Ir para o conteúdo

Milton Hatoum

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Milton Hatoum
Milton Hatoum em 2024
Nascimento19 de agosto de 1952 (73 anos)
Manaus, Amazonas
ResidênciaSão Paulo
Nacionalidadebrasileiro
CidadaniaBrasil
Etnialíbano-brasileiro
Alma mater
Ocupaçãoescritor
DistinçõesPrémio Jabuti 1990

2006
Prêmio Portugal Telecom de Literatura (2006)
Ordem do Mérito Cultural (2008)

Prix Roger Callois pour la Littérature (2018)
Obras destacadasDois Irmãos
Página oficial
http://www.miltonhatoum.com.br/

Milton Assi Hatoum ([aˈtũ]; Manaus, 19 de agosto de 1952) é escritor, tradutor, professor brasileiro [1] e membro da Academia Brasileira de Letras. Hatoum é considerado um dos grandes escritores vivos do Brasil.[2]

Hatoum ensinou literatura na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e foi professor visitante nas Universidade da Califórnia em Berkeley e na Sorbonne, em Paris. Escreveu sete romances: Relato de um Certo Oriente (1989), Dois Irmãos (2000), Cinzas do Norte (2005; este último vencedor do Oceanos - Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa e todos os três primeiros ganhadores do Prêmio Jabuti de melhor romance), Órfãos do Eldorado (2008), e os três volumes da trilogia O Lugar Mais Sombrio: A Noite da Espera (2017), Pontos de Fuga (2019) e Dança de Enganos (2025). Seus livros já venderam mais de 400 mil exemplares no Brasil e foram traduzidos em dezessete países, como a Itália, os Estados Unidos, a França e a Espanha.[3]

Em 2018 recebeu o Prêmio Roger Callois (Maison de l'Amérique Latine/PEN Club-França).[4] Em 2023, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Amazonas.[5]

Hatoum costuma em suas obras falar de dramas familiares com alcance histórico e político.[6] Em 14 de agosto de 2025, Hatoum é eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando à cadeira 6 com mais de 500 mil livros vendidos em diversos países.[4][5]

Biografia

[editar | editar código]

Primeiros anos

[editar | editar código]

Nascido numa família de origem libanesa, seu pai - Hassan Ibrahim Hatoum - nascera no Líbano. Sua mãe, Naha Assi, era uma amazonense de pais libaneses. Enquanto seu pai era muçulmano, sua mãe era cristã maronita.[7][8]

Hatoum mudou-se aos quinze anos de idade para Brasília. Anos mais tarde foi preso por participar de uma passeata contra o governo. Em 1970 mudou-se para São Paulo, onde ingressou, em 1972, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.[9] Foi perseguido ainda na FAU pelo DOPS da ditadura por participar do movimento estudantil. Em 1978, passou a lecionar História da Arquitetura na Universidade de Taubaté,[10] onde permaneceu até pedir o afastamento devido a uma bolsa de estudos que lhe havia sido concedida na Europa. Em 1980, viajou para a Espanha como bolsista do Instituto Iberoamericano de Cooperación. Viveu entre Madri e Barcelona. Logo depois, mudou-se para a França, onde cursou pós-graduação na Universidade de Paris III.[9]

Em 1984, Milton retornou a Manaus, onde passou a lecionar língua e Literatura francesa na Universidade Federal do Amazonas. Relato de um Certo Oriente foi publicado em 1989, quando ele tinha 37 anos.

Em 1999, mudou-se para São Paulo, onde iniciou o doutorado em Teoria Literária na USP.[11] Em 2000, desligou-se da Universidade Federal do Amazonas e do programa de Pós Graduação da USP para se dedicar exclusivamente à literatura. Onze anos após a publicação do primeiro romance, Milton publica Dois Irmãos. Foi colunista do Terra Magazine, da revista Entrelivros, do jornal O Globo e do jornal O Estado de São Paulo. Vem publicando também em jornais e revistas brasileiras e estrangeiras e dando cursos e palestras em escolas, universidades e instituições.

