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Eneida

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Eneida
Virgílio (Mosaico)
Autor(es)Virgílio
IdiomaLatim
PaísRoma Antiga
EditoraVárias
Lançamentoséculo I a.C.

Eneida (em latim: Aeneis) é um poema épico latino escrito por Virgílio no século I a.C. Conta a saga de Eneias, um troiano que é salvo dos gregos em Troia, viaja errante pelo Mediterrâneo até chegar à península Itálica. Seu destino era ser o ancestral de todos os romanos.[1]

Na Eneida, do poeta romano Virgílio (séc. I AEC), o destino surge como um poder maior, acima até do que os deuses desejam. Júpiter assegura que Roma será fundada segundo o projeto divino, apesar da oposição de Juno. O destino representa a ordem cósmica e política que justifica o império romano, tornando sagrada a missão de Eneias. As ações dos deuses (Juno, Vênus e Júpiter), mostram o conflito entre desejo e obrigação, mas o destino vence como vontade inevitável dos deuses e da história.

Uma epopeia por encomenda

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Eneias abandona Troia em chamas
Federico Barocci, 1598, Galleria Borghese, Roma

Virgílio já era ilustre pelas suas Bucólicas (37 a.C.), um poema pastoril, e Geórgicas (30 a.C.), um poema agrícola.[1] Então, o imperador Augusto encomendou-lhe a composição de um poema épico que cantasse a glória e o poder do Império Romano. Um poema que rivalizasse e quiçá superasse Homero, e também que cantasse, indiretamente, a grandeza de césar Augusto.[1] Assim Virgílio elaborou um trabalho que, além de labor linguístico e conteúdo poético, é também propaganda política.[1]

Muitos dos episódios na Eneida, que narra um tempo mítico, têm uma correspondência síncrona com a atualidade de Augusto. Por exemplo o escudo de Eneias, simbolizando a Batalha de Áccio, quando Otaviano derrotou Marco Antônio em 31 a.C. e a previsão de Anquises, no Hades, sobre as glórias de Marcelo, filho de Otávia, irmã do imperador.

Virgílio terminou de escrever Eneida em 19 a.C. A obra estava "completa" mas ainda não estava "pronta" segundo o seu criador. Virgílio gostaria ainda de visitar os lugares que apareciam no poema e revisar os versos dos cantos finais. Mas adoeceu e, às portas da morte, pediu a dois amigos que queimassem a obra por não estar ainda "perfeita". O grande poema, já conhecido de alguns amigos coevos, não foi destruído. Sem a epopeia virgiliana, não haveria Orlando Furioso, O Paraíso Perdido, Os Lusíadas, dentre outros grandes clássicos da literatura mundial.

A Emulação em Virgílio

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O ato de emular pode ser definido como: 1. competir ou rivalizar com; 3. tomar (algo ou alguém) como exemplo, procurando igualar-se [...] [2]. No contexto da literatura e retórica latina, compreende-se que “os discursos não são a expressão do conceito, mas o conceito expresso”[3], ou seja, bons discursos expressam os mesmos conceitos de formas inovadoras, e quando excelentes, se tornam modelos para as expressões sucessoras, que passam a emular esses mesmos modelos.

Em Virgílio, os modelos de excelência são as obras de Homero, a Ilíada e a Odisseia. Assim, sua ambição com a Eneida é emulá-las de forma a não só igualar-se em qualidade técnica, mas superá-las com o engenho, labor criativo que gera as diferenças entre a obra invejada e a obra nova. Essas diferenças fazem com que o “novo-repetido” não só gere no público semelhança em prazer quanto ao encontrado na obra invejada, mas a supere, fazendo com que seus tipos se encaixem mais e melhor no tropo emulado.

Na Eneida, a emulação se expõe sutilmente nas muitas “inversões, misturas e variações”[4] das suas semelhanças ilusórias com as obras homéricas. É justamente a estranheza causada pela repetição em versão variada, a sensação de déjà vu, que atua para que o leitor acesse as referências que alimentam o poema.

Algumas das instâncias em que se percebe o aceno as outras épicas são:

[1] A ordem dos acontecimentos centrais e temáticos do enredo: na Odisseia, a viagem se dá depois da destruição de uma cidade, enquanto na Eneida a viagem se dá para que se estabeleça uma cidade, justaposição explicitada nos versos abaixo:

"O homem multiversátil, Musa, canta, as muitas errâncias, destruída Tróia, pólis sacra, [...]" (Hom. Od. I 1-2; tradução de Trajano Vieira)

"As armas e o varão canto que, [...] por muito tempo nos mares e em terras vagou [...] para as bases lançar da cidade [...]" (Virg. Aen. I 1-4; tradução de Carlos Alberto Nunes)

[2] A ordem das obras a que pertencem as referências: pode-se dizer que enquanto a primeira parte da Eneida emula a Odisseia, a segunda parte da epopeia de Virgílio emula a Ilíada. Nisto, percebe-se a confusão intencionalmente provocada, visto que a Odisseia é, essencialmente, a sequência da Ilíada. O gênio em primeiro referenciar a obra mais recente é indiscutível, mas a forma como isso foi realizado demonstra domínio total das referências e completa confiança em seu engenho.

