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Lise Meitner

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Lise Meitner
Lise Meitner em 1946
Conhecido(a) porFissão nuclear
Nascimento
Morte
27 de outubro de 1968 (89 anos)

ResidênciaÁustria, Alemanha, Suécia e Reino Unido
Nacionalidadeaustríaca
Alma materUniversidade de Viena
PrêmiosPrêmio Lieben (1925), Prêmio de Ciências Naturais da Cidade de Viena (1947), Medalha Max Planck (1949), Prêmio Enrico Fermi (1966)
Carreira científica
Orientador(es)(as)Franz Serafin Exner e Ludwig Boltzmann[1]
Orientado(a)(s)Arnold Flammersfeld, Wang Ganchang, Nikolaus Riehl
InstituiçõesSociedade Kaiser Wilhelm, Universidade de Berlim
Campo(s)física
Tese1906: Wärmeleitung in inhomogenen Körpern
Assinatura
NotasFilha de Philipp Meitner, tia de Otto Frisch

Lise Meitner (Viena, 7 de novembro de 1878Cambridge, 27 de outubro de 1968) foi uma física austríaca que estudou radioatividade e física nuclear, tendo sido a descobridora da fissão nuclear.

Biografia

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Nascida em Viena em 1878, em uma época em que mulheres eram fortemente desencorajadas a seguir carreiras acadêmicas, Lise Meitner destacou-se desde cedo pela curiosidade e disciplina intelectual. Ela foi a segunda mulher a obter o doutorado em Física na Universidade de Viena, concluído em 1906 sob orientação de Ludwing Boltzmann. A entrada de mulheres no ensino superior austríaco era recente, e o feito de Meitner abriu caminho para outras jovens interessadas em ciência em um ambiente ainda marcado por exclusões de gênero.

Foi a terceira de oito filhos de uma família judaica. Entrou na Universidade de Viena em 1901, onde foi aluna de Ludwig Boltzmann. Após o doutoramento partiu para Berlim, em 1907, para estudar com Max Planck e o químico Otto Hahn. Trabalhou com Hahn durante trinta anos, cada um dirigindo um departamento do Instituto Kaiser Wilhelm de Berlim. Hahn e Meitner colaboraram entre si no estudo da radioatividade, ela com seu conhecimento de física e ele com seu conhecimento de química.

Lise Meitner e Otto Hahn

Em 1918 descobriram o elemento protactínio. Em 1923 Lise descobriu a transição não radioativa que passou a ser conhecida por efeito Auger, em honra a Pierre Auger, um cientista francês que descobrira independentemente o efeito, dois anos mais tarde.

Quando a Áustria foi anexada pela Alemanha em 1938, Meitner se viu forçada a fugir da Alemanha para a Suécia (via Países Baixos e Dinamarca), onde continuou seu trabalho no Instituto Manne Siegbahn em Estocolmo, porém com poucos recursos em parte devido ao preconceito de Siegbahn contra mulheres na ciência. Hahn e Fritz Straßmann deram continuidade ao trabalho iniciado anteriormente com Meitner. Hahn escrevia para Meitner descrevendo os resultados, e mais tarde encontraram-se clandestinamente em Copenhague, em novembro, para planejar uma nova rodada de experiências. As experiências químicas da evidência da fissão nuclear foram desenvolvidas no laboratório de Hahn em Berlim e publicadas em janeiro de 1939. Em fevereiro do mesmo ano, Meitner publicou através de uma carta à Revista Nature, junto com seu sobrinho Otto Frisch, quando esteve visitando-o na Dinamarca, a explicação física sobre o processo que denominou de fissão nuclear. Meitner provou que a divisão do átomo de Urânio (em átomos de Bário e Criptônio) libera energia e nêutrons, que por sua vez causam fissão em mais átomos liberando neutrões e assim sucessivamente, dando origem a uma série de fissões nucleares com liberação contínua de energia, num processo denominado reação em cadeia. Meitner reconheceu o potencial explosivo desse processo. Imediatamente esses resultados foram confirmados no mundo inteiro. Tal descoberta fez com que outros cientistas se juntassem para convencer Albert Einstein a escrever uma carta ao Presidente Franklin D. Roosevelt, alertando-o quanto aos riscos da Alemanha Nazista desenvolver a bomba nuclear, o que resultou no Projeto Manhattan.

Durante seus primeiros anos no Instituto Manne Siegbahn, em Estolcomo, enfrentou condições que não condiziam com sua reputação científica: recebeu apenas um cargo temporário e salário reduzido, com acesso limitado a recursos de pesquisa. Apesar dessas restrições, manteve sua produtividade científica, orientou estudantes e publicou artigos de importância internacional, mostrando resiliência em meio ao exílio.

Quando cientistas aliados iniciaram o Projeto Manhattan, Meitner foi convidada a colaborar, mas recusou. Defendia firmemente que a ciência deveria ter fins pacíficos e se negou a participar de qualquer esforço militar. Após destruição de Hiroshima e Nagasaki, declarou-se profundamente desolada, lamentando que a Fìsica nuclear tivesse sido usada como arma de destruição em massa.

