPPNs/31021234?file=60874696">compilamos um conjunto de dados sem precedentes dessas unidades</a>, incluindo as frequentemente negligenciadas <a href="https://oeco.org.br/dicionario-ambiental/28475-o-que-e-uma-reserva-particular-do-patrimonio-natural-rppn/">Reservas Particulares do Patrimônio Natural</a> (RPPNs) e ecótonos cruciais.</p>
<p>Ecótonos são zonas de transição entre ecossistemas, caracterizados pela sobreposição gradual ou abrupta de espécies e condições ambientais. Essas zonas apresentam alta heterogeneidade ecológica, podem abrigar espécies únicas e desempenham um papel fundamental na conectividade da paisagem.</p>
<p>No entanto, os dados por si só não são suficientes. O <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12651.htm">Código Florestal Brasileiro</a> define limites — especificamente os 20% de <a href="https://www.embrapa.br/codigo-florestal/area-de-reserva-legal-arl">Reserva Legal</a> (RL) e as estreitas <a href="https://www.embrapa.br/codigo-florestal/entenda-o-codigo-florestal/area-de-preservacao-permanente">Áreas de Preservação Permanente</a> (APPs) de 30 metros —, mas que são ecologicamente insuficientes. Esses limites deixam formações vitais, como Veredas e Campos Rupestres, como fragmentos isolados e vulneráveis.</p>
<p>Para prevenir o colapso dos ecossistemas e garantir o abastecimento hídrico do Brasil, defendemos reformas urgentes: aumentar os requisitos de Reserva Legal para pelo menos 35%, expandir as zonas de proteção para refletir a realidade biológica e implementar rastreabilidade rigorosa para desvincular a produção agrícola da perda de habitats.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/274257/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Cássio Cardoso Pereira é afiliado à Programa de Pós Graduação em Ecologia - UFSJ. </span></em></p>O Cerrado cobre 24% do território nacional e sustenta grande parte das principais bacias hidrográficas do país, mas historicamente tem sido deixado de lado nas discussões sobre conservaçãoCássio Cardoso Pereira, Docente colaborador e orientador do Programa de Pós-Graduação em Ecologia (PGE), Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)Licensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2747802026-01-30T14:51:13Z2026-01-30T14:51:13ZA ação militar dos EUA no Irã corre o risco de desencadear uma escalada nuclear regional e global<figure><img src="https://images.theconversation.com/files/715468/original/file-20260129-56-pvcs28.jpg?ixlib=rb-4.1.0&rect=0%2C1%2C7727%2C5152&q=45&auto=format&w=1050&h=700&fit=crop" /><figcaption><span class="caption">Jovens iranianos passam por um prédio coberto por um outdoor gigante com a imagem do USS Abraham Lincoln destruído.</span> <span class="attribution"><a class="source" href="https://www.gettyimages.com/detail/news-photo/iranian-youths-walk-past-a-state-building-covered-with-a-news-photo/2258052819?adppopup=true">Morteza Nikoubazl/NurPhoto via Getty Images</a></span></figcaption></figure><p>Os Estados Unidos parecem estar <a href="https://theconversation.com/with-iran-weakened-trumps-end-goal-may-now-be-regime-change-its-an-incredibly-risky-gamble-274626">caminhando para um possível ataque</a> ao Irã.</p>
<p>Em 28 de janeiro de 2026, o presidente Donald Trump intensificou drasticamente suas ameaças à República Islâmica, sugerindo que, se Teerã não concordasse com uma série de exigências, ele poderia lançar um ataque “<a href="https://www.politico.com/news/2026/01/28/trump-iran-threats-massive-armada-00751756">com rapidez e violência</a>”. Para enfatizar a ameaça, o Pentágono moveu o porta-aviões <a href="https://www.aljazeera.com/news/2026/1/25/us-military-moves-navy-air-force-assets-to-the-middle-east-what-to-know">USS Abraham Lincoln</a> – junto com contratorpedeiros, bombardeiros e caças – para posições dentro do alcance de ataque do país.</p>
<p>Entre as <a href="https://www.nytimes.com/2026/01/29/world/europe/trump-iran-threats.html">várias exigências</a> que o governo dos EUA apresentou ao líder do Irã, a principal é o fim definitivo do programa de enriquecimento de urânio do país. Também exigiu limites ao desenvolvimento de mísseis balísticos e o fim do apoio de Teerã a grupos rebeldes armados do Oeste da Ásia, incluindo o Hamas, o Hezbollah e os houthis.</p>
<p>Trump aparentemente vê neste momento uma oportunidade de pressionar um Irã enfraquecido por uma economia fraca e <a href="https://www.cbsnews.com/news/iran-protest-death-toll-over-12000-feared-higher-video-bodies-at-morgue/">protestos massivos</a> que varreram o país no início de janeiro.</p>
<p>Mas, como estudioso de <a href="https://ir.sas.upenn.edu/people/farah-jan">política de segurança e proliferação no Oriente Médio</a>, tenho minhas preocupações. Qualquer ação militar dos EUA agora poderia ter consequências indesejadas generalizadas no futuro. E isso inclui o potencial de aceleração da proliferação nuclear global — independentemente de o governo iraniano ser capaz de sobreviver ao seu atual momento de crise.</p>
<h2>A lição do limiar do Irã</h2>
<p>A queda da República Islâmica está longe de ser certa, mesmo que os EUA usem força militar. O Irã não é um Estado frágil suscetível a um colapso rápido. Com uma <a href="https://www.worldometers.info/world-population/%20iran-population/">população de 93 milhões</a> e uma capacidade estatal substancial, o país possui um aparato coercitivo em camadas e instituições de segurança construídas para sobreviver a crises. A <a href="https://www.cfr.org/backgrounders/irans-revolutionary-guards">Guarda Revolucionária Islâmica</a>, ala militar do regime, é comumente estimada em centenas de milhares de membros e comanda ou pode mobilizar forças auxiliares.</p>
<figure class="align-center zoomable">
<a href="https://images.theconversation.com/files/715308/original/file-20260129-56-a3paxo.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=1000&fit=clip"><img alt="Um grupo de pessoas é visto perto de uma fogueira." src="https://images.theconversation.com/files/715308/original/file-20260129-56-a3paxo.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&fit=clip" srcset="https://images.theconversation.com/files/715308/original/file-20260129-56-a3paxo.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=600&h=408&fit=crop&dpr=1 600w, https://images.theconversation.com/files/715308/original/file-20260129-56-a3paxo.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=600&h=408&fit=crop&dpr=2 1200w, https://images.theconversation.com/files/715308/original/file-20260129-56-a3paxo.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=600&h=408&fit=crop&dpr=3 1800w, https://images.theconversation.com/files/715308/original/file-20260129-56-a3paxo.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&h=512&fit=crop&dpr=1 754w, https://images.theconversation.com/files/715308/original/file-20260129-56-a3paxo.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=754&h=512&fit=crop&dpr=2 1508w, https://images.theconversation.com/files/715308/original/file-20260129-56-a3paxo.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=754&h=512&fit=crop&dpr=3 2262w" sizes="(min-width: 1466px) 754px, (max-width: 599px) 100vw, (min-width: 600px) 600px, 237px"></a>
<figcaption>
<span class="caption">Manifestantes no Irã em 8 de janeiro de 2026.</span>
<span class="attribution"><span class="source">Anonymous/Getty Images</span></span>
</figcaption>
</figure>
<p>Após 47 anos de governo, as instituições da República Islâmica estão profundamente enraizadas na sociedade iraniana. Além disso, qualquer mudança na liderança provavelmente não produziria uma folha em branco. O secretário de Estado Marco Rubio reconheceu isso, dizendo aos legisladores em 28 de janeiro que não havia “<a href="https://www.nytimes.com/2026/01/28/us/politics/%20trump-iran-armada.html">uma resposta simples</a>” para o que aconteceria se o governo caísse. “Ninguém sabe quem assumiria o poder”, disse ele. A oposição exilada está fragmentada, desconectada da realidade interna e carece de capacidade organizacional para governar um país tão grande e dividido.</p>
<p>E é nessa incerteza que reside o perigo. O Irã é um “<a href="https://www.iiss.org/online-analysis/online-analysis/2022/11/iran-approaches-the-nuclear-threshold/">país limítrofe</a>” — um país com capacidade técnica para produzir armas nucleares, mas que ainda não cruzou a linha final da produção.</p>
<p>Um estado limítrofe desestabilizado apresenta três riscos: perda do comando centralizado sobre o material nuclear e os cientistas, incentivos para que facções radicais monetizem ou exportem conhecimentos especializados e lógica de aceleração — numa corrida para garantir a dissuasão antes do colapso. </p>
<p>A história oferece advertências. O colapso da União Soviética no início da década de 1990 produziu quase acidentes e muita preocupação com o paradeiro de <a href="https://bellona.org/news/nuclear-issues/radioactive-waste-and-spent-nuclear-fuel/2002-11-gan-says-nuclear-materials-have-been-disappearing-from-russian-plants-for-10-years">material nuclear desaparecido</a>. Enquanto isso, as atividades da rede <a href="https://carnegieendowment.org/research/2005/09/a-q-khan-nuclear-chronology?lang=en">A.Q. Khan</a>, centrada em torno do chamado pai do programa atômico do Paquistão, provaram que o conhecimento especializado viaja. E no caso de Khan, foi para a Coreia do Norte, a Líbia e o Irã.</p>
<h2>O que as greves ensinam</h2>
<p>Independentemente de <a href="https://theconversation.com/with-iran-weakened-trumps-end-goal-may-now-be-regime-change-its-an-incredibly-risky-gamble-274626">uma mudança de regime poder ocorrer</a>, qualquer ação militar dos EUA tem implicações profundas para a proliferação global.</p>
<p>O status do Irã como um <a href="https://theconversation.com/iran-israel-threshold-war-has-rewritten-nuclear-escalation-rules-258965">país limítrofe</a> tem sido uma escolha de contenção estratégica. Mas quando, em junho de 2025, Israel e os EUA atacaram as instalações nucleares do Irã, esse ataque — e as últimas ameaças de Trump — <a href="https://theconversation.com/iran-israel-threshold-war-has-rewritten-nuclear-escalation-rules-258965">enviaram uma mensagem clara</a> de que o status de limiar não oferece segurança confiável.</p>
<p>A mensagem para outras nações com aspirações nucleares é clara e se baseia em uma série de duras lições de não proliferação aprendidas nas últimas três décadas. A Líbia <a href="https://www.armscontrol.org/factsheets/chronology-libyas-disarmament-and-relations-united-states">abandonou seu programa nuclear em 2003</a> em troca da normalização das relações com o Ocidente. No entanto, apenas oito anos depois, os ataques aéreos da OTAN em apoio aos rebeldes líbios levaram à captura e <a href="https://www.reuters.com/article/world/gaddafi-caught-like-rat-in-a-drain-humiliated-and-shot-idUSTRE79K4VO/">morte do ditador Muammar Gaddafi</a>.</p>
<p>A Ucrânia <a href="https://www.armscontrol.org/factsheets/ukraine-nuclear-weapons-and-security-assurances-glance">renunciou ao seu arsenal nuclear</a> em 1994 em troca de garantias de segurança da Rússia, dos EUA e da Grã-Bretanha. No entanto, 20 anos depois, em 2014, <a href="https://www.pbs.org/newshour/world/what-to-know-about-crimea-the-peninsula-russia-seized-from-ukraine-in-2014">a Rússia anexou a Crimeia</a>, antes de lançar uma invasão total em 2022. </p>
<p>Agora podemos adicionar o Irã à lista: o país exerceu moderação no nível limiar, mas mesmo assim foi <a href="https://theconversation.com/iran-israel-threshold-war-has-rewritten-nuclear-escalation-rules-258965">atacado por bombas dos EUA em 2025</a> e agora enfrenta um possível ataque subsequente.</p>
<blockquote>
<p>A lição não passou despercebida por Mehdi Mohammadi, um conselheiro sênior iraniano. Falando na TV estatal em 27 de janeiro, ele disse que <a href="https://www.nytimes.com/2026/01/29/world/europe/trump-iran-threats.html">as exigências de Washington</a> “se traduzem em desarmarmo-nos se para eles que possam atacar-nos quando quiserem”.</p>
</blockquote>
<p>Se abandonar um programa nuclear leva a uma mudança de regime, renunciar às armas resulta em invasão e permanecer no limiar convida a ataques militares, segue a lógica, então a segurança só é realmente alcançada através da posse de armas nucleares — e não negociando-as ou interrompendo o desenvolvimento antes da conclusão.</p>
<p>Se a liderança iraniana sobreviver a qualquer ataque dos EUA, acredito que, quase certamente, ela redobrará o programa de armas do Irã.</p>
<h2>Credibilidade da AIEA</h2>
<p>As ameaças ou ataques militares dos EUA com o objetivo de destruir o programa nuclear de uma nação também prejudicam a arquitetura internacional projetada para impedir a proliferação. </p>
<p>A <a href="https://www.iaea.org/">Agência Internacional de Energia Atômica</a> estava, até os ataques anteriores de Israel e dos EUA, funcionando conforme o planejado – detectando, sinalizando e verificando. Seu monitoramento do Irã era a prova de que o regime de inspeção funcionava.</p>
<p>Ataques militares — ou a ameaça credível deles — removem os inspetores, interrompem a continuidade do monitoramento e sinalizam que o cumprimento das regras não garante a segurança.</p>
<p>Se seguir as regras não oferece proteção, por que segui-las? Em jogo está a credibilidade da AIEA e a fé em todo o sistema de diplomacia internacional e monitoramento para conter as preocupações nucleares.</p>
<figure class="align-center zoomable">
<a href="https://images.theconversation.com/files/715307/original/file-20260129-98-ytr7et.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=1000&fit=clip"><img alt="
Homens e mulheres alinham-se no convés de um grande navio." src="https://images.theconversation.com/files/715307/original/file-20260129-98-ytr7et.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&fit=clip" srcset="https://images.theconversation.com/files/715307/original/file-20260129-98-ytr7et.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=600&h=400&fit=crop&dpr=1 600w, https://images.theconversation.com/files/715307/original/file-20260129-98-ytr7et.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=600&h=400&fit=crop&dpr=2 1200w, https://images.theconversation.com/files/715307/original/file-20260129-98-ytr7et.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=600&h=400&fit=crop&dpr=3 1800w, https://images.theconversation.com/files/715307/original/file-20260129-98-ytr7et.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&h=503&fit=crop&dpr=1 754w, https://images.theconversation.com/files/715307/original/file-20260129-98-ytr7et.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=754&h=503&fit=crop&dpr=2 1508w, https://images.theconversation.com/files/715307/original/file-20260129-98-ytr7et.jpg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=754&h=503&fit=crop&dpr=3 2262w" sizes="(min-width: 1466px) 754px, (max-width: 599px) 100vw, (min-width: 600px) 600px, 237px"></a>
<figcaption>
<span class="caption">O USS Abraham Lincoln na baía de San Diego em 20 de dezembro de 2024.</span>
<span class="attribution"><a class="source" href="https://www.gettyimages.com/detail/news-photo/sailors-and-marines-man-the-rails-as-the-u-s-navy-nimitz-news-photo/2190165170?adppopup=true">Kevin Carter/Getty Images</a></span>
</figcaption>
</figure>
<h2>O efeito dominó</h2>
<p>Todas as nações que estão avaliando suas opções nucleares estão observando para ver como esse último impasse entre os EUA e o Irã se desenrolará.</p>
<p>A Arábia Saudita, rival regional do Irã, não escondeu suas próprias ambições nucleares, com <a href="https://www.cbsnews.com/news/%20saudi-crown-prince-mohammed-bin-salman-iran-nuclear-bomb-saudi-arabia/">o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman declarando publicamente</a> que o reino buscaria armas nucleares se o Irã o fizesse. </p>
<p>No entanto, um ataque dos EUA ao Irã não tranquilizaria os aliados de Washington no Golfo. Pelo contrário, poderia deixá-los inquietos. Os ataques dos EUA ao Irã em junho de 2025 foram realizados para proteger Israel, não a Arábia Saudita ou o Irã. Os líderes do Golfo podem concluir que a ação militar americana beneficia os parceiros preferenciais, não necessariamente eles. E se a proteção dos EUA for seletiva em vez de universal, uma resposta racional poderia ser proteger-se de forma independente.</p>
<p>A <a href="https://www.csis.org/analysis/could-pakistani-saudi-defense-pact-be-first-step-toward-nato-style-alliance">cooperação de defesa cada vez mais profunda</a> da Arábia Saudita com a potência nuclear Paquistão, por exemplo, representa uma proteção contra a falta de confiabilidade americana e a instabilidade regional. O reino do Golfo investiu pesadamente nas capacidades militares paquistanesas e mantém o que muitos analistas acreditam ser um entendimento em relação ao arsenal nuclear do Paquistão. </p>