Essa mistura é percebida, por exemplo, na ordem e características das invocações encontradas na Eneida. Na primeira invocação, é rememorada a invocação da Odisseia, enquanto nas cinco seguintes são rememoradas as invocações da Ilíada. O Profº Drº Marcos Martinho dos Santos explica como isso ocorre para além do conteúdo das invocações:

"[...] Daí, que a primeira invocação da Eneida seja interpelação singular da Musa, e das outras cinco seja uma interpelação plural das Musas, lembra, também respectivamente, a invocação da Odisséia, que é interpelação singular da Musa, e as invocações da Ilíada, de que quatro são interpelações plural das Musas." (SANTOS, M. M. dos. LETRAS CLÁSSICAS, nº 5, p. 171)

Hoje, para o leitor comum, desavisado, as referências estão há alguns, muitos, milhares de anos de distância, e, contudo, a genialidade não passa despercebida. Mais genial ainda na época de publicação da epopeia, quando todas essas obras estavam vivas no imaginário popular e eram de fácil acesso.

Personagens

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Há dois tipos de personagens na Eneida: os "humanos" e os "deuses". Há uma espécie de terceira entidade que é a do Fatum (Fado, destino) que nem os deuses podem obliterar.

Eneias ferido por uma flecha, curado pelo médico Iapige, com o filho Ascânio e assistido por Vênus
Pintura em parede, século I a.C., Pompeia, atualmente no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles

A Eneida tem doze capítulos — a metade do número de capítulos da Odisseia.

  • Apolo — deus do Sol, da profecia, da poesia, das artes, da música, da cura, da justiça, da lei, da ordem, do tiro ao alvo e da peste
  • Éolo — deus dos ventos
  • Juno — mulher de Júpiter, opositor de Eneias
  • Júpiter — rei dos deuses
  • Mercúrio — deus mensageiro
  • Neptuno — deus dos mares
  • Vénus — deusa do amor e da beleza, coadjuvante de Eneias

Tempo da diegese

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O tempo da diegese, ou seja, dos acontecimentos narrados, ocorre imediatamente após a queda da cidade de Troia, portanto a Eneida dá continuidade à Ilíada de Homero. Se a Odisseia narra as aventuras de um grego, de Ulisses (ou Odisseus), que tenta voltar para a sua casa e para a sua família, a Eneida narra as aventuras de um troiano que, depois da destruição de Troia, foge com a sua família. A sua fuga dá-se por mar. Eneias procura um sítio para fundar uma nova cidade.

Tempo do discurso

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Quando o texto começa, a aventura de Eneias já se iniciou (a narrativa começa in medias res, isto é, a meio da acção). O herói naufraga ao largo de Cartago (a actual Tunes) e vai ter com a rainha Dido. Conta-lhe as suas viagens até ao momento em que se encontra. Esse é um processo de analepse (em inglês, flashback). A partir do quarto capítulo, o tempo da diegese é contemporâneo ao da narração do poema, ou seja os acontecimentos são narrados como se estivessem acontecendo no presente.

Estrutura da Obra

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O Proêmio (I, 1-11): Estrutura e Programa

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O Proêmio da Eneida, que compreende os versos I, 1-11, atua como o programa narrativo e ideológico de todo o poema de Virgílio. Sua função é dupla e essencial para o gênero épico: anunciar o tema e invocar a divindade. A estrutura, portanto, divide-se em duas partes principais, conforme análise de Jones e Vasconcellos.

A Proposição Propositio (versos 1-7)

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Nesta primeira parte, o poeta anuncia o que será cantado. Virgílio começa com a célebre declaração: "Arma virumque cano..." (As armas e o varão eu canto), utilizando uma concisa metonímia para apresentar os temas do conflito (arma, a guerra) e do herói (virum, o varão). Essa escolha é altamente programática, pois sugere que a Eneida será uma combinação dos dois grandes épicos gregos de Homero: o tema da guerra (a Ilíada) e o tema da viagem (a Odisseia). O propósito final do herói, Eneias, é imediatamente estabelecido: fugir de Troia e fundar o povo que daria origem a Roma, cumprindo seu destino (Fatum).