Em 1944 Hahn recebeu o Prêmio Nobel de Química por sua pesquisa em fissão nuclear. Meitner foi ignorada pelo comitê (Siegmann fazia parte do comitê), principalmente porque Hahn não mencionou sua participação na pesquisa desde que ela deixou a Alemanha; muito pelo contrário, ele afirmou que seus experimentos químicos foram unicamente responsáveis por tal descoberta. Ajudantes de Meitner exigiram que fosse reconhecido que ela foi a primeira a provar através de seus cálculos a fissão nuclear, contudo não foi possível fornecer tal evidência para ajudá-la.

Apesar de sua contribuição decisiva para a compreensão da fissão nuclear, Meitner foi indicada mais de quarenta vezes ao Prêmio Nobel, tanto em Física quanto em Química, mas nunca chegou a ganhar. Historiadores da ciência apontam que sua condição de mulher, exilada e de origem judaica pesaram contra o devido reconhecimento. Esse episodio tornou-se um dos casos mais emblemáticos de injustiça na história do Nobel.

O erro cometido pelo instituto Nobel nunca foi reconhecido. Em setembro de 1966, a Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos concedeu o Prêmio Enrico Fermi a Hahn, Strassmann e Meitner por sua descoberta da fissão.

Em visita aos Estados Unidos em 1946, Meitner foi tratada como celebridade pela imprensa estado-unidense, como uma pessoa que "deixou a Alemanha com a bomba na bolsa". Ela foi eleita a "Mulher do Ano" pelo National Women’s Press Club (EUA) em 1946, e em 1949 recebeu a medalha Max Planck da Sociedade Alemã de Físicos.

O elemento 109 da tabela periódica foi nomeado "meitnério" (Mt) em sua homenagem pela IUPAC. Muitas pessoas consideram Lise Meitner a "mulher mais importante na ciência do século XX".

Participou da 7ª e 8ª Conferência de Solvay.

Religião e ética

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Apesar de ter nascido e crescido em uma família judaica, Meitner não se considerava judia e converteu-se ao protestantismo ainda jovem, tornando-se luterana e permanecendo assim pelo resto de sua vida, em parte para escapar dos preconceitos raciais e também dos que recaíam sobre mulheres dedicadas às atividades intelectuais.[2] Contudo, isso não a impediu de ser perseguida pelo regime nazista após a anexação da Áustria pela Alemanha em 1938, quando as leis raciais passaram a valer também para os austríacos. Mesmo assim, depois da guerra, fazia objeções ao ser identificada como judia.

Relações no trabalho

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Hans Hermann Hupfeld trabalhou no Instituto Kaiser Wilhelm, Berlin Dahlem, de 1929 até 1932 com o Prof. Otto Hahn e a Profa. Lise Meitner. Sua pesquisa durante esse período resultou na descoberta do efeito Meitner–Hupfeld, que acabou fazendo parte da base de pesquisas que evoluiu para o Modelo padrão. O Prof. Hupfeld é normalmente ignorado em relatos sobre a vida e obra da Profa. Meitner apesar de seu trabalho conjunto.

Falecimento

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Em 1948, meitner obteve a cidadania sueca. Aposentou-se oficialmente em Estocolmo em 1960, mas manteve-se ativa como conferencista e colaboradora científica. Nos últimos anos mudou-se para Cambridge, para estar próxima de seu sobrinho Otto Frisch, com quem havia trabalhado anteriormente na explicação da fissão nuclear. Mesmo idosa, continuou sendo reconhecida como referência ética e intelectual na comunidade científica.

Lise faleceu em 27 de outubro de 1968, aos 89 anos. Encontra-se sepultada em St James Churchyard, Hampshire na Inglaterra.[3]

Lise Meitner deixou um legado científico e social duradouro, sendo reconhecida como uma das pioneiras da física nuclear e uma das figuras mais importantes da ciência do século XX. Apesar de sua contribuição central na descoberta da fissão nuclear, ela não recebeu o Prêmio Nobel, que foi concedido exclusivamente a Otto Hahn em 1944. A ausência de reconhecimento formal na época gerou debates históricos sobre a marginalização de mulheres cientistas e sobre a injustiça enfrentada por Meitner devido a seu gênero e origem judaica.[4]

A trajetória de Meitner tornou-se um exemplo de resiliência e excelência científica diante de adversidades sociais e políticas. Durante o exílio na Suécia, continuou a colaborar com colegas internacionais, orientar jovens pesquisadoras e produzir trabalhos significativos em radioatividade e física nuclear. Sua postura ética e científica também serviu de referência em discussões sobre o uso de armas nucleares, já que Meitner recusou-se a participar de projetos militares, defendendo a aplicação pacífica da ciência.[5]