Em 2015, Órfãos do Eldorado estreia nos cinemas, com direção de Guilherme Coelho.[12] No mesmo ano, foi lançada a adaptação em quadrinhos de Dois Irmãos, feita pelos irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon. A HQ foi publicada em vários países e foi vencedora do prestigioso Prêmio Eisner na categoria "Best Adaptation from Another Medium".[13]

Em janeiro de 2017, Dois Irmãos estreou em formato de minissérie na TV Globo, com direção de Luiz Fernando Carvalho e o ator Cauã Reymond no papel dos irmãos gêmeos radicados em Manaus.[14]

Em 2023, é a vez de O Rio do desejo, uma adaptação do conto "O adeus ao Comandante", com direção de Sergio Machado.

Já em 2024, estreou a adaptação de Relato de um certo oriente para o cinema, com a direção de Marcelo Gomes.[15][16]

Em agosto de 2025, foi eleito para ocupar a cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo o jornalista Cícero Sandroni, que tem como patrono Casimiro de Abreu.[17]

Literatura

[editar | editar código]

Hatoum é conhecido por misturar experiências e lembranças pessoais com o contexto sociocultural da Amazônia e do Oriente.[2] Sobre o primeiro livro, assim ele explica: "No Relato de um certo Oriente há um tom de confissão, é um texto de memória sem ser memorialístico, sem ser auto-biográfico; há, como é natural, elementos de minha vida e da vida familiar. Porque minha intenção, do ponto de vista da escritura, é ligar a história pessoal à história familiar: este é o meu projeto. Num certo momento de nossa vida, nossa história é também a história de nossa família e a de nosso país (com todas as limitações e delimitações que essa história suscite)."[18]

O colunista Roberto Amorim considera a escrita de Milton possuidora de "uma linguagem caudalosa e envolvente que faz o leitor sentir a força da boa literatura."[2] Flora Sussekind observa que a prosa de Hatoum deixa de lado velhos temas típicos do regionalismo, como o conflito do homem com a natureza e os seringueiros e destaca o grande esforço técnico na estruturação de seu primeiro romance.[6]

Reputação

[editar | editar código]

A partir do romance Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum vem gozando de um reconhecimento muito grande por parte dos críticos e também dos leitores do seu país e do exterior.[18] O primeiro livro, assim como seu recente Órfãos do Eldorado, são considerados por diversos críticos como "obras-primas".[2] Milton já foi chamado de "O escritor que coleciona prêmios",[19] mas disse certa vez: "não escrevo para ganhá-los".[2] Foi considerado pelo crítico literário Luiz Costa Lima "um dos grandes ficcionistas do milênio".[6]

Bibliotecas

[editar | editar código]

Desde a infância, Hatoum sempre frequentou bibliotecas, que considera "um lugar democrático do saber, do conhecimento, na medida em que os livros transmitem saber, conhecimento, permitem viagens imaginárias".[20]

Novos trabalhos

[editar | editar código]

As novas obras de Milton Hatoum começam a ganhar novas fronteiras. Dois livros do escritor e um conto foram adaptados para o cinema, e Dois Irmãos ganhou uma minissérie exibida na TV Globo — além de uma versão em quadrinhos lançada há pouco tempo. Hatoum ainda trabalha num novo livro, O Lugar Mais Sombrio e diz, a ser levado ou não a sério, que, depois dessa publicação, não irá mais escrever, pois considera que não terá mais nada a dizer.[21]

  • Relato de um Certo Oriente. São Paulo: Cia. das Letras, 1989.
  • Dois Irmãos. São Paulo: Cia. das Letras, 2000.
  • Cinzas do Norte. São Paulo: Cia. das Letras, 2005.
  • Órfãos do Eldorado. São Paulo: Cia. das Letras, 2008.

Trilogia "O lugar mais sombrio"

[editar | editar código]
  • A Noite da Espera. São Paulo: Cia. das Letras, 2017.
  • Pontos de Fuga. São Paulo: Cia. das Letras, 2019.
  • Dança de Enganos. São Paulo: Cia. das Letras, 2025.

Contos e crônicas

[editar | editar código]
  • A cidade ilhada (livro de Contos). São Paulo: Cia. das Letras, 2009.
  • Um solitário à espreita (crônicas). São Paulo: Cia. das Letras, 2013.