A Invocação Invocatio (versos 8-11)

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A segunda parte, que é a *Invocação, ocorre quando Virgílio invoca a Musa (a deusa inspiradora) para obter auxílio e, de forma mais crucial, para que lhe sejam reveladas as causas (causae) do sofrimento do herói. É aqui que o poeta introduz o motor da narrativa: a implacável ira de Juno (saevae memorem Iunonis ob iram). Ao questionar por que uma deusa possui rancor tão feroz contra um herói piedoso, Virgílio estabelece que o drama de Eneias e a fundação de Roma serão marcados pela interferência e oposição divina. Em suma, o Proêmio não é apenas um início; ele é o contrato de leitura que estabelece o enredo, a temática dual (guerra e viagem) e a moldura teológica (destino e ira divina) que conduzirão o épico até seu clímax.

[5]

Capítulos ou cantos

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Entretanto, o céu começa a misturar-se com grande ruído; segue-se uma tempestade com granizo misturado, e, dispersando-se por toda a parte, os companheiros Cartagineses e a juventude troiana e o neto dardânio de Vénus, com medo, procuraram abrigos espalhados pelos campos; as torrentes precipitam-se das montanhas.

— Vergílio, Eneida, IV, vv. 160-164 (Virgil. Eclogues, Georgics, Aeneid, I-VI), H. R. Fairclough (trad.), Cambridge, Massachusetts, Harvard University Press, 2006, p. 432., Interea magno misceri murmure caelum
incipit; insequitur commixta grandine nimbus,
et Tyrii comites passim et Troiana iuuentus
Dardaniusque nepos Veneris diuersa per agros
tecta metu petiere; ruunt de montibus amnes. (em latim)

Embora seja organizada em doze cantos, a Eneida apresenta uma estrutura dividida em duas grandes partes que dialogam diretamente com seus modelos homéricos. Por isso, muitos estudiosos entendem o poema como um “gênero misto”, que reúne e adapta elementos da Odisseia e da Ilíada.

A primeira metade (Livros 1–6) é considerada “odisseica”, pois acompanha a viagem de Eneias desde a queda de Tróia até sua chegada ao Lácio, retomando o modelo narrativo da Odisseia. Já a segunda metade (Livros 7–12) é chamada de “iliádica”, por narrar a guerra travada na Itália para o estabelecimento dos troianos, em diálogo com o enredo bélico da Ilíada.

Segundo Santos (2001), além dessa divisão, Virgílio também altera a ordem dos modelos homéricos: enquanto Homero narra primeiro a guerra (Ilíada) e depois a viagem (Odisseia), a Eneida apresenta primeiro a viagem e depois a guerra. Essa inversão é essencial para compreender como o poema foi composto e como ele se posiciona dentro da tradição épica.[6]

I - Eneias naufraga ao largo de Cartago

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Depois de partir da Sicília, Eneias é arrastado por uma tempestade que o faz naufragar. Eneias observa a cidade. Ele que vem de Troia que fora totalmente arrasada e que tem por missão fundar uma nova cidade. É recebido por Dido, rainha de Cartago. Comove-se ao ver os afrescos nas paredes que narram a guerra de Troia. Dido começa a apaixonar-se por Eneias.

II- Eneias narra a Dido o último dia de Troia

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Dido solicita a Eneias que lhe relate a queda da lendária cidade de Troia. Ele conta o célebre episódio do Cavalo de Troia. Relata os momentos que antecedem a tragédia Troiana, e cita a história do Sacerdote Laocoonte, que adverte e sinaliza ao povo troiano que não se deveria aceitar nada dos gregos, inclusive presentes. Ele intuía que os gregos estariam escondidos ali ou teriam feito algo grande para destruí-los mas é ignorado. Lacoonte é atacado por duas serpentes, que matam brutalmente o sacerdote e sua família. O povo de Tróia interpreta isso como uma confirmação de que ele estava errado e deveriam aceitar o presente. Assim decidem levar o cavalo para dentro das muralhas.

A partir da entrada do grande Cavalo, Eneias conta como se deu a batalha durante a noite e como o incêndio começou a devorar a cidade. No desespero, Eneias decide lutar até morrer. Vênus, sua mãe, aparece e lhe diz: "vai procurar o teu pai, a tua mulher e teu filho e abandona a cidade".

A cidade é tomada pelos gregos. Enéias procura sua mulher, Creúsa, gritando pelas ruas à sua procura. Encontra o espectro dela. Com muita ternura o fantasma de Creúsa diz-lhe uma profecia: "que ele irá ter muitos infortúnios mas acabará por conseguir fundar uma nova cidade"

Eneias consegue fugir com o seu pai às cavalitas e com o seu filho pela mão.