<p>A Turquia, por sua vez, tem se irritado com os acordos nucleares da OTAN e sinalizado periodicamente seu interesse em uma capacidade independente. <a href="https://www.armscontrol.org/act/2019-10/news/turkey-shows-nuclear-weapons-interest">O presidente Recep Tayyip Erdoğan questionou em 2019</a> por que a Turquia não deveria possuir armas nucleares quando outros países da região as possuem. Um ataque ao Irã, especialmente um ao qual a Turquia se oponha, poderia muito bem acelerar a proteção turca e potencialmente desencadear um sério programa de armas doméstico.</p>
<p>E a cascata nuclear provavelmente não pararia no Oriente Médio. A Coreia do Sul e o Japão permaneceram não nucleares em grande parte devido à confiança na dissuasão ampliada dos Estados Unidos. A proliferação regional e o risco de um Irã desestabilizado exportar seu know-how, cientistas e tecnologia levantariam questões em Seul e Tóquio sobre se as garantias americanas são confiáveis.</p>
<h2>Uma contra-ordem emergente?</h2>
<p>As monarquias árabes do Golfo certamente compreendem esses riscos, o que ajuda a explicar por que <a href="https://www.reuters.com/business/media-telecom/four-arab-states-urged-against-us-iran-escalation-official-says-2026%20-01-15/">elas pressionaram o governo Trump</a> contra uma ação militar contra o Irã — apesar de Teerã ser um grande antagonista no desejo dos Estados do Golfo de “eliminar os riscos” da região.</p>
<p>A arquitetura de segurança regional liderada pelos Estados Unidos já está sob pressão. Ela corre o risco de se desgastar ainda mais se os parceiros do Golfo diversificarem seus laços de segurança e se protegerem contra a imprevisibilidade dos EUA.</p>
<p>Como resultado, as ameaças e possíveis ataques do governo Trump contra o Irã podem, por outro lado, resultar não em maior influência americana, mas em menor relevância, à medida que a região se divide em esferas de influência concorrentes.</p>
<p>E talvez o mais alarmante de tudo seja que isso possa incutir nas estratégias de todos os Estados que aspiram à energia nuclear o conceito de que segurança só é consegue através da posse de armas nucleares.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/274780/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Farah N. Jan não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.</span></em></p>O governo Trump pediu ao Irã que encerrasse definitivamente seu programa nuclear. Mas ameaças de uso da força podem prejudicar os esforços de não-proliferaçãoFarah N. Jan, Senior Lecturer in International Relations, University of PennsylvaniaLicensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2747222026-01-30T13:51:14Z2026-01-30T13:51:14ZConselho da Paz: Brasil tenta construir alternativa entre alinhamentos exclusivos com Washington ou com Pequim<p>A criação do <a href="https://www.reuters.com/world/europe/trump-launch-board-peace-that-some-fear-rivals-un-2026-01-22/">Conselho da Paz</a> por Donald Trump em <a href="https://www.aljazeera.com/news/2026/1/23/imperial-agenda-whats-trumps-gaza-development-plan-unveiled-in-davos">Davos</a> reacende, ao mesmo tempo, dois debates centrais do direito internacional: quem pode decidir sobre <a href="https://scholarship.law.duke.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1344&context=lcp">guerra e paz</a> e que tipo de organização é compatível com a igualdade entre Estados. A Carta do Conselho concentra poderes decisórios no presidente vitalício – que convida e exclui membros, redesenha órgãos internos e define a agenda – sem mecanismos robustos de responsabilização ou controle coletivo. </p>
<h2>Conselho cria uma “ONU por convite”</h2>
<p>Geopoliticamente, essa arquitetura funciona como instrumento para converter o peso militar e financeiro dos Estados Unidos em autoridade reguladora sobre conflitos globais, uma espécie de “ONU por convite” em que a entrada do <a href="https://quincyinst.org/research/winning-the-majority-a-new-u-s-bargain-with-the-global-south/">Sul Global</a> depende da aceitabilidade política perante Washington. Se trata do <a href="https://www.washingtoninstitute.org/policy-analysis/minilateralism-concept-changing-world-order">“minilateralismo”</a>.</p>
<p>Essa nova entidade colide com pelo menos três pilares do direito internacional contemporâneo. Em primeiro lugar, substitui a regra <a href="https://www.un.org/en/about-us/un-charter/chapter-4">“um Estado, um voto”</a>, estruturante na <a href="https://www.refworld.org/document-sources/un-general-assembly">Assembleia Geral da ONU</a> e em muitas organizações regionais, por uma lógica de patronagem pessoal, na qual um único ator concentra a capacidade de definir quem se senta à mesa e sobre o quê se delibera. </p>
<h2>Governança global se aproxima de um clube acionário</h2>
<p>Em segundo lugar, transforma lugares permanentes em bens escassos adquiridos mediante <a href="https://edition.cnn.com/2026/01/18/politics/board-of-peace-gaza-trump-payment-membership">contribuições financeiras elevadas</a> (US$ 1 bilhão para ocupar um lugar permanente), aproximando a governança global de um <a href="https://www.aljazeera.com/opinions/2026/1/27/trumps-board-of-peace-puts-rights-abusers-in-charge-of-global-order">clube acionário</a>, e não de uma comunidade política fundada em <a href="https://www.eda.admin.ch/dam/mission-new-york/en/documents/UN_GA__Final.pdf">igualdade soberana</a>. </p>
<p>Em terceiro lugar, ao reivindicar <a href="https://www.newarab.com/analysis/gaza-post-un-experiment-inside-trumps-board-peace">mandato para atuar para além de Gaza</a> sem respaldo do Conselho de Segurança, o Conselho opera num espaço cinzento em relação à Carta da ONU, invocando eficiência e rapidez em detrimento da legalidade formal e do controle difuso sobre o <a href="https://kups.ub.uni-koeln.de/10875/1/Pobjie_PhD_KUPS.pdf">uso da força</a>.</p>
<h2>Países do Mercosul respondem conforme suas ambições geopolíticas</h2>
<p>As respostas dos <a href="https://www.riotimesonline.com/brazil-holds-back-as-paraguay-and-argentina-join-trumps-peace-council/">países do Mercosul</a> revelam leituras muito diferentes sobre essa combinação de desenho institucional e ambição geopolítica. <a href="https://time.com/7357067/trump-gaza-board-of-peace-members-davos/">Argentina</a> e <a href="https://asunciontimes.com/paraguay-news/international-news/paraguay-becomes-founding-member-of-the-board-of-peace-at-davos-summit/">Paraguai</a> optam por interpretar o <a href="https://www.cbc.ca/news/world/board-of-peace-gaza-trump-list-of-countries-9.7055866">Conselho</a> como mecanismo legítimo de “complementação” da <a href="https://www.cbc.ca/news/world/trump-board-of-peace-united-nations-9.7058836">ONU</a>, argumentando que os bloqueios entre <a href="https://foreignpolicy.com/2026/01/27/trump-board-peace-strong-countries-dominate-weak-israel-gaza/">grandes potências</a> exigem novas ferramentas para lidar com <a href="https://www.newarab.com/analysis/gaza-post-un-experiment-inside-trumps-board-peace">crises humanitárias</a> e <a href="https://www.eeas.europa.eu/eeas/venezuela-statement-high-representative-aftermath-us-intervention-venezuela_en">regimes autoritários</a>, da <a href="https://www.aljazeera.com/news/2026/1/23/imperial-agenda-whats-trumps-gaza-development-plan-unveiled-in-davos">Faixa de Gaza</a> à Venezuela. </p>
<p>Ao aceitarem o desenho assimétrico da Carta, relativizam na prática o princípio da <a href="https://legal.un.org/repertory/art2/english/rep_supp7_vol1_art2_4.pdf">igualdade soberana</a> em nome de valores como defesa da <a href="https://www.batimes.com.ar/news/argentina/trump-invites-argentina-and-milei-to-join-board-of-peace.phtml">democracia</a> e <a href="https://warroom.armywarcollege.edu/articles/un-article-2-4/">combate ao terrorismo</a>, valores que passam a ser operacionalizados a partir de um foro liderado pelos Estados Unidos. É uma escolha que privilegia acesso a alianças, cooperação em segurança e capital político junto à <a href="https://www.cnbc.com/2026/01/22/who-is-on-trumps-gaza-board-of-peace.html">Casa Branca</a>, mesmo ao custo de legitimar um <a href="https://www.aljazeera.com/opinions/2026/1/27/trumps-board-of-peace-puts-rights-abusers-in-charge-of-global-order">órgão pouco plural</a> na origem e na composição.</p>
<p>O Brasil segue caminho oposto. As condições colocadas por Lula na <a href="https://punchng.com/limit-peace-board-to-gaza-lula-sets-conditions-for-joining-trump/">conversa com Trump</a> – limitação estrita do <a href="https://english.aawsat.com/world/5234157-lula-trump-discuss-board-peace-agree-meet-washington">mandato ao dossiê Gaza</a>, assento permanente para a <a href="https://en.royanews.tv/news/67110/Brazil%E2%80%99s-Lula-urges-Trump-to-focus-Peace-Council-on-Gaza%2C-guarantee-a-seat-for-Palestine">Palestina</a> e avanço paralelo de <a href="https://www.brasildefato.com.br/2025/09/29/russia-backs-brazil-for-permanent-un-security-council-seat/">reformas no Conselho de Segurança</a> – buscam reconduzir a iniciativa a parâmetros mínimos de representação e equilíbrio de poder. </p>
<p>Ao insistir que qualquer participação exija voz efetiva das partes diretamente afetadas e algum tipo de subordinação à <a href="https://britainpalestineproject.org/trumps-new-board-of-peace-plan-challenges-un-peace-roles-well-beyond-gaza/">ordem jurídica já existente</a>, Brasília afirma que a eficácia na gestão de crises não justificaria concentrar autoridade em <a href="https://www.democracywithoutborders.org/40334/trumps-board-of-peace-draws-criticism-not-a-viable-model/">estruturas personalizadas e financeiramente exclusivas</a>. </p>
<h2>Brasil teme enfraquecimento da ONU</h2>
<p>A mensagem é que o Brasil não se opõe a inovações institucionais, mas rejeita aquelas que, sob o pretexto de superar a <a href="https://britainpalestineproject.org/trumps-new-board-of-peace-plan-challenges-un-peace-roles-well-beyond-gaza/">paralisia da ONU</a>, acabam por enfraquecer o único <a href="https://academic.oup.com/isagsq/article/5/3/ksaf072/8250827?login=false">foro universal onde o país disputa assento permanente</a>.</p>
<p><a href="https://policy.trade.ec.europa.eu/eu-trade-relationships-country-and-region/countries-and-regions/uruguay_en">Uruguai</a> e <a href="https://www.riotimesonline.com/mercosur-growth-bolivia-added-as-fifth-member/">Bolívia</a>, embora menos vocais, também contribuem para o quadro. <a href="https://www.uruguayxxi.gub.uy/en/news/article/mercosur-y-union-europea-firmaron-acuerdo-de-libre-comercio-que-potenciara-la-proyeccion-internacional-de-uruguay/">Montevidéu</a> evita aderir e evita condenar, preservando a capacidade de exigir, no futuro, salvaguardas de transparência, cláusulas de participação regional ou filtros jurídicos antes de aceitar qualquer envolvimento. </p>
<p>La Paz, concentrada na sua <a href="https://www.chinadailyhk.com/hk/article/364056">adesão plena ao Mercosul</a>, mantém foco na integração sul‑americana e não sinaliza interesse em <a href="https://www.latimes.com/world-nation/story/2026-01-21/list-of-countries-joining-trumps-board-of-peace-those-not-joining-those-not-committed">mecanismos paralelos</a> liderados por <a href="https://thefederal.com/category/international/eu-mercosur-trade-deal-trump-tariffs-global-trade-225908">potências extrarregionais</a>. </p>
<p>Em ambos os casos, há uma preocupação em não legitimar, por entusiasmo prematuro, estruturas que possam ser acionadas seletivamente em disputas internas ao subcontinente.</p>
<h2>Um atalho para influência, proteção e investimentos</h2>
<p>Olhar para o outro lado – o da distribuição de poder – ajuda a entender por que essas escolhas jurídicas importam tanto. O Conselho da Paz surge num cenário de <a href="https://feps-europe.eu/wp-content/uploads/2021/01/Reforming-Multilateralism-in-Post-COVID-times-.pdf">multipolaridade cada vez mais competitiva</a>, em que os <a href="https://peacekeeping.un.org/sites/default/files/the_future_of_peacekeeping_new_models_and_related_capabilities_-_nov1.pdf">arranjos tradicionais (ONU, OSCE, mesmo OEA)</a> enfrentam bloqueios e crises de confiança. A <a href="https://www.riotimesonline.com/brazil-holds-back-as-paraguay-and-argentina-join-trumps-peace-council/">adesão imediata de Buenos Aires e Assunção</a> insere‑se numa estratégia de <a href="https://foreignpolicy.com/2026/01/27/trump-board-peace-strong-countries-dominate-weak-israel-gaza/">reancoragem junto aos Estados Unidos</a>: em face da <a href="https://www.giga-hamburg.de/en/publications/giga-focus/china-is-challenging-but-still-not-displacing-europe-in-latin-america">presença chinesa</a> e da incerteza europeia, estar no “círculo íntimo” de um órgão criado e presidido por Trump é visto como atalho para influência, proteção e investimentos. </p>
<p>Isso ocorre justamente quando o <a href="https://apnews.com/article/argentina-mercosur-european-union-trade-lula-milei-trump-china-c61f55cd655fd8695f3edcd6ee5a5b9e">acordo Mercosul‑União Europeia</a>, assinado em Assunção, ainda percorre o <a href="https://www.hortidaily.com/article/9803598/eu-mercosur-trade-agreement-faces-fresh-delay-after-european-parliament-vote/">tortuoso caminho das ratificações</a>, o que torna atrativas alianças capazes de produzir ganhos mais tangíveis no curto prazo.</p>
<p>O Brasil, ao privilegiar a triangulação com a <a href="https://www.chinadailyhk.com/hk/article/627270">União Europeia</a> e fóruns como <a href="https://www.ipea.gov.br/revistas/index.php/rtm/article/download/695/495/2780">BRICS</a> e <a href="https://www.belfercenter.org/research-analysis/multi-alignment-strategy-how-brazil-navigates-between-washington-beijing-and">G20</a>, tenta construir uma <a href="https://www.chathamhouse.org/2025/03/competing-visions-international-order/06-brazil-sees-opportunity-multipolar-order">via intermediária entre alinhamentos exclusivos com Washington ou com Pequim</a>. </p>
<h2>Brasil busca uma “multipolaridade regrada”</h2>
<p>Ao defender simultaneamente o <a href="https://www.chinadailyhk.com/hk/article/627270">acordo Mercosul‑UE</a> e a <a href="https://carnegieendowment.org/research/2023/12/brazil-in-the-emerging-world-order">centralidade da ONU</a>, o país procura uma <a href="https://ecfr.eu/publication/brazil-europes-bridge-to-the-global-south/">multipolaridade “regrada”</a>, em que normas compartilhadas funcionem como travas à imposição unilateral de soluções por qualquer grande potência. </p>
<p>Nessa lógica, aceitar o Conselho sem mudanças profundas seria institucionalizar uma estrutura que, por desenho, fixa o desequilíbrio a favor dos Estados Unidos e reduz o espaço de manobra de potências médias que aspiram a papel de articuladoras entre blocos. A recusa é, portanto, tanto uma proteção do acervo jurídico existente quanto uma aposta na própria capacidade de influenciar a reconfiguração da ordem.</p>
<p>Para o Uruguai, a chegada do Conselho abre uma margem de manobra delicada. O país ganha com a <a href="https://www.uruguayxxi.gub.uy/en/news/article/mercosur-y-union-europea-firmaron-acuerdo-de-libre-comercio-que-potenciara-la-proyeccion-internacional-de-uruguay/">imagem de ator flexível</a>, capaz de <a href="https://canalsolar.com.br/en/Uruguay-Mercosur-EU-China/">negociar com UE, China e Estados Unidos</a> sem se deixar capturar por nenhum eixo em particular, o que combina com sua <a href="https://collections.fes.de/publikationen/ident/fes/22347">estratégia de diversificação comercial extra‑Mercosul</a>. </p>
<p>Ao <a href="https://www.latimes.com/world-nation/story/2026-01-21/list-of-countries-joining-trumps-board-of-peace-those-not-joining-those-not-committed">não se comprometer com a nova entidade</a>, Montevidéu mantém a opção de, se necessário, aproximar‑se de Washington no futuro ou, ao contrário, alinhar‑se mais estreitamente à posição brasileira, caso o Conselho se torne politicamente tóxico junto a parceiros europeus e asiáticos. Ao mesmo tempo, corre o risco de ver o bloco deslizar para um <a href="https://www.cidob.org/en/publications/differentiated-integration-mercosur-risks-and-opportunities-association-european-union">modelo de “integração a várias velocidades”</a>, com <a href="https://www.aa.com.tr/en/world/factbox-26-countries-named-as-founding-members-of-trump-s-board-of-peace-/3813131">Argentina e Paraguai orbitando Washington via Conselho</a>, o <a href="https://www.realinstitutoelcano.org/en/work-document/latin-american-integration-and-mercosur-in-a-world-of-multiple-options-that-are-not-mutually-exclusive/">Brasil orbitando Bruxelas e coalizões ONU‑cêntricas</a>, e o Uruguai preso à necessidade de escolhas cada vez mais custosas.</p>
<p>A sobreposição temporal entre a <a href="https://theconversation.com/donald-trumps-board-of-peace-looks-like-a-privatised-un-with-one-shareholder-the-us-president-273856">fundação do Conselho</a> e a assinatura do acordo Mercosul‑UE é o ponto em que as duas dimensões – a dos princípios e a da força – se entrelaçam de forma mais nítida. </p>