Traduções

[editar | editar código]
  • Flaubert, Gustave. Três contos. [Por: Milton Hatoum & Samuel Titan Jr.]. São Paulo: Cosac & Naify, 2004. (Trois contes). Editora 34, 2019.
  • Said, Edward. Representações do intelectual. [Por: Milton Hatoum]. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. (Representations of the intellectual).
  • Sand, George. Esperidião. In: Contos de horror do século XIX, Companhia das Letras, São Paulo, 2005. (Spiridion).
  • Schwob, Marcel. A cruzada das crianças. Edição bilingüe (português/francês). São Paulo: Iluminuras, 1988. (La croisade des enfants). Editora 34, 2020.
  • "Nas Asas do Condor'. In: Pietro, Heloisa (Org). O livro dos Medos. São Paulo, Companhia das Letrinhas, 1998.
  • Sur les ailes du Condor. Paris, Seuil Jeunesse, 1998.
  • "Palavras de um peixe-boi". In: vários autores, Hoje é dia de festa, São Paulo, Companhia das Letrinhas, 2006.
  • Prêmio Jabuti de Melhor Romance, 1989 (Relato de um certo Oriente)
  • Finalista do Prêmio Litterario Instituto Italo-Latino Americano, XXLA-XI, Roma, Edizioni 1991-1992
  • Prêmio Jabuti de Melhor Romance, 3º lugar, 2001 (Dois Irmãos)
  • Finalista do Prêmio Multicultural do Estadão 2001 (Dois Irmãos)
  • Indicado para o Impac-Dublin Literary Award, 2010 - Long list (The Brothers)
  • Prêmio Portugal Telecom 2005 (Cinzas do Norte)
  • Grande Prêmio da Crítica/APCA 2005 (Cinzas do Norte)
  • Prêmio Jabuti de Melhor Romance 2006 (Cinzas do Norte)
  • Prêmio Jabuti Livro do Ano - Ficção, CBL, 2006 (Cinzas do Norte)
  • 2º Prêmio Bravo! de Literatura, 2006 (Cinzas do Norte)
  • Prêmio Jabuti de Melhor Romance, 2º lugar, 2009 (Órfãos do Eldorado)
  • Indicado para o Impac-Dublin Literary Award 2010 - Long list (Ashes of the Amazon)
  • Finalista do Prêmio Oceanos 2018 (A Noite da Espera)
  • Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2018 (A Noite da Espera)
  • Prêmio Juca Pato/Intelectual do ano, 2018, União Brasileira dos Escritores
  • Prix Roger Callois pour la Littérature Latino-Américaine - Maison de l´Amerique Latine/PEn Club France 2018