Ao longo das décadas seguintes, seu reconhecimento cresceu de forma póstuma. Instituições científicas passaram a nomear prêmios, laboratórios e conferências em sua homenagem, incluindo a Lise Meitner Prize da European Physical Society. Além disso, sua vida inspirou livros, documentários e exposições, destacando seu papel não apenas como cientista brilhante, mas também como símbolo da presença e perseverança feminina em STEM.[6]

O legado de Meitner é também pedagógico: sua história é frequentemente utilizada em cursos e seminários para discutir questões de gênero, ética científica e a importância da colaboração internacional na pesquisa científica. Assim, Lise Meitner permanece uma figura central para a memória histórica da física e para o incentivo à participação de mulheres na ciência, inspirando novas gerações a superar obstáculos e perseguir carreiras acadêmicas em ambientes desafiadores.[7]

Após sua morte, seu reconhecimento cresceu em escala mundial. Em 1997, a União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) batizou o elemento químico de número atômico 109 como meitnério (Mt) em sua homenagem. Além disso, conferências internacionais, prêmios científicos e até escolas passaram a carregar seu nome, como o Prêmio Lise Meitner da Sociedade Europeia de Física. Sua memória permanece viva como símbolo da perseverança feminina na ciência.

Publicações (seleção)

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Lise Meitner publicou 169 trabalhos,[8] dos quais uma pequena seleção é apresentada aqui:

  • Wärmeleitung in inhomogenen Körpern. Hölder in Kommission, Wien 1906, OCLC 162935454 (dissertação: do II. Instituto de Física da Universidade Imperial e Real de Viena, apresentada na reunião de 22 de fevereiro de 1906, 13 páginas).
  • Über die Absorption der α- und β-Strahlen. Phys. Z. Volume 7, 1906, S. 588–590.
  • com O. Hahn: Die Muttersubstanz des Actiniums, ein Neues Radioaktives Element von Langer Lebensdauer. Phys. Z. Volume 19, 1918, S. 208–218.
  • com O. Hahn: Über das Protactinium und die Frage nach der Möglichkeit seiner Herstellung als chemisches Element. Die Naturwissenschaften. Volume 7, Nr. 33, 1919, S. 611–612, doi:10.1007/BF01498184.
  • Über die b-Strahl-Spektra und ihren Zusammenhang com der g-Strahlung. Zeitschrift für Physik. Volume 11, 1922, S. 35–54.
  • Über den Aufbau des Atominnern. Die Naturwissenschaften. Volume 15, Nr. 16, 1927, S. 369–378, doi:10.1007/BF01504760.
  • Der Zusammenhang zwischen β- und γ-Strahlen. Ergebnisse der Exakten Naturwissenschaften. Nr. 3, 1924
  • com M. Delbrück: Der Aufbau der Atomkerne: natürliche und künstliche Kernumwandlungen. Berlim 1935.
  • com O. R. Frisch: Disintegration of Uranium by Neutrons: a New Type of Nuclear Reaction. Nature. Volume 143, 1939, S. 239–240, doi:10.1038/143239a0.
  • com O. Hahn: Atomenergie e Frieden. Schriftenreihe der Österr. UNESCO-Kommission. Frick, Wien 1954.
  • The status of women in the professions. Physics Today. Volume 13, Nr. 8, 1960, S. 16–21.
  • Wege und Irrwege zur Kernenergie. Naturwissenschaftliche Rundschau. Volume 16, 1963, S. 167–169.

Referências

  1. Lise Meitner (em inglês) no Mathematics Genealogy Project
  2. Lewin Sime, Ruth (1997). Lise Meitner: A Life in Physics. [S.l.]: University of California Press. ISBN 978-0520208605 
  3. Lise Meitner (em inglês) no Find a Grave[fonte confiável?]
  4. Stewart, Albert B.; Rife, Patricia (2000). «Lise Meitner and the Dawn of the Nuclear Age». The Antioch Review (2). 240 páginas. ISSN 0003-5769. doi:10.2307/4614000. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  5. Guerlac, Suzanne (30 de novembro de 2021). «Duration». London: Routledge: 45–54. ISBN 978-0-429-02073-5. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  6. Wilson, R. R. (7 de março de 1980). «Physicist's Memoir: What Little I Remember . Otto R. Frisch. Cambridge University Press, New York, 1979. xii, 228 pp., illus. $14.95.». Science (4435): 1068–1068. ISSN 0036-8075. doi:10.1126/science.207.4435.1068.a. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  7. BARONE, VINCENZO (1996). «DANIEL J. KEVLES, The physicists: The history of a scientific community in modern America, Cambridge (MA), Harvard University Press, 1995 (ed. orig. 1977), 489 pp.». Nuncius (2): 740–743. ISSN 0394-7394. doi:10.1163/182539196x00303. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  8. bibliothek.bbaw.de - pdf

Precedido por
Max Born
Medalha Max Planck
1949
com Otto Hahn
Sucedido por
Peter Debye
Precedido por
Hyman Rickover
Prêmio Enrico Fermi
1966
com Otto Hahn e Fritz Straßmann
Sucedido por
John Archibald Wheeler

Ligações externas

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