<p>Enquanto Trump propõe um conselho de paz fortemente hierarquizado e financeiramente excludente, a <a href="https://ersj.eu/journal/3978/download/The+EU+-+Mercosur+Agreement+in+Agriculture+Opportunities+and+Threats+for+European+Producers+and+Farmers.pdf">União Europeia oferece um grande acordo comercial baseado em regras, tribunais arbitrais e compromissos de longo prazo</a>, ainda que permeado por <a href="https://www.foodwatch.org/en/eu-mercosur-trade-first-standards-later">tensões sobre meio ambiente, agricultura e cláusulas de salvaguarda</a>. </p>
<p>Ao aderirem ao Conselho, <a href="https://www.riotimesonline.com/brazil-holds-back-as-paraguay-and-argentina-join-trumps-peace-council/">Argentina e Paraguai sinalizam que estão dispostos a tolerar assimetrias elevadas em troca de acesso privilegiado ao centro de decisão norte‑americano</a>; ao resistir, o <a href="https://www.ir-ia.com/news/china-and-brazil-underscore-global-south-support-for-un-as-xi-and-lula-hold-phone-talks/">Brasil indica que prefere reforçar a teia de instituições existentes</a>, mesmo que mais lentas e imperfeitas, a legitimar um atalho que concentre ainda mais poder numa única capital.</p>
<p>Até agora nada disso está decidido de forma definitiva. O <a href="https://www.steptoe.com/en/news-publications/stepwise-risk-outlook/the-newly-established-board-of-peace-will-it-work-on-the-ground.html">Conselho ainda está em fase de consolidação</a>, o <a href="https://www.euronews.com/my-europe/2026/01/21/european-parliament-freezes-mercosur-deal-referring-it-to-eu-court-of-justice">acordo Mercosul‑UE pode enfrentar vetos em Parlamentos europeus</a> e o <a href="https://www.jurist.org/commentary/2024/10/the-un-security-council-conundrum-reforming-a-flawed-but-vital-multilateral-institution/">debate sobre a reforma do Conselho de Segurança permanece travado</a>. Mas as escolhas feitas por Argentina, Paraguai, Brasil e Uruguai já antecipam dois caminhos distintos para a região: um em que a <a href="https://www.aljazeera.com/news/2026/1/18/trumps-board-of-peace-appears-to-seek-wider-mandate-beyond-gaza">promessa de eficácia e de proximidade com a potência hegemônica</a> justifica aceitar instituições fortemente assimétricas; outro em que a <a href="https://www.belfercenter.org/research-analysis/multi-alignment-strategy-how-brazil-navigates-between-washington-beijing-and">defesa da igualdade entre Estados e de mecanismos mais inclusivos de decisão</a> leva a preferir reformas lentas, porém enraizadas no sistema existente. Entre esses dois caminhos, o Mercosul está sendo obrigado a decidir em <a href="https://lens.civicus.org/un-security-council-reform-or-irrelevance/">que tipo de ordem internacional deseja viver</a>.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/274722/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.</span></em></p>Para o Brasil, aceitar o Conselho proposto por Trump seria institucionalizar uma estrutura que fixa o desequilíbrio a favor dos EUA e reduz o espaço de manobra de potências médias que aspiram a papel de articuladoras entre blocosArmando Alvares Garcia Júnior, Profesor de Derecho Internacional y de Relaciones Internacionales, UNIR - Universidad Internacional de La Rioja Licensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2747112026-01-29T17:41:07Z2026-01-29T17:41:07ZCaso Orelha: agressões a animais podem ser sinal de alerta para situações de violência doméstica e social<figure><img src="https://images.theconversation.com/files/715306/original/file-20260129-76-rpffi9.png?ixlib=rb-4.1.0&rect=158%2C0%2C1655%2C1103&q=45&auto=format&w=1050&h=700&fit=crop" /><figcaption><span class="caption">O cachorro Orelha, morto em razão de violência e tortura aplicada por quatro adolescentes: caso chocou opinião pública e intriga especialistas.</span> <span class="attribution"><span class="source">Imagem: Polícia Civil de Santa Catarina</span></span></figcaption></figure><p><a href="https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2026/01/28/justica-redes-sociais-excluam-conteudos-adolescentes-suspeitos-cao-orelha.ghtml">O terrível caso do espancamento e morte do cão comunitário Orelha</a> chocou o país e ganhou repercussão internacional. Por mais de dez anos, Orelha interagiu e era espontaneamente cuidado por moradores e frequentadores da Praia Brava, em Florianópolis, Santa Catarina. Orelha precisou ser eutanasiado em consequência da gravidade dos ferimentos que sofreu. De acordo com investigações ainda em andamento, quatro adolescentes estariam envolvidos neste ato de violência brutal.</p>
<p>Sem entrar em detalhes sobre as especificidades deste ato cruel em particular, a comunidade de amantes e protetores de animas se pergunta: afinal, o que leva alguém a agredir um ser dócil, sociável, que não representava ameaça, que simplesmente existia e circulava pela cidade?</p>
<hr>
<p>
<em>
<strong>
Leia mais:
<a href="https://theconversation.com/o-caso-do-cao-orelha-o-sofrimento-coletivo-e-o-lugar-do-autocuidado-em-tempos-de-comocao-social-274786">O caso do cão Orelha, o sofrimento coletivo e o lugar do autocuidado em tempos de comoção social</a>
</strong>
</em>
</p>
<hr>
<p>Como uma pesquisadora que vem estudando o vínculo entre humanos e animais por mais de uma década, casos como esse sempre me fazem parar e refletir. Não apenas no ato em si, mas também sobre o que nossa reação coletiva revela sobre empatia e o lugar que os animais ocupam nas nossas vidas. Também me fazem pensar nas conexões que existem entre violência contra animais e a violência contra pessoas, as quais já são amplamente documentadas na literatura.</p>
<h2>Associações entre violência contra animais e outras formas de violência</h2>
<p>Um número expressivo de <a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29333948/">pesquisas</a> sugere que é importante ficar atento diante de casos de agressão contra animais pois eles podem sinalizar a presença de <a href="https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/car.878">outras formas de violência</a>, incluindo violência interpessoal e doméstica. Por exemplo, muitas mulheres e crianças que são vítimas de violência relatam que o animal de estimação da família também sofre agressões ou é usado para <a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29333948/">coagir e ameaçar</a> as vítimas envolvidas nesses episódios.</p>
<p>Um grupo internacional de pesquisa e prática chamado <a href="https://nationallinkcoalition.org/">National Link Coalition</a> trabalha justamente essa conexão entre violência contra animais e violência interpessoal. Ele envolve profissionais que trabalham com saúde animal e humana, e argumenta que precisamos de uma maior articulação entre os profissionais que atuam no cuidado com animais e os que estudam e previnem a violência humana. </p>
<p>Visto por essa lente, quando profissionais como psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e veterinários atuam juntos é possível intervir precocemente e prevenir ou mitigar o impacto de diversas formas de violência.</p>
<p>Nesse cenário, se um veterinário percebe que um animal apresenta sinais de ter sido agredido, o caso seria notificado. E possivelmente outros profissionais - como assistentes sociais - poderiam ser acionados para garantir que outras formas de violência na casa possam ser identificadas e prevenidas, caso necessário. Sem uma integração entre esses profissionais, no entanto, essa prevenção torna-se impossível.</p>
<h2>A violência contra animais é um fenômeno complexo e multifacetado</h2>
<p>A <a href="https://digscholarship.unco.edu/theses/276/">literatura</a> também chama a atenção para uma possível associação entre traços de psicopatia e comportamentos como machucar ou torturar animais como cães e gatos. No entanto, isso não é determinístico. Portanto, não se pode dizer que todo individuo envolvido em violência contra animais apresenta traços de psicopatia.</p>
<p>A violência contra animais é um fenômeno <a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7683760/">complexo e multifacetado</a>, atravessado por diversos fatores. Embora <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S135917890800058X?via%3Dihub">limitações empáticas</a> seja um dos fatores, este não é o único. Experiências de vida iniciais relacionadas a animais de estimação, contextos sociais e culturais mais amplos que <a href="https://link.springer.com/article/10.1007/s40653-017-0176-6">normalizam e legitimam</a> prejudicar animais, e processos de normalização da violência, entre outros, contribuem para a ocorrência dessas situações.</p>
<p>Quanto há <a href="https://link.springer.com/article/10.1007/s40653-017-0176-6">exposição à violência</a> contra animais durante a infância ou adolescência há maior probabilidade de comportamentos prejudiciais contra animais ou violência interpessoal na vida adulta. Além disso, <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0145213419303436?via%3Dihub">sintomas</a> como ansiedade e depressão podem se manifestar naqueles expostos a tais formas de violência.</p>
<p>Quando o indivíduo que prejudica o animal tem um significado emocional na vida de uma criança ou adolescente, testemunhar esses episódios de violência pode adquirir um <a href="https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0886260508319362">impacto emocional maior</a>, moldando como as normas relacionais e comportamentais são internalizadas.</p>
<p>Assim, a <a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7683760/">exposição ao maus-tratos</a> de animais nos primeiros anos de vida pode aumentar a probabilidade do individuo normalizar esses comportamentos e internalizar os padrões emocionais subjacentes à situação (por exemplo, raiva, medo, insegurança). Quando isso acontece, os indivíduos envolvidos na agressão geralmente mostram pouca percepção das consequências de suas ações.</p>
<p>Outros autores enfatizam que a violência contra os animais também pode ser entendida como um <a href="https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.2752/175303713X13697429463952">comportamento social e relacional</a>. Com essa perspectiva, esses comportamentos são normalizados ao longo do tempo em práticas de violência não apenas contra animais, mas também contra grupos humanos marginalizados. Em outras palavras, essas práticas não são meros atos individuais. Na verdade, refletem dinâmicas socio-relacionais mais amplas de dominação.</p>
<h2>Por que nos indignamos tanto?</h2>
<p>Os animais, principalmente animais domésticos, tendem a ativar <a href="https://www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2023.1124162/full">reações empáticas</a> intensas. Isso se deve parcialmente a percepção de que são seres vulneráveis com os quais compartilhamos várias características. Muitas pessoas reconhecem a capacidade de sentir e pensar dos animais, aumentando a sensação de conexão emocional e empatia. Esse reconhecimento intensifica reações empáticas e o desejo de protegê-los.</p>
<p>Além disso, para um número crescente de pessoas, longe de serem simples animais, estamos falando de membros da família. Um <a href="https://www.pewresearch.org/short-reads/2023/07/07/about-half-us-of-pet-owners-say-their-pets-are-as-much-a-part-of-their-family-as-a-human-member/">levantamento</a> recente com tutores nos Estados Unidos revelou que para 97% deles os pets são membros da família. Esses números são semelhantes em outras partes do mundo. Nesse cenário, uma hipótese é que atos de crueldade contra um animal doméstico possivelmente ativam um senso de ameaça muito próximo.</p>
<p>É como se esse tipo de violência ativasse a percepção de que algo precioso e familiar foi brutalmente ferido ou destruído. Isso, na minha perspectiva, pode gerar uma percepção de ameaça a algo extremamente valioso em nossas vidas.</p>
<h2>Por que nossa indignação muitas vezes não vira ação?</h2>
<p>Por outro lado, vivemos em uma sociedade onde relações entre humanos são privilegiadas e em muitos lugares do mundo os animais domésticos ainda são <a href="https://leoh.ch/article/view/4295/3113#:%7E:text=Article%20515%2D14%20Code%20Civil:%20Animals%20are%20sentient,subject%20to%20the%20scope%20of%20property%20law.">vistos como posse</a>. Além disso, existe uma distância entre indignação e ações coletivas organizadas. Às vezes, até existem ações, mas elas são isoladas ou envolvem disputas de poder.</p>
<p>O resultado é que na maioria dessas situações o sentimento de revolta não se transforma em movimentos efetivos que contribuam para mudanças estruturais.</p>
<p>Além disso, para algumas pessoas, esses casos são tão chocantes que até ler sobre o assunto é um gatilho muito forte. Portanto, passa a ser um tópico evitado, não por frieza emocional, mas pela dificuldade de lidar com a dor de olhar para esses casos de perto.</p>
<p>Somado a isso, mudanças estruturais levam tempo mesmo com pressão social. Particularmente quando existem obstáculos práticos, como falta de perícia veterinária acessível e padronizada. Assim, infelizmente, em muitos desses casos a indignação não se transforma em mudanças significativas.</p>
<h2>Do impacto à ação</h2>
<p>Várias pesquisas, como destacado acima, mostram uma ligação forte entre abuso animal e outras formas de violência. Embora esse seja um argumento importante para revermos a forma como lidamos institucionalmente com casos de violência animal, esse não é o único motivo para a mobilização. Independente de como esse tipo de violência nos atinja diretamente, <a href="https://ijirt.org/publishedpaper/IJIRT170483_PAPER.pdf">o animal merece proteção por si mesmo</a>.</p>
<p>Que mais que uma indignação momentânea, a morte brutal de Orelha seja uma alerta que se traduza em mudanças concretas na legislação de proteção aos animais, na atuação coordenada de profissionais da saúde humana e animal e na forma como os animais são percebidos na nossa sociedade.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/274711/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Renata Roma não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.</span></em></p>O que leva alguém a agredir um ser dócil, sociável, que não representava ameaça, e que simplesmente existia? Grupos interdisciplinares de pesquisa estudam conexão entre casos de violência contra animais e com agressões domésticas e interpessoaisRenata Roma, Research Associate - Pawsitive Connections Lab, University of SaskatchewanLicensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2742672026-01-29T13:49:04Z2026-01-29T13:49:04ZSol na pele, leveza na cabeça: o verão realmente melhora o humor?<figure><img src="https://images.theconversation.com/files/714223/original/file-20260123-56-k8yobg.jpg?ixlib=rb-4.1.0&rect=0%2C0%2C5555%2C3703&q=45&auto=format&w=1050&h=700&fit=crop" /><figcaption><span class="caption">Estudos indicam que maior exposição à luz solar está associada a sensação geral de bem-estar. O efeito não é gigantesco, mas é estatisticamente confiável e clinicamente relevante.</span> <span class="attribution"><span class="source">Foto: Freepik</span>, <a class="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/">CC BY</a></span></figcaption></figure><p>Basta um primeiro dia realmente ensolarado depois de umas semanas de chuva para algo curioso acontecer. A rua enche mais cedo, o humor parece menos pesado e até o “bom dia” do elevador vem com um meio sorriso. Não é milagre, não é positividade tóxica. Há quem acorde mais disposto, tope sair mais de casa, pareça menos ranzinza e, curiosamente, passe a acreditar que a vida é um pouco mais simples quando o dia está banhado de sol. Mas será que isso é só impressão, efeito placebo coletivo ou existe ciência por trás dessa sensação?</p>
<p>A resposta curta é: existe ciência, sim. A resposta honesta é: depende. Tem corpo, cérebro e contexto trabalhando juntos.</p>
<p>Todo mundo conhece alguém que “funciona melhor” no verão (talvez você seja essa pessoa!). A Psicologia Positiva e a Neurociência vêm mostrando, de forma consistente, que <a href="https://www.mdpi.com/2673-5318/3/1/8">a luz natural exerce um impacto real sobre o humor e o bem-estar emocional</a>. Estudos indicam que maior exposição à luz (especialmente à luz solar) está associada a níveis mais altos de afeto positivo, satisfação com a vida e sensação geral de bem-estar. O <a href="https://doi.org/10.1080/19485565.2025.2487977">efeito não é gigantesco</a> nem transforma ninguém em uma pessoa permanentemente feliz, mas é estatisticamente confiável e clinicamente relevante.</p>
<p>Isso acontece porque o sol não age apenas no plano simbólico, mas atua diretamente em mecanismos fisiológicos ligados à regulação emocional. Uma <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0165032721008612?via%3Dihub">pesquisa feita com 400 mil britânicos mostrou</a> que exposição à luz ajuda a equilibrar o nosso relógio biológico, melhora a qualidade do sono e favorece a liberação de neurotransmissores associados ao humor, como a <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Serotonina">serotonina</a>. Dormir melhor, acordar com mais energia e sentir o corpo funcionando de forma mais alinhada já é, por si só, um empurrão importante para o bem-estar psicológico.</p>