Referências

  1. da Enciclopédia Itaú Cultural, Editores (21 de novembro de 2023). «Milton Hatoum». Enciclopédia Itaú Cultural. Consultado em 6 de abril de 2024 
  2. a b c d e Amorim, Roberto. "Ler Milton Hatoum é sentir a força da literatura" (11/03/2008). TudoNaHora.com.br
  3. «Milton Hatoum, em KlickEscritores.com.br]. Acesso: 14 de março, 2009». Arquivado do original em 20 de novembro de 2008 
  4. a b «"TEMPO sombrio vai ser longo no Brasil", diz Milton Hatoum». Carta Capital. 13 de novembro de 2018. Consultado em 22 de abril de 2023 
  5. a b «UFAM concede título de Doutor Honoris Causa a Milton Hatoum. Cerimônia ocorre no dia 9 de março». Universidade Federal do Amazonas. 1 de março de 2023. Consultado em 22 de abril de 2023 
  6. a b c GONÇALVES, Dayane de Oliveira; GAMA, Mônica (1 de fevereiro de 2020). «Milton Hatoum e a ficção brasileira contemporânea». Universidade Federal da Grande Dourados. Raído. 14 (34): 77-88. Consultado em 22 de abril de 2023 
  7. Bruno Avelino Leal (2010). «Nas trilhas de Milton Hatoum: um breve estudo de uma trajetória intelectual (Dissertação de mestrado, UFAM)» 
  8. Gaitano Antonaccio (2000). A colônia árabe no Amazonas. [S.l.]: Manaus: TextoTexto. p. 330 
  9. a b STELLA, Marcello Giovanni Pocai (2021). «Milton Hatoum: um clássico contemporâneo». Universidade de São Paulo. Tempo Social: revista de Sociologia da USP. 33 (1): 267-285. Consultado em 22 de abril de 2023 
  10. «Universidade de Taubaté - UNITAU». www.unitau.br. Consultado em 12 de novembro de 2015 
  11. «Hatoum, Milton (1952). Enciclopédia Itaú Cultural Literatura Brasileira. Acesso: 14 de março, 2009» 
  12. MAUÉS, André (23 de março de 2016). «Órfãos do Eldorado, o filme que queria ser livro». Cineset. Consultado em 22 de abril de 2023 
  13. FORLANI, Marcelo (23 de julho de 2016). «Brasileiros Gabriel Bá e Fábio Moon ganham o prêmio Eisner, o Oscar dos Quadrinhos». Omelete. Consultado em 22 de abril de 2023 
  14. «Dois Irmãos vale cada segundo». Telepadi. 6 de janeiro de 2017. Consultado em 3 de abril de 2017 
  15. MEDEIROS, Wilker (25 de maio de 2022). «Novo filme de Marcelo Gomes, "Relato de um certo oriente", tem imagem revelada». CINEPOP. Consultado em 22 de abril de 2023 
  16. Guilherme Sobota (22 de novembro de 2024). «"Retrato de um certo oriente" estreia nos cinemas a partir de transcriação de livro de Milton Hatoum». PublishNews. Consultado em 20 de setembro de 2025 
  17. «Milton Hatoum é eleito para a ABL». G1. 14 de agosto de 2025. Consultado em 20 de setembro de 2025 
  18. a b «Entrevista – Milton Hatoum. Entrevista concedida a Aida Ramezá Hanania em 5-11-93. Transcrita e editada por ARH. Acesso: 14 de março, 2009» 
  19. Ventura, Mauro. O escritor que coleciona prêmios. O Globo, 03 set. 2006.
  20. «Um Escritor na Biblioteca: Milton Hatoum». Cândido. 2023. Consultado em 22 de abril de 2023 
  21. «Folha de S. Paulo - Milton Hatoum Lança Livro e Ganha Adaptações no Cinema, TV e HQ». 29 de março de 2015. Consultado em 29 de março de 2015 

Leitura adicional

[editar | editar código]
  • Carneiro, Flávio. "A casa, a memória, o rio". In: No país do presente: ficção brasileira no início do século XXI. Rio de Janeiro: Rocco, 2005, pp. 53-55.
  • Pellegrini, Tânia. Prosa brasileira: um difícil enigma. Jornal do Brasil, 05 abril 2008.
  • Iegelski, Francine. Tempo e Memória, Literatura e História: alguns apontamentos sobre Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar e Relato de um certo Oriente, de Milton Hatoum, 2006.
  • Chiarelli, Stefania. Na biblioteca de Hatoum: leituras de mediações. In: Chiarelli, Stefania, *Dealtry, Giovanna e Lemos, Masé (orgs.). Alguma Prosa. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007.
  • Carreira, Shirley. Diferença e alteridade em Cinzas do Norte, de Milton Hatoum. In: Revista Vertentes, São João del-Rei, n.34, p.20-28, jul./dez. 2009.
  • Carreira, Shirley. Imigrantes: a representação da identidade cultural em Relato de um certo Oriente e Amrik. In: Adelaide Clhman de Miranda [et al.] Protocolos críticos. São Paulo: Iluminuras, Itaú Cultural,2008.
  • Garcia, Mireille Marie. Milton Hatoum, Identités, territoires et mémoires. Rennes: Press Universitaires de Rennes, 2017.

Ligações externas

[editar | editar código]

Precedido por
Cícero Sandroni
ABL - sétimo acadêmico da cadeira 6
2025 – incumbente
Sucedido por

Precedido por
Nélida Piñon
Prêmio Jabuti - Melhor Livro de Romance
2006
Sucedido por
Carlos Nascimento Silva
Precedido por
Nélida Piñon
Prêmio Jabuti - Livro do Ano Ficção
2006
Sucedido por
Ferreira Gullar