<p>O verão não melhora o humor apenas porque nos oferecemais sol, mas também porque ele muda a forma como vivemos. Os dias ficam mais longos, a vida acontece mais fora de casa, o contato social aumenta, as pessoas caminham mais, se movimentam mais, frequentam espaços abertos, conhecem novos lugares. <a href="https://doi.org/10.1016/j.jpsychires.2024.03.053">Todas essas experiências são, individualmente, associadas a melhor saúde mental</a>. Quando elas se combinam, o efeito se soma.</p>
<p>A Psicologia Positiva chama atenção para algo que não podemos tirar da equação: o bem-estar não nasce só dentro da cabeça, ele é construído na ligaçãoentre corpo, ambiente e relações. O verão cria um cenário mais favorável para essas interações. Não porque ele seja mágico, mas porque facilita comportamentos que já sabemos que fazem bem.</p>
<h2>O verão também pode ser um transtorno</h2>
<p>Isso não significa, porém, que o verão seja uma estação universalmente benéfica. Nem todo mundo vive o verão com leveza. Para quem está sobrecarregado, ou em luto, ou com dificuldades financeiras ou emocionais, a estação não apaga automaticamente o sofrimento. E, para muitas pessoas, o <a href="https://doi.org/10.1016/j.jhealeco.2019.102240">calor excessivo gera irritação, perturbação do sono, fadiga, desconforto físico e até piora a saúde mental</a>. A situação é <a href="https://doi.org/10.1088/2515-7620/ada735">mais grave na terceira idade</a>. Ondas de calor afetam não só a saúde física de idosos, como aumentam situações de isolamento social, disfunção cognitiva e propensão a transtornos afetivos.</p>
<p>Além disso, eventos climáticos intensos são comuns nessa estação e <a href="https://doi.org/10.1080/09540261.2022.2128725">pesquisas mostram que eles afetam significativamente o bem-estar humano</a>. Embora esse impacto seja observado em diversos países, os efeitos <a href="https://doi.org/10.3389/fpsyt.2020.00074">são mais graves em populacões que vivem em lugares mais afetados e que estão mais vulneráveis</a> pela falta de acesso a recursos, informações e proteção.Para muita gente, o verão é um amplificador de riscos como calor extremo, incêndios, chuvas torrenciais, inundações… dá pra entender que a estação do sol não seja uma unanimidade em avaliações positivas.</p>
<p>A ideia equivocada de que “todo mundo está feliz no verão” pode gerar comparação social e, consequentemente, a sensação de inadequação em quem não está vivendo esse roteiro ensolarado. Aí há um risco que precisa ser considerado: idealizar a estação como se o verão acontecesse exatamente como sugerem as propagandas ou os <em>feeds</em> das redes sociais amplifica as diferenças individuais e contextuais. A ciência mostra que contexto ajuda muito, mas não substitui processos emocionais e sociais mais profundos.</p>
<p>Então, afinal, quando o sol aparece, a cabeça agradece. Mentira ou Verdade?</p>
<p>Verdade com nuances. O verão tende, sim, a favorecer o humor e o bem-estar emocional porque combina mais luz natural, melhor regulação biológica e mais oportunidades de conexão social e movimento – para quem pode/consegue usufruir disso. Mas ele não é uma solução psicológica pronta, nem um antídoto contra tristeza, ansiedade ou sofrimento de qualquer espécie.</p>
<p>O ponto mais interessante que o verão nos lembra é que o bem-estar não depende apenas do que sentimos, mas também de como vivemos, com quem convivemos e em que ambientes colocamos o nosso corpo e a nossa atenção. E isso, com ou sem sol, é algo que dá para levar para o ano inteiro.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/274267/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Sibele Dias de Aquino é bolsista de pós-doutorado nota 10 da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro).</span></em></p>Estudos indicam que a exposição à luz solar está associada ao bem-estar, mas também apontam riscos para populações mais vulneráveis a eventos climáticos intensosSibele Dias de Aquino, Pesquisadora pós-doutoranda em Psicologia Social, PUC-Rio; Faculdade Presbiteriana Mackenzie RioLicensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2742422026-01-28T14:41:16Z2026-01-28T14:41:16ZCiência na Amazônia: apesar do potencial imenso, desigualdade de recursos persiste<p>A Amazônia ocupa um lugar paradoxal na ciência brasileira. Apesar de <a href="https://www.science.org/doi/10.1126/science.abl4881">concentrar alguns dos maiores desafios socioambientais do século 21</a> — como desmatamento, mudanças climáticas, insegurança alimentar, conflitos territoriais e perda acelerada da biodiversidade —, a Amazônia continua recebendo uma <a href="https://ad5cncti.cgee.org.br/documents/165901/355373/livro-violeta_5CNCTI.pdf">fração desproporcionalmente pequena dos recursos destinados à ciência e tecnologia no Brasil</a>. </p>
<p>Essa assimetria histórica limita não apenas a capacidade científica regional, mas também a efetividade das políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável da região.</p>
<p>Recentemente, observou-se um novo exemplo dessa desigualdade estrutural. Em uma chamada suplementada do CNPq voltada à ampliação de bolsas de pós-doutorado no país, menos de 4% das bolsas foram destinadas à região Norte. O número contrasta com a importância da Amazônia, que representa mais da metade do território nacional, <a href="https://amazonialegalemdados.info/dashboard/perfil.php?regiao=Amaz%C3%B4nia%20Legal&area=Economia__78&indicador=TX_IBGE_PIB_CONSTANTE_UF__78&primeiro">contribui com 9,6% do PIB total do país</a> (2022) e concentra uma parte expressiva das agendas científicas e das estratégias do país. </p>
<p>Essa <a href="https://portal.sbpcnet.org.br/noticias/cti-na-amazonia-a-distancia-entre-discurso-e-pratica/">distribuição desigual de recursos</a> define, dentre outras coisas, onde jovens doutores conseguirão permanecer, onde grupos conseguirão se consolidar e em quais regiões as redes científicas ganharão maior densidade. </p>
<p>Essa lógica reforça um padrão conhecido: a Amazônia segue amplamente estudada, mas raramente decide os rumos da ciência que se faz sobre ela. Os principais centros de decisão permanecem concentrados em <a href="https://eng-ar25.sp-amazon.org/251111_AR2025%20Chapter%208%20&%20CTAs_ENG.pdf">outras regiões do país ou no exterior</a>, o que fragmenta os esforços científicos e dificulta a transformação do conhecimento produzido localmente em benefícios diretos para as populações amazônicas e para a conservação do bioma. Ainda assim, <a href="https://portal.sbpcnet.org.br/noticias/cti-na-amazonia-a-distancia-entre-discurso-e-pratica/">são as instituições amazônicas que sustentam parte relevante dessa produção</a>, mesmo operando com menos recursos e maior instabilidade.</p>
<h2>A potência da Amazônia em rede</h2>
<p>Apesar dessas desigualdades, experiências recentes mostram que, quando há financiamento estável e um desenho institucional adequado, a ciência produzida na Amazônia pode alcançar alto impacto. Programas estruturados em rede, como os <a href="http://inct.cnpq.br/">Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia</a> (INCTs), reúnem pesquisadores e instituições em torno de problemas comuns, compartilhando dados, infraestrutura e conhecimento. Em regiões como a Amazônia, esse modelo é estratégico porque permite otimizar recursos escassos, reduzir desigualdades internas e ampliar o alcance da ciência produzida localmente.</p>
<p>Em Manaus, o <a href="https://leem.net.br/projetos/adapta-ii/">INCT-Adapta</a>, dedicado ao estudo da adaptação da biota aquática amazônica às mudanças climáticas, mostra que redes científicas sediadas na Amazônia são capazes de atuar na fronteira do conhecimento. Entre 2017 e 2024, o instituto acumulou mais de 700 publicações, com ampla circulação internacional e inserção em redes globais de citação, ao mesmo tempo em que formou centenas de pesquisadores em diferentes níveis, da iniciação científica ao pós-doutorado.</p>
<p>A atuação do INCT-Adapta também evidencia a força temática da ciência amazônica. Pesquisas sobre mudanças climáticas, fisiologia de peixes, qualidade da água, pesca e aquicultura aparecem como núcleos de alta relevância científica, <a href="https://www.gov.br/inpa/pt-br/assuntos/noticias/inpa-inaugura-sistema-com-tecnologia-de-bioflocos-pioneiro-na-regiao-norte">conectando conhecimento básico a problemas enfrentados pelas populações da região</a>. Trata-se de ciência básica e aplicada, socialmente relevante e alinhada às grandes agendas globais.</p>
<p>Em Belém, outro exemplo relevante do potencial das redes científicas amazônicas é o INCT dedicado à Síntese da Biodiversidade Amazônica, o <a href="https://inct-sinbiam.org/">SynBiAm</a>, recentemente <a href="https://royalsocietypublishing.org/rspb/article/292/2059/20252069/356047/Collaborative-research-networks-as-a-strategy-to">analisado em artigo</a> publicado nos <em><a href="https://royalsocietypublishing.org/rspb">Proceedings of the Royal Society B</a></em>. A experiência do SynBiAm mostra que redes colaborativas, quando estruturadas de forma deliberada, podem funcionar como infraestruturas científicas voltadas não apenas à produção de novos dados, mas também à integração, curadoria e interpretação coletiva do conhecimento já existente.</p>
<p>O artigo destaca que o SynBiAm articula dezenas de instituições acadêmicas e não acadêmicas, combinando diferentes disciplinas, escalas de análise e contextos territoriais, com ênfase na formação de capacidades locais e na produção de conhecimento socialmente relevante. </p>
<p>Essas experiências deixam claro que o principal gargalo da ciência amazônica não é a ausência de competência, qualidade, relevância ou produtividade, mas a falta de políticas de fomento estáveis, proporcionais e de longo prazo.</p>
<h2>Expandir redes, formar pessoas e fixar ciência na Amazônia</h2>
<p>Expandir e fortalecer programas como os INCTs na Amazônia não significa apenas lançar novos editais. Exige reconhecer essas redes como infraestruturas estratégicas para formar pessoas, produzir conhecimento e fixar pesquisadores na região. Quando articuladas a bolsas de pós-doutorado e políticas de inovação, essas redes podem criar trajetórias científicas mais estáveis para jovens pesquisadores amazônicos.</p>
<p>Sem corrigir a concentração regional das bolsas e das oportunidades, a ciência amazônica continuará formando pesquisadores que acabam deixando a região. Isso enfraquece a capacidade local de inovação e de síntese de conhecimento.</p>
<p>A <a href="https://www.infomoney.com.br/politica/projeto-aumenta-parcela-de-recursos-do-fndct-destinada-as-regioes-norte-nordeste-e-centro-oeste/">regra atual</a> — que busca garantir que 30% dos recursos de alguns editais cheguem às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste — tem se mostrado insuficiente. Na prática, essa proporção não garante que os recursos cheguem à Amazônia de forma compatível com sua extensão territorial, sua população, sua contribuição ao conhecimento científico nacional e, sobretudo, com seu <a href="https://www.wribrasil.org.br/nova-economia-da-amazonia">papel estratégico para o futuro do país</a>.</p>
<p>Nesse contexto, <a href="https://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2024/08/Of.-SBPC-198-Mo%C3%A7%C3%A3o-Fortalecimento-da-pesquisa-na-Amaz%C3%B4nia-e-corre%C3%A7%C3%A3o-de-assimetrias-regionais-1.pdf">ganha relevância a moção</a> aprovada pela <a href="https://portal.sbpcnet.org.br/">Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência</a> (SBPC), durante sua reunião anual em Belém, que propõe a destinação de, no mínimo, 10% do orçamento nacional de ciência e tecnologia exclusivamente para a Amazônia. Trata-se de um marco político-científico que reconhece explicitamente o chamado “custo amazônico”, os maiores gastos logísticos, operacionais e humanos necessários para a realização de pesquisa de qualidade na região.</p>
<p>Além disso, é fundamental enfrentar a instabilidade crônica do financiamento científico. A cada ciclo de projetos, as instituições amazônicas precisam lidar com a incerteza quanto à continuidade de programas estruturantes. O caso do <a href="http://memoria2.cnpq.br/web/guest/apresentacao-ppbio/">Programa de Pesquisa em Biodiversidade</a> (PPBio) é emblemático: o atual ciclo se encerra em 2026, sem qualquer garantia de lançamento de um novo edital ou de manutenção do financiamento, o que coloca em risco décadas de construção de dados, formação de pessoas e monitoramento ambiental.</p>
<p>Diante desse quadro, a escolha é inequívoca: ou o país reconhece a ciência e, em particular, a ciência amazônica como infraestrutura estratégica de Estado, com financiamento estável, diferenciado e de longo prazo, ou seguirá reproduzindo um modelo que concentra capacidades, aprofunda desigualdades regionais e compromete sua própria capacidade de futuro. </p>
<p>Expandir redes, garantir bolsas, assegurar a continuidade de programas estruturantes e corrigir assimetrias não são concessões corporativas, mas decisões políticas que definem se o Brasil será capaz de produzir conhecimento onde seus maiores desafios se colocam. </p>
<p>Para um país historicamente marcado por assimetrias regionais e por ciclos curtos de financiamento científico, apostar na consolidação de redes como os INCTs na Amazônia é um projeto de futuro. Fortalecer a ciência amazônica significa fortalecer a capacidade do Brasil de responder aos desafios climáticos, ambientais e sociais do século 21, com ciência feita na Amazônia, por quem vive e trabalha nela.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/274242/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Leandro Juen tem bolsa de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), projetos de pesquisa financiados CNPq, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (FAPESPA) e pelo consórcio de Biodiversidade BRC.</span></em></p><p class="fine-print"><em><span>Susana Braz-Mota é membra afiliada à da Academia Brasileira de Ciências </span></em></p><p class="fine-print"><em><span>Adalberto Luis Val, Francisco Ribeiro da Costa e Tiago da Mota e Silva não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.</span></em></p>Apesar de representar mais da metade do território nacional, Amazônia recebe parcela desproporcionalmente pequena dos investimentos em ciência do paísAdalberto Luis Val, Coordenador do INCT ADAPTA e pesquisador, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)Francisco Ribeiro da Costa, Reitor, Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) Leandro Juen, Professor Associado III de Ciências Biológicas, Universidade Federal do Pará (UFPA)Susana Braz-Mota, Doutora em Biologia de Água Doce, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)Tiago da Mota e Silva, Doutor em Comunicação e Semiótica, bolsista CNPq no INCT-ADAPTA,, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)Licensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2745282026-01-28T10:46:10Z2026-01-28T10:46:10ZComo o vórtice polar e um oceano mais quente intensificaram a grande tempestade de inverno que atinge os EUA<figure><img src="https://images.theconversation.com/files/714781/original/file-20260124-56-hpv013.jpg?ixlib=rb-4.1.0&rect=1757%2C0%2C3965%2C2643&q=45&auto=format&w=1050&h=700&fit=crop" /><figcaption><span class="caption">Boston e grande parte dos Estados Unidos enfrentam uma forte onda de frio em janeiro de 2026: perturbações na corrente de jato atuaram em conjunto para criar condições favoráveis para tempestades e clima extremo </span> <span class="attribution"><a class="source" href="https://www.gettyimages.com/detail/news-photo/boston-ma-commuters-brace-against-the-morning-cold-on-news-photo/2256969833?adppopup=true">Craig F. Walker/The Boston Globe via Getty Images</a></span></figcaption></figure><p>Uma forte tempestade de inverno que trouxe <a href="https://bsky.app/profile/nws.noaa.gov/post/3md7cjvzq5f2o">chuva congelante, granizo e neve</a> a grande parte dos EUA no final de janeiro de 2026 provocou do Novo México à Nova Inglaterra. Centenas de milhares de pessoas ficaram sem energia elétrica em todo o sul do país, pois <a href="https://weather.com/news/weather/news/%202026-01-25-live-updates-january-25-winter-storm-fern">o gelo derrubou galhos de árvores e linhas de energia</a>, mais de 30 centímetros de neve <a href="https://www.weather.gov/source/crh/snowmap.html">caíram em partes do Centro-Oeste e Nordeste</a>, e muitos estados enfrentaram um frio intenso esperado para durar vários dias.</p>
<p>A repentina onda de frio pode ter sido um choque para muitos americanos após um <a href="https://theconversation.com/the-western-us-is-in-a-snow-drought-and-storms-have-been-making-it-worse-272549">início de inverno relativamente ameno</a>, mas esse clima mais quente pode ter contribuído em parte para a ferocidade da tempestade.</p>
<p>Como <a href="https://scholar.google.com/citations?user=kc2doosAAAAJ&hl=en">cientistas atmosféricos</a> e <a href="https://scholar.google.com/citations?%20user=qWV-WIQAAAAJ&hl=en">climáticos</a>, conduzimos pesquisas que visam melhorar a compreensão do clima extremo, incluindo o que torna sua ocorrência mais ou menos provável e como as mudanças climáticas podem ou não influenciar nisso.</p>
<p>Para entender o que os americanos estão enfrentando com esta onda de frio, precisamos olhar mais de 32 km acima da superfície da Terra, para o vórtice polar estratosférico.</p>
<figure class="align-center zoomable">
<a href="https://images.theconversation.com/files/714490/original/file-20260126-66-7z8fsr.png?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=1000&fit=clip"><img alt="Um globo mostrando o vórtice polar e a corrente de jato sobrepondo-se sobre a área atingida pela tempestade." src="https://images.theconversation.com/files/714490/original/file-20260126-66-7z8fsr.png?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&fit=clip" srcset="https://images.theconversation.com/files/714490/original/file-20260126-66-7z8fsr.png?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=600&h=591&fit=crop&dpr=1 600w, https://images.theconversation.com/files/714490/original/file-20260126-66-7z8fsr.png?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=600&h=591&fit=crop&dpr=2 1200w, https://images.theconversation.com/files/714490/original/file-20260126-66-7z8fsr.png?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=600&h=591&fit=crop&dpr=3 1800w, https://images.theconversation.com/files/714490/original/file-20260126-66-7z8fsr.png?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&h=743&fit=crop&dpr=1 754w, https://images.theconversation.com/files/714490/original/file-20260126-66-7z8fsr.png?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=754&h=743&fit=crop&dpr=2 1508w, https://images.theconversation.com/files/714490/original/file-20260126-66-7z8fsr.png?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=754&h=743&fit=crop&dpr=3 2262w" sizes="(min-width: 1466px) 754px, (max-width: 599px) 100vw, (min-width: 600px) 600px, 237px"></a>
<figcaption>
<span class="caption">Na manhã de 26 de janeiro de 2026, a linha de congelamento (mostrada em branco) se estendeu até o Texas. A faixa clara com setas indica a corrente de jato, e a faixa escura indica o vórtice polar estratosférico. A corrente de jato é vista a cerca de 5,6 quilômetros acima da superfície, uma altura típica para rastrear sistemas de tempestades. O vórtice polar está aproximadamente 32 quilômetros acima da superfície.</span>
<span class="attribution"><span class="source">Mathew Barlow</span>, <a class="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/">CC BY</a></span>
</figcaption>
</figure>
<h2>O que cria uma tempestade de inverno severa como essa?</h2>
<p>Vários fatores climáticos precisam se alinhar para produzir uma tempestade tão grande e severa.</p>
<p>Tempestades de inverno geralmente se desenvolvem onde há contrastes acentuados de temperatura perto da superfície e uma <a href="https://www.noaa.gov/jetstream/global/jet-stream">inclinação para o sul na corrente de jato</a>, a faixa estreita de ar em movimento rápido que direciona os sistemas climáticos. Se houver uma fonte substancial de umidade, as tempestades podem produzir chuva forte ou neve. </p>
<p>No final de janeiro, uma forte massa de ar do Ártico criava um contraste de temperatura com o ar mais quente ao sul. Várias perturbações na corrente de jato atuavam em conjunto para criar condições favoráveis à precipitação, e o sistema de tempestades foi capaz de <a href="https://s.yimg.com/ny/api/res/1.2/DIFG4P.m2dfKLvlCXPcS.%20A--/YXBwaWQ9aGlnaGxhbmRlcjt3PTEyNDI7aD02NzQ-/https://media.zenfs.com/%20en/aol_fox_weather_976/800e35006a051604981dc7910e23158f">puxar a umidade</a> do <a href="https://climatereanalyzer.org/clim/sst_daily/?dm_id=gomex">Golfo do México, que estava muito quente</a>.</p>
<figure class="align-center zoomable">
<a href="https://images.theconversation.com/files/714272/original/file-20260124-56-r82tqc.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=1000&fit=clip"><img alt="Um mapa de alertas de tempestade em 24 de janeiro de 2026." src="https://images.theconversation.com/files/714272/original/file-20260124-56-r82tqc.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&fit=clip" srcset="https://images.theconversation.com/files/714272/original/file-20260124-56-r82tqc.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=600&h=403&fit=crop&dpr=1 600w, https://images.theconversation.com/files/714272/original/file-20260124-56-r82tqc.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=600&h=403&fit=crop&dpr=2 1200w, https://images.theconversation.com/files/714272/original/file-20260124-56-r82tqc.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=600&h=403&fit=crop&dpr=3 1800w, https://images.theconversation.com/files/714272/original/file-20260124-56-r82tqc.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&h=507&fit=crop&dpr=1 754w, https://images.theconversation.com/files/714272/original/file-20260124-56-r82tqc.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=754&h=507&fit=crop&dpr=2 1508w, https://images.theconversation.com/files/714272/original/file-20260124-56-r82tqc.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=754&h=507&fit=crop&dpr=3 2262w" sizes="(min-width: 1466px) 754px, (max-width: 599px) 100vw, (min-width: 600px) 600px, 237px"></a>
<figcaption>
<span class="caption">O Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA emitiu alertas de tempestade severa (rosa) em 24 de janeiro de 2026 para uma grande faixa do país que poderia ter granizo e neve forte nos dias seguintes, juntamente com alertas de tempestade de gelo (roxo escuro) em vários estados e alertas de frio extremo (azul escuro).</span>
<span class="attribution"><a class="source" href="https://www.weather.gov/">Serviço Nacional de Meteorologia</a></span>
</figcaption>
</figure>
<h2>Onde entra o vórtice polar?</h2>
<p>Os ventos mais rápidos da corrente de jato ocorrem logo abaixo do topo da troposfera, que é o nível mais baixo da atmosfera e termina a cerca de 11 km acima da superfície da Terra. Os sistemas climáticos são limitados ao topo da troposfera, porque a atmosfera acima dela se torna muito estável. </p>
<p>A estratosfera é a camada seguinte, de cerca de 11 km a cerca de 48 km. Embora a estratosfera se estenda bem acima dos sistemas climáticos, ela ainda pode interagir com eles por meio de ondas atmosféricas que se movem para cima e para baixo na atmosfera. Essas ondas são semelhantes às ondas na corrente de jato que fazem com que ela desça para o sul, mas se movem verticalmente em vez de horizontalmente.</p>
<figure class="align-center zoomable">
<a href="https://images.theconversation.com/files/714254/original/file-20260124-56-ufh1tk.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=1000&fit=clip"><img alt="" src="https://images.theconversation.com/files/714254/original/file-20260124-56-ufh1tk.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&fit=clip" srcset="https://images.theconversation.com/files/714254/original/file-20260124-56-ufh1tk.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=600&h=287&fit=crop&dpr=1 600w, https://images.theconversation.com/files/714254/original/file-20260124-56-ufh1tk.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=600&h=287&fit=crop&dpr=2 1200w, https://images.theconversation.com/files/714254/original/file-20260124-56-ufh1tk.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=600&h=287&fit=crop&dpr=3 1800w, https://images.theconversation.com/files/714254/original/file-20260124-56-ufh1tk.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&h=360&fit=crop&dpr=1 754w, https://images.theconversation.com/files/714254/original/file-20260124-56-ufh1tk.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=754&h=360&fit=crop&dpr=2 1508w, https://images.theconversation.com/files/714254/original/file-20260124-56-ufh1tk.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=754&h=360&fit=crop&dpr=3 2262w" sizes="(min-width: 1466px) 754px, (max-width: 599px) 100vw, (min-width: 600px) 600px, 237px"></a>
<figcaption>
<span class="caption">Um gráfico mostra como as temperaturas nas camadas inferiores da atmosfera mudam entre a troposfera e a estratosfera. As milhas estão à direita e os quilômetros à esquerda.</span>
<span class="attribution"><a class="source" href="https://www.noaa.gov/jetstream/atmosphere/layers-of-atmosphere">NOAA</a></span>
</figcaption>
</figure>
<p>Você provavelmente já ouviu o termo “vórtice polar” ser usado quando uma área de ar frio do Ártico se move para o sul o suficiente para influenciar os Estados Unidos. Esse termo descreve o ar que circula ao redor do polo, mas pode se referir a <a href="https://journals.ametsoc.org/view/journals/bams/98/1/bams-d-15-00212.1.xml">duas circulações diferentes</a>, uma na troposfera e outra na estratosfera.</p>
<p>O <a href="https://web.archive.org/web/20250117041847/https://www.climate.gov/news-features/understanding-climate/understanding-arctic-polar-vortex">vórtice polar estratosférico</a> do Hemisfério Norte é um cinturão de ar em movimento rápido que circula ao redor do Polo Norte. É como uma segunda corrente de jato, bem acima daquela com a qual você provavelmente está familiarizado nos gráficos meteorológicos, e geralmente menos ondulada e mais próxima do polo.</p>
<p>Às vezes, o vórtice polar estratosférico pode se estender para o sul, sobre os Estados Unidos. Quando isso acontece, cria condições ideais para o movimento ascendente e descendente de ondas que <a href="https://doi.org/10.1126/sciadv.adq9557">conectam a estratosfera com o clima rigoroso do inverno</a> na superfície.</p>
<figure class="align-center ">
<img alt="" src="https://images.theconversation.com/files/714269/original/file-20260124-56-1rstmk.png?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&fit=clip" srcset="https://images.theconversation.com/files/714269/original/file-20260124-56-1rstmk.png?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=600&h=316&fit=crop&dpr=1 600w, https://images.theconversation.com/files/714269/original/file-20260124-56-1rstmk.png?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=600&h=316&fit=crop&dpr=2 1200w, https://images.theconversation.com/files/714269/original/file-20260124-56-1rstmk.png?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=600&h=316&fit=crop&dpr=3 1800w, https://images.theconversation.com/files/714269/original/file-20260124-56-1rstmk.png?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&h=397&fit=crop&dpr=1 754w, https://images.theconversation.com/files/714269/original/file-20260124-56-1rstmk.png?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=754&h=397&fit=crop&dpr=2 1508w, https://images.theconversation.com/files/714269/original/file-20260124-56-1rstmk.png?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=754&h=397&fit=crop&dpr=3 2262w" sizes="(min-width: 1466px) 754px, (max-width: 599px) 100vw, (min-width: 600px) 600px, 237px">
<figcaption>
<span class="caption">Um vórtice polar estratosférico estendido reflete ondas ascendentes de volta para baixo, à esquerda, o que afeta a corrente de jato e o clima na superfície, à direita.</span>
<span class="attribution"><span class="source">Mathew Barlow e Judah Cohen</span>, <a class="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/">CC BY</a></span>
</figcaption>
</figure>
<p>A previsão para a tempestade de janeiro mostrou uma sobreposição próxima entre o alongamento para o sul do vórtice polar estratosférico e a corrente de jato sobre os EUA, indicando condições perfeitas para frio e neve.</p>
<p>As maiores <a href="https://svs.gsfc.nasa.gov/3864">oscilações na corrente de jato</a> estão associadas a uma maior energia. Sob as condições certas, essa energia pode <a href="https://www.nature.com/articles/s41612-018-0054-4">ricochetear no vórtice polar de volta para a troposfera</a>, potencializando as oscilações norte-sul da corrente de jato na América do Norte e tornando mais provável um inverno rigoroso.</p>
<p>Foi isso que aconteceu no final de janeiro de 2026 no centro e no leste dos EUA.</p>
<h2>Se o planeta está aquecendo, por que ainda temos tempestades de inverno tão severas?</h2>
<p>A Terra está <a href="https://www.ipcc.ch/report/ar6/syr/">inequivocamente aquecendo</a> à medida que a atividade humana emite de gases de efeito estufa que retêm o calor na atmosfera, e <a href="https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg1/chapter/chapter-9/">os volumes de neve estão diminuindo em geral</a>. Mas isso não significa que um inverno rigoroso nunca mais vai acontecer.</p>
<p>Algumas pesquisas sugerem que, mesmo em um ambiente em aquecimento, eventos extremos de frio, embora ocorram com menos frequência, <a href="https://doi.org/10.1038/s43247-023-01008-9">ainda podem ser relativamente severos em alguns locais</a>.</p>
<p>Um fator pode ser o <a href="https://doi.org/10.1007/s00382-025-08011-0">aumento das perturbações no vórtice polar estratosférico</a>, que parecem estar ligadas ao <a href="https://doi.org/10.1126/science.abi9167">rápido aquecimento do Ártico</a> com as mudanças climáticas.</p>
<figure class="align-center zoomable">
<a href="https://images.theconversation.com/files/569628/original/file-20240116-27-naovil.png?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=1000&fit=clip"><img alt="Dois globos, um mostrando um vórtice polar estável e outro uma versão perturbada que traz um frio brutal ao sul." src="https://images.theconversation.com/files/569628/original/file-20240116-27-naovil.png?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&fit=clip" srcset="https://images.theconversation.com/files/569628/original/file-20240116-27-naovil.png?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=600&h=324&fit=crop&dpr=1 600w, https://images.theconversation.com/files/569628/original/file-20240116-27-naovil.png?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=600&h=324&fit=crop&dpr=2 1200w, https://images.theconversation.com/files/569628/original/file-20240116-27-naovil.png?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=600&h=324&fit=crop&dpr=3 1800w, https://images.theconversation.com/files/569628/original/file-20240116-27-naovil.png?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&h=407&fit=crop&dpr=1 754w, https://images.theconversation.com/files/569628/original/file-20240116-27-naovil.png?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=754&h=407&fit=crop&dpr=2 1508w, https://images.theconversation.com/files/569628/original/file-20240116-27-naovil.png?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=754&h=407&fit=crop&dpr=3 2262w" sizes="(min-width: 1466px) 754px, (max-width: 599px) 100vw, (min-width: 600px) 600px, 237px"></a>
<figcaption>
<span class="caption">O vórtice polar é uma forte faixa de ventos na estratosfera, normalmente circundando o Polo Norte. Quando enfraquece, ele pode se dividir. A corrente de jato polar pode refletir essa perturbação, tornando-se mais fraca ou ondulada. Na superfície, o ar frio é empurrado para o sul em alguns locais.</span>
<span class="attribution"><a class="source" href="https://www.climate.gov/news-features/understanding-climate/understanding-arctic-polar-vortex">NOAA</a></span>
</figcaption>
</figure>
<p>Além disso, um oceano mais quente leva a mais evaporação e, como uma atmosfera mais quente pode reter mais umidade, isso significa que há mais água disponível para tempestades. O processo de condensação da umidade em chuva ou neve também produz energia para tempestades. No entanto, o aquecimento também pode reduzir a intensidade das tempestades, diminuindo os contrastes de temperatura.</p>
<p>Os efeitos opostos tornam complicado avaliar a mudança potencial <a href="https://www.nature.com/articles/ngeo2783">na intensidade média das tempestades</a>. Mas <a href="https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg1/chapter/chapter-11/">eventos severos não mudam necessariamente da mesma forma</a> que eventos médios. Em suma, parece que <a href="https://doi.org/10.1073/pnas.2510029122">as tempestades de inverno mais severas podem estar se tornando mais intensas</a>. </p>
<p>Um ambiente mais quente também aumenta a probabilidade de que a precipitação que teria caído como neve nos invernos anteriores agora seja mais provável de cair como granizo e chuva congelante.</p>
<h2>Ainda há muitas perguntas</h2>
<p>Os cientistas estão constantemente aprimorando a capacidade de prever e responder a esses eventos climáticos extremos, mas ainda há muitas perguntas a serem respondidas.</p>
<p>Grande parte dos dados e pesquisas na área se baseiam no trabalho de funcionários federais, incluindo laboratórios governamentais como o <a href="https://www.denverpost.com/2026/01/15/%20colorado-ncar-funding-john-hickenlooper-michael-bennet-senate/">Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica</a>, conhecido como NCAR, que tem sido alvo de cortes de financiamento pelo governo Trump. Esses cientistas ajudam a desenvolver modelos, instrumentos de medição e dados cruciais dos quais cientistas e meteorologistas de todo o mundo dependem.</p>
<p><em>Este artigo, publicado originalmente em 24 de janeiro de 2026, foi atualizado com detalhes da tempestade do fim de semana.</em></p><img src="https://counter.theconversation.com/content/274528/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Mathew Barlow recebeu financiamento federal para pesquisas sobre eventos climáticos extremos e também presta consultoria jurídica relacionada às mudanças climáticas.</span></em></p><p class="fine-print"><em><span>Judah Cohen não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.</span></em></p>A atmosfera complicada, e temperaturas quentes em um local podem contribuir para tempestades brutalmente frias em outro lugar.Mathew Barlow, Professor of Climate Science, UMass LowellJudah Cohen, Climate scientist, Massachusetts Institute of Technology (MIT)Licensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2738782026-01-27T19:16:04Z2026-01-27T19:16:04ZSoftware prevê como transformações climáticas podem interferir na preservação da biodiversidade<p>A <a href="https://www.parana.pr.gov.br/aen/Noticia/Arvore-simbolo-do-Parana-Araucaria-e-muda-mais-procurada-nos-viveiros-do-Estado">araucária</a> é muito mais que uma árvore símbolo do Paraná. Ela representa a identidade cultural, tem importância ecológica, econômica e ainda desperta carinho e admiração popular. Por isso, a árvore foi a escolha natural quando buscamos uma espécie piloto para testar e aprimorar o software que desenvolvemos para avaliar como as transformações climáticas podem interferir na ocorrência de <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1568988325001593?via=ihub">organismos na natureza</a>, sejam eles terrestres ou aquáticos.</p>
<p>O software em questão é o <a href="https://luizesser.r-universe.dev/caretSDM">caretSDM</a>, desenvolvido no <a href="https://www.iaraucaria.pr.gov.br/napis/napi-emergencia-climatica/">Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação em Emergência Climática</a> (NAPI-EC), uma rede colaborativa de pesquisa que une universidades, centros de pesquisa e empresas para gerar soluções tecnológicas e científicas para os desafios climáticos. O software utiliza <a href="https://www.scielo.br/j/rod/a/hdyTWhzSjpNY6vfj5zdcktr/?format=pdf&lang=pt">modelos preditivos</a> para avaliar como as transformações climáticas afetam a distribuição geográfica das espécies.</p>
<h2>Modelos computacionais e preservação ambiental</h2>
<p>O caretSDM foi desenvolvido em <a href="https://youtu.be/4uo4r_qeui0?feature=shared">linguagem R</a> — uma linguagem de programação de código aberto, focada em computação estatística, análise de dados e gráficos. A lógica do software é baseada na resposta das espécies aos <a href="https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/aec.13234">gradientes ambientais</a> — fatores como temperatura, umidade e precipitação, que se alteram à medida que o clima muda. </p>
<p>Isso significa que uma espécie que hoje encontra condições ideais em determinada região pode não conseguir sobreviver ali no futuro. Ao integrar modelos computacionais com projeções climáticas, o software permite simular diferentes cenários para as próximas décadas.</p>
<p>Essa capacidade de antecipar impactos ambientais representa uma ferramenta poderosa para a ciência e para a sociedade. A modelagem nos permite, por exemplo, visualizar onde as espécies terão melhores chances de sobrevivência e quais áreas precisarão de mais atenção para manter seus serviços ecossistêmicos. É uma ponte entre o conhecimento científico e as ações práticas de conservação.</p>
<h2>Conhecimento posto em prática</h2>
<p>O programa permite mapear as chances de determinadas espécies ampliarem ou reduzirem sua área de ocorrência conforme o clima muda. Isso é essencial para a conservação da biodiversidade e o planejamento de políticas públicas. Em outras palavras, conseguimos antever onde estarão os refúgios climáticos e quais áreas precisarão de mais atenção para garantir a sobrevivência de espécies importantes para os ecossistemas e para as atividades humanas.</p>
<p>Nossa pesquisa se desenvolve em etapas. Tudo começa com o <strong>pré-processamento</strong>, quando reunimos os dados ambientais e das espécies. Em seguida, partimos para o <strong>processamento</strong>, que envolve a <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/0304380095001522?via=ihub">calibração dos modelos</a> — que é o ajuste dos parâmetros do modelo para que suas previsões se alinhem o mais próximo possível à realidade — e, depois, sua avaliação — que é a comparação dos resultados com dados do mundo real para verificar se ele representa com precisão a realidade. É isso que garante os resultados confiáveis da pesquisa. </p>
<p>A etapa seguinte é a <strong>geração das projeções</strong> ou predições, na qual simulamos cenários futuros com base nas <a href="https://www.researchgate.net/profile/Flavia-Patricio/publication/344460808_Mudancas_climaticas_e_doencas_bacterianas_de_plantas/links/5f788702299bf1b53e09c692/Mudancas-climaticas-e-doencas-bacterianas-de-plantas.pdf#page=41">condições ambientais previstas</a>. Por fim, no <strong>pós-processamento</strong>, essas informações são organizadas e interpretadas para gerar aplicações práticas, como indicar áreas prioritárias para conservação, alertas sobre mudanças em habitats ou impactos potenciais sobre cadeias produtivas. </p>
<p>Cada etapa é fundamental para que os resultados finais tenham precisão e contribuam de forma efetiva no enfrentamento das emergências climáticas.</p>
<p>Além da conservação, o caretSDM também pode auxiliar em áreas estratégicas, como a agricultura e a saúde pública. É possível prever o deslocamento de pragas e vetores de doenças, antecipar cenários de risco e criar estratégias preventivas que reduzam perdas econômicas e impactos sociais. A ciência ganha força quando se transforma em ação concreta.</p>
<p>Na <a href="https://www.uem.br/">Universidade Estadual de Maringá</a> (UEM), no Paraná, o software já está sendo utilizado por professores e estudantes do <a href="https://cpr.uem.br/index.php/catalogos/pos-graduacao/1443-programa-de-pos-graduacao-em-ecologia-de-ambientes-aquaticos-continentais">Programa de Pós-Graduação em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais</a> (PEA), que contribuem com sugestões e melhorias constantes. </p>
<p>Esse ciclo de uso e aperfeiçoamento torna o caretSDM cada vez mais fácil de usar e acessível. E esse aprimoramento só é possível graças ao trabalho colaborativo de uma equipe que conta com profissionais da ecologia, da geografia e da ciência da computação, o que nos permite abordar os desafios de forma integrada e criativa. Essa sinergia é uma das maiores fortalezas do projeto.</p>
<p><a href="https://www.utfpr.edu.br/noticias/curitiba/projeto-napi-em-emergencia-climatica-elabora-solucoes-para-crise-climatica-atuando-na-vila-torres">A interdisciplinaridade é um dos pilares que sustentam o NAPI-EC</a> e, particularmente no caso do caretSDM, é o que tem nos permitido avançar com mais qualidade e obter impactos concretos. O trabalho em rede, com especialistas de áreas distintas, eleva a qualidade da ciência que produzimos. No campo da ecologia e evolução, o isolamento leva à extinção; na pesquisa científica, essa metáfora também se aplica.</p>
<h2>Resultados preocupantes</h2>
<p>Com financiamento da <a href="https://www.fappr.pr.gov.br/Pagina/Fundacao-Araucaria">Fundação Araucária</a>, conseguimos estruturar esse trabalho em rede e desenvolver um software com potencial real de impacto social. Não basta apenas produzir conhecimento, é preciso devolvê-lo à sociedade de forma clara, responsável e com impacto mensurável.</p>
<p>Um estudo envolvendo a interação entre a Araucária (<em>Araucaria angustifolia</em>) e a <a href="https://www.wikiaves.com.br/wiki/gralha-azul">Gralha-azul</a> (<em>Cyanocorax caeruleus</em>), na Mata Atlântica, por exemplo, revela um cenário preocupante: até 2090, as áreas adequadas para a coexistência dessas espécies podem diminuir em 75,3%. Essa diminuição ameaça a disponibilidade de alimento para a gralha-azul e compromete a regeneração das florestas de araucária, podendo levar à extinção local dessas populações.</p>
<p>Em ambientes aquáticos, estudos conduzidos nas bacias Paraná-Paraguai e Amazônica também apontam uma forte redução das áreas futuras de ocorrência de espécies de alto valor econômico. Os chamados <a href="https://esajournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1890/140055">refúgios climáticos</a> tendem a se restringir ao leste do Alto e Médio Paraná, na bacia Paraná-Paraguai, e ao eixo Solimões-Amazonas, baixo rio Madeira e rio Negro, na Amazônia. Esses resultados indicam possibilidade de perdas expressivas de serviços ecossistêmicos, com impactos diretos sobre a provisão econômica e os meios de subsistência nas regiões afetadas.</p>
<p>Por isso, a divulgação científica é uma etapa essencial do processo. Vivemos num mundo inundado por informações, então precisamos mostrar com <a href="https://periodicos.unespar.edu.br/ensinoepesquisa/article/view/9386/6887">transparência</a> o que estamos fazendo com os recursos públicos e por que isso importa. Enquanto seguimos aprimorando o software, seguimos também acreditando que a união entre ciência, tecnologia e colaboração é o melhor caminho para enfrentarmos os desafios do presente e do futuro.</p>
<p>Com ele, podemos apoiar políticas públicas para conservação de áreas estratégicas, prever a chegada de pragas e doenças, proteger polinizadores essenciais à agricultura e, em última instância, ajudar a garantir segurança alimentar e qualidade de vida à população. A ciência, quando bem aplicada, antecipa problemas e oferece soluções.</p>
<p>Entre essas soluções, está a definição de áreas prioritárias para a conservação da Araucária. Nossas projeções indicam que, até 2090, esta espécie pode sofrer uma redução de 84,8% em sua área de distribuição, tornando-se restrita, no Paraná, principalmente à região Sul. Esse território deve, portanto, receber atenção especial em ações de conservação e manejo, fundamentais para garantir a manutenção futura da espécie.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/273878/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Dayani Bailly recebe financiamento da Fundação Araucária </span></em></p><p class="fine-print"><em><span>Luíz Fernando Esser recebe financiamento da Fundação Araucária. </span></em></p><p class="fine-print"><em><span>Guilherme de Souza Oliveira não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.</span></em></p>Ferramenta, desenvolvida no Paraná, mostra como espécies hoje adaptadas para determinadas regiões podem não conseguir sobreviver ali no futuroDayani Bailly, Professora adjunta do Departamento de Biologia, Universidade Estadual de Maringá (UEM)Guilherme de Souza Oliveira, Divulgador científico pelo Napi Paraná Faz Ciência e Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Estadual de Maringá (UEM)Luíz Fernando Esser, Pós-doutorando em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais (PEA), Universidade Estadual de Maringá (UEM)Licensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2743802026-01-26T19:45:30Z2026-01-26T19:45:30ZO Brasil Pós-COP 30: Entre a ciência e o retrocesso, futuro climático do Brasil está em jogo<p>Poucos dias após o encerramento da COP 30 - conferência que recolocou o Brasil no centro do debate global sobre clima, sustentabilidade e desenvolvimento responsável - <a href="https://sumauma.com/pl-da-devastacao-o-congresso-derruba-vetos-de-lula-e-destroi-a-legislacao-ambiental-do-brasil/">o país foi surpreendido pela decisão do Congresso Nacional de derrubar a maior parte dos vetos presidenciais ao projeto de lei do licenciamento ambiental</a>. </p>
<p>A flexibilização, agora presente na legislação, enfraquece a capacidade do país de monitorar empreendimentos com potencial impacto ao meio ambiente. A reintegração desses trechos provocou críticas de especialistas, que veem na decisão um sinal de retrocesso ambiental, em contraste com os compromissos e expectativas reafirmados pelo Brasil no âmbito da COP 30.</p>
<hr>
<p>
<em>
<strong>
Leia mais:
<a href="https://theconversation.com/ciencia-brasileira-debate-desafios-do-futuro-climatico-em-seminario-do-the-conversation-brasil-na-finep-273731">Ciência brasileira debate desafios do futuro climático em seminário do The Conversation Brasil na Finep</a>
</strong>
</em>
</p>
<hr>
<p>Os cientistas também saíram da COP 30 com um sentimento de enorme preocupação, principalmente após o lançamento pelo PNUMA do “<a href="https://www.unep.org/pt-br/resources/relatorio-sobre-lacuna-de-emissoes-2025">Relatório sobre a Lacuna de Emissões</a>” de 2025, intitulado “Fora da Meta”. Mesmo que totalmente implementados, os compromissos voluntários assumidos pelos países no Acordo de Paris, com as <a href="https://cop30.br/pt-br/sobre-a-cop30/contribuicoes-nacionalmente-determinadas-ndcs">Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs)</a>, não serão suficientes para impedir um aquecimento global de 2,3 a 2,5 °C neste século. Com isso, a ambição para que a temperatura não ultrapasse 1,5°C vai requerer que as emissões globais sejam reduzidas em 55% em relação aos níveis de 2019 até 2035.</p>
<hr>
<p>
<em>
<strong>
Leia mais:
<a href="https://theconversation.com/atalhos-para-a-degradacao-como-a-nova-lei-brasileira-de-licenciamento-ambiental-ameaca-na-pratica-a-biodiversidade-e-os-compromissos-climaticos-do-pais-269148">Atalhos para a degradação: como a nova lei brasileira de licenciamento ambiental ameaça na prática a biodiversidade e os compromissos climáticos do país</a>
</strong>
</em>
</p>
<hr>
<p>Nesse contexto de contradições, propomos uma reflexão mais ampla, revisitando o livro lançado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação durante a COP 30: <a href="https://omp-editora.prd.ibict.br/index.php/edibict/catalog/book/379">Mudanças Climáticas no Brasil – Estado da Arte e Fronteiras do Conhecimento</a>. A obra reúne estudos de 95 pesquisadores que combinam ciência com visão estratégica para os desafios do futuro próximo.</p>
<p>Os autores defendem que o Brasil não pode se limitar a reagir aos acontecimentos, mas precisa ocupar um lugar de protagonismo, amparado em sua biodiversidade, em sua matriz energética renovável e em sua capacidade científica.</p>
<p>A obra mostra que as projeções climáticas indicam que a temperatura média brasileira pode subir entre 2,5 °C e 4,5 °C até o final do século, com efeitos diretos e indiretos sobre todos os biomas. Há sinais de que a floresta Amazônica pode deixar de absorver carbono para se transformar em fonte emissora.</p>
<hr>
<p>
<em>
<strong>
Leia mais:
<a href="https://theconversation.com/sociobioeconomia-de-floresta-em-pe-mais-que-preservacao-uma-solucao-economica-viavel-para-desenvolvimento-da-amazonia-220094">Sociobioeconomia de Floresta em Pé: mais que preservação, uma solução econômica viável para desenvolvimento da Amazônia</a>
</strong>
</em>
</p>
<hr>
<p>Os manguezais e recifes de corais, bases ecológicas e econômicas para inúmeras comunidades, encontram-se sob pressão crescente e comprometem o turismo e a segurança alimentar. No campo, a tendência é igualmente preocupante: perda de terras produtivas, <a href="https://theconversation.com/conheca-os-biomas-brasileiros-que-vao-muito-alem-da-floresta-amazonica-e-tambem-merecem-atencao-da-cop-30-267300">alteração dos biomas</a>, intensificação de pragas e queda na produtividade de cultivos essenciais, como mandioca e milho. </p>
<p>As perdas anuais no PIB agrícola podem variar de 0,4% a 1,8% até 2100, dependendo do nível de emissões. Na saúde pública, a combinação de ondas de calor, ilhas de calor urbanas, poluição, inundações e saneamento precário amplia a incidência de doenças cardiovasculares, respiratórias e infecciosas.</p>
<p>A obra traz uma mensagem clara: enfrentar a emergência climática exige conhecimento, coordenação institucional, planejamento de longo prazo e coragem. É nesse espírito que o livro dialoga com o tom da abertura da COP 30, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lembrou que “a emergência climática é uma crise de desigualdade. Ela expõe e exacerba o que já é inaceitável. O desalento não pode extinguir as esperanças da juventude”.</p>
<p>É justamente a evidência científica de que o futuro climático resulta de decisões tomadas no presente que torna a obra uma leitura indispensável. Ao demonstrar, com base em dados e no consenso científico sobre o clima, como escolhas regulatórias moldam trajetórias de risco ou de mitigação, o livro dialoga diretamente com a sociedade — especialmente com <a href="https://theconversation.com/cop-da-amazonia-catalisou-solucoes-mas-brasil-ainda-lida-com-devastacao-e-excesso-de-desinformacao-climatica-270324">aqueles que relativizam as mudanças climáticas</a>. </p>
<p>A obra oferece argumentos sólidos para que esses setores reconsiderem posições que promovem alterações normativas capazes de ampliar emissões, fragilizar a proteção ambiental e <a href="https://theconversation.com/aquecimento-global-conta-dos-eventos-extremos-sera-paga-pelas-futuras-geracoes-230816">agravar a instabilidade climática no Brasil e no mundo nas próximas décadas</a>.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/274380/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Luiz Antonio Elias é presidente da Finep</span></em></p><p class="fine-print"><em><span>Ima Vieira é assessora do gabinete da presidência da Finep</span></em></p><p class="fine-print"><em><span>Osvaldo Luiz Leal de Moraes é diretor de clima e sustentabilidade do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). </span></em></p>Livro reúne estudos de 95 pesquisadores que combinam ciência com visão estratégica para os desafios para o País. Brasil precisa ocupar um lugar de protagonismo, amparado em sua biodiversidade, em sua matriz energética renovável e em sua capacidade científicaLuiz Antonio Elias, Presidente, Finep - Financiadora de Estudos e ProjetosIma Vieira, Pesquisadora do Museu Paraense Emilio Goeldi e assessora da presidência, Finep - Financiadora de Estudos e ProjetosOsvaldo Luiz Leal de Moraes, Professor de Física, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)Licensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2737732026-01-26T13:44:41Z2026-01-26T13:44:41ZPesticidas, obesidade e diabetes: uma relação comprovada de exposição e dano<p><a href="https://data.worldobesity.org/publications/PBO---Atlas-Mundial-da-Obesidade---WOF-2025-PT-BR.pdf">Mais de 1 bilhão de indivíduos são obesos, segundo o Atlas Mundial da Obesidade de 2025</a>. <a href="https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2025/03/05/mais-da-metade-dos-adultos-em-todo-o-mundo-estara-com-sobrepeso-ou-obesidade-ate-2050-diz-novo-estudo-do-lancet.ghtml">Um estudo científico, publicado pela revista Lancet, em 2025, projetou que cerca de 60% dos adultos devem ter sobrepeso ou obesidade até 2050</a>.</p>
<p>Soma-se a esses dados alarmantes, os mais de <a href="https://g1.globo.com/saude/noticia/2024/11/14/mundo-tem-828-milhoes-de-pessoas-com-diabetes-e-mais-da-metade-nao-recebe-tratamento-diz-pesquisa.ghtml">500 milhões de adultos que vivem com diabetes no mundo, com estimativas recentes chegando a cerca de 828 milhões</a>. O número de diabéticos continua a crescer. E quase metade das pessoas não sabe que tem a doença. As projeções indicam que mais de 1,3 bilhão de pessoas terão diabetes até 2050, com aumentos alarmantes em países de baixa e média renda.</p>
<p>Por incrível que pareça, no passado recente nem a obesidade e nem a diabetes eram consideradas epidemias globais. E por que se tornaram?</p>
<h2>Possíveis vilões</h2>
<p>Estudos têm apontado que, entre outros fatores, a exposição a pesticidas também tem sido associada à obesidade e ao diabetes em humanos e em modelos experimentais, realizados em pesquisas de laboratório. Essa correlação se dá, principalmente, em função de seus efeitos como desreguladores endócrinos.</p>
<p>Os desreguladores endócrinos são substâncias químicas (naturais ou sintéticas) que interferem no sistema hormonal de humanos e animais, imitando, bloqueando ou alterando a ação dos hormônios naturais.</p>
<p>Esse fenômeno pode causar efeitos negativos na saúde, como problemas de fertilidade, puberdade precoce, desenvolvimento neurológico e até certos tipos de câncer.</p>
<p>Para quem não é da área, é importante esclarecer que um dos primeiros contatos com pesticidas ambientais ocorre em fases críticas da vida. </p>
<p>Durante a gestação e a lactação, bebês podem ser expostos. E essa exposição pode levar a danos em tecidos centrais e periféricos e, consequentemente, à programação de distúrbios metabólicos tanto no início quanto mais tarde ao longo da vida.</p>
<p>Nós, pesquisadores <a href="https://www.instagram.com/lfe.uerj/">do Laboratório de Fisiologia Endócrina</a>, da <a href="https://www.uerj.br/">Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)</a>, publicamos <a href="https://www.google.com/?client=safari">artigo científico</a> no periódico <em>Endocrine</em>. </p>
<p>O artigo faz uma revisão de quase 100 estudos epidemiológicos e experimentais que associaram a exposição a pesticidas durante a gestação e a lactação com a obesidade e diabetes na prole.</p>
<h2>Uma breve história dos pesticidas</h2>
<p>Os <a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15060196/">pesticidas</a> são substâncias químicas heterogêneas utilizadas em larga escala para o controle de pragas em residências, jardins, plantações. Além disso, são utilizados no controle de doenças transmitidas por vetores (como a malária) e de doenças transmitidas por alimentos.</p>
<p><a href="https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00325481.1958.11692212">Existem diferentes tipos de pesticidas, nomeados de acordo com sua capacidade de eliminar organismos específicos</a>. Alguns exemplo: inseticidas (insetos), herbicidas (plantas), rodenticidas (roedores) e fungicidas (fungos).</p>
<p>Essa ampla capacidade de aplicação está associada a uma elevada exposição humana a essas substâncias. A exposição pode ocorrer pelas vias oral, respiratória e dérmica. </p>
<p>Os efeitos decorrentes têm sido objeto de pesquisas que avaliam repercussões de curto e/ou longo prazo.</p>
<p>Diversos eventos marcantes relacionados à expansão industrial e agrícola ocorreram ao longo dos anos. Estes moldaram a relação entre a exposição a substâncias químicas e a programação metabólica.</p>
<p>O uso de pesticidas sintéticos teve início na década de 1940 com a descoberta do <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/DDT">diclorodifeniltricloroetano (DDT)</a>. Seu auge aconteceu na década de 1960 com a <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_verde">Revolução Verde</a>. Na época, houve a expansão do agronegócio, reduzindo danos às plantações e aumentando a produtividade.</p>
<h2>Desfechos negativos não previstos</h2>
<p>O que não se sabia naquela época era que o uso indiscriminado de pesticidas poderia gerar muitos desfechos negativos para produtores diretamente expostos às substâncias químicas, consumidores e o meio ambiente.</p>
<p>Apenas em 1962, um alerta mundial sobre os potenciais efeitos desse uso foi detalhadamente publicado pela bióloga norte-americana <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Silent_Spring">Rachel Carson, no livro Primavera Silenciosa (em inglês, <em>Silent Spring</em>)</a>. </p>
<p>No livro, ela enfatizou os efeitos deletérios dos pesticidas, especialmente a infertilidade em aves.</p>
<p>Desde então, diversas publicações têm denunciado os efeitos adversos à saúde humana e ao meio ambiente causados por diferentes tipos de pesticidas. </p>
<p>Estudos mais recentes têm relacionado o aumento do uso dessas substâncias ao surgimento de <a href="https://journals.lww.com/co-allergy/abstract/2011/04000/pesticides_and_asthma.6.aspx">asma</a>, <a href="https://www.thelancet.com/journals/laneur/article/PIIS1474-4422(16)30230-7/abstract">doença de Parkinson</a>, <a href="https://www.mdpi.com/1660-4601/18/20/10991">autismo</a> e vários tipos de câncer.</p>
<h2>Poluentes persistentes</h2>
<p>A maioria dos pesticidas é classificada como <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Poluentes_org%C3%A2nicos_persistentes">poluentes orgânicos persistentes (POPs)</a>. São considerados compostos sintéticos que resistem à degradação e apresentam grande potencial de biomagnificação e bioacumulação.</p>
<p>A <a href="https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0240792">biomagnificação é definida como o aumento da concentração de um composto ao longo de níveis tróficos sucessivos, enquanto a bioacumulação corresponde ao acúmulo progressivo dessa substância no organismo de um indivíduo</a>.</p>
<p>Esses compostos atuam no organismo e promovem a desregulação do sistema endócrino e interferem nos mecanismos de ação dos hormônios, resultando em desequilíbrio da <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Homeostase">homeostase</a> corporal.</p>
<p>Como desreguladores endócrinos, algumas das disfunções associadas aos pesticidas incluem excesso de peso, alterações no metabolismo da glicose, diabetes, mudanças na função reprodutiva e prejuízos ao desenvolvimento neurológico.</p>
<h2>Pesticidas, obesidade e diabetes</h2>
<p>Tanto a obesidade quanto o diabetes são doenças metabólicas multifatoriais que atingiram proporções pandêmicas nas últimas décadas. </p>
<p>Os pesticidas podem atuar como obesogênicos por meio da desregulação da homeostase lipídica. Isso significa aumento da adipogênese e do acúmulo de lipídios. </p>
<p>Além disso, podem causar alterações hormonais e alterar vias relacionadas ao apetite, à saciedade e ao balanço energético, por meio de diversos mecanismos possíveis.</p>
<p>Em 2002, a <a href="https://www.liebertpub.com/doi/10.1089/107555302317371479">cientista Paula Baillie-Hamilton publicou um artigo</a> no qual propôs a hipótese de que os níveis atuais de exposição humana a substâncias químicas poderiam ter comprometido os mecanismos naturais de controle do peso corporal. Ela associou a epidemia de obesidade ao aumento da presença de toxinas sintéticas.</p>
<p>De fato, desde o início da década de 1970, <a href="https://www.frontiersin.org/journals/endocrinology/articles/10.3389/fendo.2019.00014/full">diversos estudos</a> demonstraram que a exposição a agentes químicos ambientais em roedores pode desencadear ganho de peso corporal.</p>
<p>Mas somente anos depois, a hipótese de que substâncias químicas sintéticas poderiam levar à obesidade foi confirmada. E produtos como os pesticidas <a href="https://www.scielo.br/j/asoc/a/6rpgHvHH9JcDHkxWrpNFF5N/?lang=pt">organoclorados</a>, entre outros, passaram a ser associados também a diferentes doenças metabólicas.</p>
<p>Além disso, esses pesticidas também podem modular a sensibilidade à insulina em tecidos endócrinos, como o pâncreas, os tecidos adiposos branco e marrom, o músculo e o fígado. E por isso, considerados potencialmente diabetogênicos.</p>
<h2>Exposição materna</h2>
<p>Em nosso estudo, analisamos vários artigos científicos que comprovam que a exposição materna a organoclorados é arriscada. </p>
<p>Esses compostos podem ser detectados no soro materno humano, na <a href="https://doi.org/10.1016/j.envint.2014.01.004">placenta</a>, no <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0013935119307911?via%3Dihub">cordão umbilical</a> e no <a href="https://archpedi.jamanetwork.com/article.aspx?doi=10.1001/archpedi.1973.04160060026005">leite materno</a>, sendo prejudiciais aos bebês.</p>
<p>Os <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Intoxica%C3%A7%C3%A3o_por_organofosforado">organofosforados</a> como Glifosato e Malathion são os mais comuns utilizados na agricultura.</p>
<p>Durante a vida intrauterina e a lactação, o Glifosato compromete a fertilidade feminina, <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0278691520304506?via%3Dihub">reduz o número de embriões implantados</a> e induz <a href="https://link.springer.com/article/10.1007/s00204-018-2236-6">efeitos adversos na segunda geração, como atraso no crescimento e anomalias congênitas</a>.</p>
<p>A maioria dos modelos de programação metabólica relacionados à exposição perinatal ao Glifosato está associada a <a href="https://www.cambridge.org/core/journals/journal-of-developmental-origins-of-health-and-disease/article/abs/glyphosatebased-herbicide-exposure-during-pregnancy-and-lactation-malprograms-the-male-reproductive-morphofunction-in-f1-offspring/E24A0D5B1D43454DDED60401FC620B2B">disfunções reprodutivas masculinas</a> e a <a href="https://link.springer.com/article/10.1007/s00204-020-02677-7">prejuízos cognitivos e comportamentais</a>.</p>
<p>Em relação ao <a href="https://www.tandfonline.com/doi/full/10.3109/01480545.2014.933348">Malathion, a exposição materna durante a lactação tem sido associada ao aumento dos níveis plasmáticos de colesterol e triglicerídeos, a disfunções hepáticas e à resistência à insulina</a>.</p>
<p>Os primeiros <a href="https://reporterbrasil.org.br/2013/09/neonicotinoides-que-sao-e-como-podem-afetar-voce/">Neonicotinoides</a> direcionados para controle de pragas, entraram no mercado nos anos 1990. Mais tarde, estudos começaram a apontar que estes produtos também estão relacionados a disfunções reprodutivas e comportamentais nos descendentes. </p>
<p>No entanto, poucos estudos têm investigado o metabolismo da glicose e a obesidade como desfechos. Vale destacar que os Neonicotinoides são devastadores para insetos polinizadores, como as abelhas, inclusive já tendo sido o seu uso suspenso por alguns países.</p>
<p>Em nossa revisão de literatura, identificamos estudos que apontam que o <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Imidacloprida">Imidacloprida</a>, um inseticida do grupo dos Neonicotinoides e amplamente utilizado, já foi descrito <a href="https://pubs.acs.org/doi/10.1021/jf3039814">como capaz de estimular a formação de células de gordura e de favorecer o desenvolvimento da obesidade</a>. Isso leva a resistência à insulina em camundongos machos.</p>
<p>Já a exposição ao pesticida <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Nitempiram">Nitenpiram</a> durante a gestação pode provocar inflamação grave no fígado — conhecida como <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Doen%C3%A7a_hep%C3%A1tica_gordurosa_n%C3%A3o_alco%C3%B3lica">esteato-hepatite não alcoólica</a> — além de alterações na microbiota intestinal, tanto em machos quanto em fêmeas.</p>
<p>Estudos mais recentes mostram que mesmo doses consideradas “seguras” de <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Clotianidina">Clotianidina</a>, quando a exposição ocorre no período perinatal, <a href="https://www.jstage.jst.go.jp/article/jvms/83/4/83_21-0014/_article">podem causar toxicidade reprodutiva em camundongos adultos de ambos os sexos</a>.</p>
<p>Outros pesticidas dessa classe também têm sido associados a efeitos preocupantes. O <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Acetamiprida">Acetamiprida</a> foi relacionado a <a href="https://link.springer.com/article/10.1007/s11356-020-12314-6">prejuízos na memória</a>.</p>
<p>Estes são apenas alguns exemplos e só reforçam a importância e urgência em nossas políticas com o uso de pesticidas. Precisamos reformular ações regulatórias a fim de reduzir o impacto desses produtos sobre a saúde das futuras gerações.</p>
<hr>
<p><em>Esta pesquisa contou com financiamento do <a href="http://www.cnpq.br/">Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)</a>, da <a href="https://www.faperj.br/">Fundação Carlos Chagas de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj)</a> e da <a href="https://www.gov.br/capes/pt-br">Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes)</a>, que também apoio a divulgação deste artigo.</em></p><img src="https://counter.theconversation.com/content/273773/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Patrícia Cristina Lisboa recebe financiamento da FAPERJ, do CNPq e da CAPES</span></em></p><p class="fine-print"><em><span>Egberto Gaspar Moura recebe financiamento da Faperj, CNPq e Capes. </span></em></p><p class="fine-print"><em><span>Rosiane Aparecida Miranda recebe financiamento da FAPERJ. </span></em></p>Estudos mostram que a exposição a pesticidas também tem sido associada à obesidade e ao diabetes em humanos. Em modelos experimentais essa correlação se dá em função de seus efeitos como desreguladores endócrinosPatrícia Cristina Lisboa, professora Titular de Fisiologia, no Departamento de Ciências Fisiológicas, do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes, UERJEgberto Gaspar Moura, professor Titular de Fisiologia e Fisiopatologia Endócrina, no Departamento de Ciências Fisiológicas, do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes, UERJRosiane Aparecida Miranda, professora Adjunto de Fisiologia, no Departamento de Ciências Fisiológicas, do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes (Ibrag), UERJLicensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.tag:theconversation.com,2011:article/2729972026-01-26T13:39:53Z2026-01-26T13:39:53ZEstudo da PUC-Rio mostra por que é necessário gerenciar de forma integrada os sistemas de saneamento<figure><img src="https://images.theconversation.com/files/711441/original/file-20260108-56-jztfx1.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&rect=0%2C471%2C900%2C600&q=45&auto=format&w=1050&h=700&fit=crop" /><figcaption><span class="caption">Canal de drenagem com aporte irregular de esgotamento sanitário e resíduos sólidos: problema costuma surgir quando o esgotamento sanitário e a drenagem urbana são planejados, operados e geridos como sistemas independentes.
</span> <span class="attribution"><span class="source">Foto: Antonio Krishnamurti</span></span></figcaption></figure><p>A chegada do verão coloca muitas cidades brasileiras em <a href="https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2025/11/23/chuvas-de-verao-83percent-de-areas-de-30-municipios-do-rio-sao-vulneraveis-a-desastres-veja-onde-ficam.ghtml">alerta para inundações e deslizamentos</a>. Eventos climáticos já esperados, agravados <a href="https://theconversation.com/mudancas-climaticas-pioram-enchentes-urbanas-e-despertam-interesse-pelo-conceito-de-cidades-esponja-229698">pelas mudanças climáticas</a>, prometem <a href="https://exame.com/esg/verao-2025-la-nina-traz-chuvas-irregulares-e-risco-de-eventos-extremos/">chuva</a>s mais intensas em várias regiões do país. Entre as diversas consequências das inundações, <a href="https://theconversation.com/desastre-climatico-no-rio-grande-do-sul-crise-sanitaria-a-vista-230511">o risco sanitário costuma ser especialmente crítico</a>.</p>
<p>Entretanto, o problema não se limita aos impactos mais imediatos das cheias. Se a sua cidade fica com mau cheiro após temporais intensos, isso já é um sinal de alerta. Infelizmente, essa é uma realidade comum (e perigosa) em muitos centros urbanos. Geralmente, isso acontece quando águas pluviais e esgoto sanitário se encontram onde não deveriam, colocando a população e o ambiente em risco de contaminação.</p>
<p>Como engenheiro civil, doutor em recursos hídricos e meio ambiente, esse tema tem sido um de meus principais focos de pesquisa, no <a href="https://www.civ.puc-rio.br/corpo-docente-quadro-principal/">Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da PUC-Rio</a>, em parceria com colaboradores da <a href="https://poli.ufrj.br/">Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)</a>. Em uma <a href="https://revistas.ufj.edu.br/geoambiente/article/view/76993">revisão recente da literatura científica</a>, mostramos que esse tipo de problema costuma surgir quando o esgotamento sanitário e a drenagem urbana são planejados, operados e geridos como sistemas independentes.</p>
<h2>Um sistema desintegrado</h2>
<p>Historicamente, em parte do mundo e especialmente no Brasil, adotou-se o que chamamos de “sistema separador”. Nele, a água da chuva é direcionada para uma rede de drenagem, enquanto os esgotos sanitários são conduzidos por outra via, até estações de tratamento. No papel, essa separação física parece lógica, porém, a realidade urbana é muito mais complexa e misturas imprevistas acabam ocorrendo.</p>
<p>O problema se agrava quando consideramos que apenas 63,2% da população urbana brasileira tem acesso à rede de esgoto. E somente 50,8% do esgoto coletado recebe tratamento, <a href="https://www.gov.br/cidades/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/saneamento/snis">segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento</a>.</p>
<p>No entanto, mesmo em grandes cidades brasileiras com melhor cobertura de saneamento, é comum haver subdimensionamento das redes ou conexões clandestinas que permitem a infiltração de água pluvial no sistema de esgoto sanitário. Isso aumenta a sobrecarga hidráulica das redes, favorecendo extravasamentos que contaminam a superfície urbana.</p>
<p>O oposto também ocorre com frequência. Esgoto sanitário acaba atingindo as redes de drenagem das chuvas, que normalmente despejam seus fluxos sem tratamento. Tudo isso impacta gravemente o ambiente urbano e a saúde da população, exposta a águas contaminadas. Esses fluxos alcançam rios, lagoas e zonas costeiras, agravando a poluição hídrica.</p>
<p>Ou seja, a inexistência de planejamento, gestão e operação integrados faz com que sistemas dimensionados para serem fisicamente separados, passem a operar, na prática, como sistemas mistos, marcados por sua disfuncionalidade e ineficiência.</p>
<h2>Entraves técnicos e institucionais</h2>
<p>As pesquisas na área evidenciam ainda um descompasso recorrente entre os avanços normativos e sua efetiva implementação. Embora legislações nacionais e internacionais reconheçam a necessidade de uma gestão integrada, frequentemente faltam metas claras, responsabilidades institucionais bem definidas e instrumentos adequados de monitoramento.</p>
<p>No Brasil, o <a href="https://marcolegal.aguaesaneamento.org.br/entenda-o-marco-legal/">marco legal do saneamento</a> trouxe avanços significativos ao estabelecer algumas soluções integradas para lidar com irregularidades. Ainda assim, há pouca clareza sobre como corrigir sistemas disfuncionais. O mesmo vale para as diretrizes sobre a gestão das interseções entre as duas redes, que costumam estar sob a responsabilidade de órgãos ou empresas distintas.</p>
<p>Esse vazio técnico e institucional contribui para distorções e dificulta a adoção de soluções que também sejam sustentáveis do ponto de vista administrativo. As redes podem existir fisicamente, mas operar de forma inadequada, criando uma falsa percepção de eficiência e de cobertura dos serviços. Indicadores oficiais, portanto, podem mascarar déficits reais de atendimento e riscos sanitários.</p>
<h2>Uma proposta de integração</h2>
<p>Dentro desse panorama, <a href="https://iwaponline.com/wst/article/90/1/190/103265/MODCEL-MHUS-a-comprehensive-multilayer">desenvolvemos uma pesquisa, publicada recentemente na revista Water Science and Technology</a>, na qual aplicamos um novo método de simulação capaz de representar, de forma integrada, três camadas fundamentais do território urbano: a superfície (ruas, lotes, espaços abertos), a rede de drenagem das chuvas e a rede de esgotamento sanitário.</p>
<p>O modelo permite capturar as interações reais entre esses sistemas, inclusive em situações de falha. Desenvolvemos uma métrica chamada de “transbordamento combinado não previsto”, que avalia justamente os momentos em que sistemas formalmente separados passam a se comportar como mistos durante eventos críticos.</p>
<figure class="align-left zoomable">
<a href="https://images.theconversation.com/files/711473/original/file-20260108-66-l8xxhg.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=1000&fit=clip"><img alt="" src="https://images.theconversation.com/files/711473/original/file-20260108-66-l8xxhg.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=237&fit=clip" srcset="https://images.theconversation.com/files/711473/original/file-20260108-66-l8xxhg.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=600&h=1067&fit=crop&dpr=1 600w, https://images.theconversation.com/files/711473/original/file-20260108-66-l8xxhg.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=600&h=1067&fit=crop&dpr=2 1200w, https://images.theconversation.com/files/711473/original/file-20260108-66-l8xxhg.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=600&h=1067&fit=crop&dpr=3 1800w, https://images.theconversation.com/files/711473/original/file-20260108-66-l8xxhg.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&h=1341&fit=crop&dpr=1 754w, https://images.theconversation.com/files/711473/original/file-20260108-66-l8xxhg.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=754&h=1341&fit=crop&dpr=2 1508w, https://images.theconversation.com/files/711473/original/file-20260108-66-l8xxhg.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=754&h=1341&fit=crop&dpr=3 2262w" sizes="(min-width: 1466px) 754px, (max-width: 599px) 100vw, (min-width: 600px) 600px, 237px"></a>
<figcaption>
<span class="caption"></span>
</figcaption>
</figure>
<figure class="align-left zoomable">
<a href="https://images.theconversation.com/files/711471/original/file-20260108-66-p2yrbn.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=1000&fit=clip"><img alt="" src="https://images.theconversation.com/files/711471/original/file-20260108-66-p2yrbn.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=237&fit=clip" srcset="https://images.theconversation.com/files/711471/original/file-20260108-66-p2yrbn.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=600&h=1067&fit=crop&dpr=1 600w, https://images.theconversation.com/files/711471/original/file-20260108-66-p2yrbn.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=600&h=1067&fit=crop&dpr=2 1200w, https://images.theconversation.com/files/711471/original/file-20260108-66-p2yrbn.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=600&h=1067&fit=crop&dpr=3 1800w, https://images.theconversation.com/files/711471/original/file-20260108-66-p2yrbn.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=45&auto=format&w=754&h=1340&fit=crop&dpr=1 754w, https://images.theconversation.com/files/711471/original/file-20260108-66-p2yrbn.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=30&auto=format&w=754&h=1340&fit=crop&dpr=2 1508w, https://images.theconversation.com/files/711471/original/file-20260108-66-p2yrbn.jpeg?ixlib=rb-4.1.0&q=15&auto=format&w=754&h=1340&fit=crop&dpr=3 2262w" sizes="(min-width: 1466px) 754px, (max-width: 599px) 100vw, (min-width: 600px) 600px, 237px"></a>
<figcaption>
<span class="caption">Contribuição de esgoto sanitário na rede de drenagem identificada pelo pesquisador.</span>
<span class="attribution"><span class="source">Foto: Antonio Krishnamurti.</span></span>
</figcaption>
</figure>
<p>Aplicamos o modelo em um estudo de caso no bairro de Campo Grande, na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. Diversas partes do município <a href="https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2024/01/16/historico-de-enchentes-do-rj-tem-mais-de-500-anos-ja-perdi-as-contas-de-quantos-guarda-roupas-comprei-diz-baba-que-perdeu-tudo.ghtml">possuem um histórico de inundações severas</a>, mas optamos por uma escala menor para facilitar os ajustes do método.</p>
<p>Seguimos os relatos dos moradores da região, que indicavam transbordamentos de águas contaminadas durante chuvas intensas. As simulações confirmaram a existência de ligações irregulares entre os sistemas de drenagem e esgotamento sanitário.</p>
<p>A ferramenta possibilitou um diagnóstico detalhado dos sistemas locais. Identificou diversos pontos de interação entre as redes, destacou os mais críticos, estimou volumes de extravasamento de águas contaminadas e mapeou áreas de maior contaminação.</p>
<p>Também fizemos uma modelagem da qualidade da água, com um indicador amplamente usado para medir poluição, conhecido como <a href="https://qualidadedaagua.ana.gov.br/dbo.html">demanda bioquímica de oxigênio (DBO)</a>. Após temporais, os níveis de DBO aumentaram significativamente, tanto na superfície urbana quanto no rio Prata do Cabuçu, onde as redes de drenagem desembocam.</p>
<h2>Próximas etapas</h2>
<p>Acreditamos que essa pesquisa aponta caminhos promissores. Pretendemos ampliar a aplicação do método em outras cidades com diferentes padrões de urbanização e precipitação. Também queremos incorporar simulações de longo prazo e incertezas associadas às mudanças climáticas.</p>
<p>Além disso, planejamos usar o modelo para avaliar projetos de <a href="https://sites.usp.br/gipsbn/solucoes-baseadas-na-natureza/">soluções baseadas na natureza</a>. Acreditamos que ele será muito útil para medir o real impacto de ações como <a href="https://ecotelhado.com/blog/bacia-de-detencao-x-bacia-de-retencao-principais-diferencas/#:%7E:text=Principais%20diferen%C3%A7as%20entre%20bacias%20de,os%20volumes%20ultrapassam%20determinada%20altura.">bacias de retenção e detenção</a> e <a href="https://www.inctsbn.com/post/wetlands-constru%C3%ADdos">wetlands construídos</a>, que buscam reter, atrasar e tratar parte da água proveniente de sistemas de saneamento disfuncionais.</p>
<p>Além das lacunas técnicas, as evidências que reunimos deixam claro que a fragmentação entre setores do saneamento reflete uma lógica administrativa que já não acompanha a complexidade das cidades atuais. É necessário adotar uma abordagem mais sistêmica de planejamento urbano, voltada à prevenção de riscos. Para isso, é essencial considerar as condições reais dos territórios e a vivência cotidiana da população, especialmente em áreas periféricas e informalmente urbanizadas.</p>
<p>Esperamos que essa ferramenta contribua para o desenvolvimento de políticas públicas melhores, condizentes com os desafios urbanos do século XXI. Ao repensar como as cidades governam suas águas, podemos tornar as cidades mais resilientes, sustentáveis e justas.</p><img src="https://counter.theconversation.com/content/272997/count.gif" alt="The Conversation" width="1" height="1" />
<p class="fine-print"><em><span>Antonio Krishnamurti Beleño de Oliveira não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.</span></em></p>Pesquisa mostra que a gestão separada de esgoto sanitário e água da chuva é ineficaz em cidades e simula aprimoramentos práticosAntonio Krishnamurti Beleño de Oliveira, Professor de Engenharia Civil e Ambiental, PUC-RioLicensed as Creative Commons – attribution, no derivatives.