III- Eneias narra a Dido as suas viagens rumo à Itália

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Eneias continua a contar a Dido as suas peripécias para chegar à península Itálica, até aportar em Cartago temporária e acidentalmente. Conta a sua escala na Trácia e em Creta. A chegada a Epiro e à Sicília. Conta também seu encontro com Andrômaca (viúva de Heitor) e como faleceu o seu pai Anquises.

IV- Os amores de Dido e seu fim trágico

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Morte de Dido
Heinrich Friedrich Füger, 1792, Hermitage, São Petersburgo

A rainha Dido, segundo a Eneida de Virgílio, após ouvir a narração do fim de Troia e das viagens e peripécias de Eneias, influenciada por Vênus, deusa do amor e mãe de Eneias, vê-se completamente apaixonada pelo herói. Ela convida os troianos (Eneias e seus companheiros) para uma caçada. No meio de uma tempestade, abrigados em uma caverna, Dido e Eneias se amam. Entretanto Júpiter envia Mercúrio a Eneias para lhe lembrar que seu destino é encontrar o Lácio e fundar uma nova cidade que substitua a cidade de Troia destruída e que governe as demais cidades do mundo. Eneias tenta sair de Cartago sem que Dido se aperceba. Sentindo-se abandonada, enganada e vilipendiada, furiosa e ensandecida pelo amor não retribuído, ela se suicida enquanto partem os navios troianos e Eneias ainda pôde ver a fumaça da pira funérea saindo de seu palácio.

V- Os jogos fúnebres

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Eneias aporta à Sicília e decide realizar jogos fúnebres em honra de seu pai Anquises. Já se passou um ano desde que este morreu.

(Este capítulo é importante para quem estuda a antropologia dos romanos porque dá indicações de como eles se relacionavam com a morte.)

VI- Descida de Eneias ao Mundo dos Mortos

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Eneias e a sibila de Cumas
William Turner

Este é um dos episódios mais famosos da Eneida. Depois de Eneias ter partido da Sicília fez escala em Cumas. Nesse local consulta uma sacerdotisa (uma sibila — antes o termo era empregado como nome próprio e com o tempo passou a ser usado como comum para todas aquelas que servissem a um deus) de Apolo. Ele tem um desejo intenso (em sonhos seu pai o havia conclamado a fazê-lo) de falar uma última vez com seu pai para lhe pedir conselho sobre a viagem. Obtém permissão de descer ao mundo dos mortos (este episódio faz lembrar outras descidas famosas ao mundo dos mortos: o episódio de Orfeu e Eurídice, a nekya de Odisseu, no canto XI da Odisseia. No mundo dos mortos vê vários espectros. Um deles o de Dido que, ladeada por seu primeiro esposo, não lhe responde.

O seu pai Anquises dá-lhe importantes informações sobre a sua viagem e faz uma longa profecia sobre o futuro glorioso de Roma.

VII- Chegada ao Lácio

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(Latium (Lácio), província romana onde Roma se situará).

Após a atribulada viagem de Enéias, este finalmente chega à Itália. Ao chegar, se encontra com Latino, rei do Lácio, ao qual pede abrigo e hospitalidade. O rei recebe Eneias e oferece-lhe a mão de sua filha única, Lavínia, herdeira do trono. Turno, rei dos rútulos apaixonado pela princesa, opõe-se à união. Juno aparece em um sonho de Turno e instiga-o a guerrear contra Eneias.

VIII- Evandro. Descrição do escudo de Eneias

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O canto VIII começa com o rio Tibre a falar com Eneias, que lhe diz que deverá fazer aliança com Evandro e o seu povo. Eneias e os troianos são recebidos por Evandro com um banquete de consagração a Hércules, Evandro conta a história do monstro Caco. Evandro leva Eneias a uma visita guiada, mostrando-lhe a cidade. Vénus suplica armas a Vulcano, seu marido. Vulcano forja então o escudo de Eneias (remetendo-nos para o episódio do escudo de Aquiles, da Ilíada de Homero). Um relâmpago dá o sinal das armas de Eneias. Palante, filho de Evandro vai então para a guerra com Eneias. Evandro suplica aos deuses que não permitam que o seu filho morra. Vénus leva as armas a Eneias. É-nos dada a descrição do escudo de Eneias, e o troiano aparece como vencedor da batalha de Áccio.

IX- Ataque ao acampamento troiano

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Turno aproveita a ausência de Eneias e assalta o seu acampamento. Episódio admirável de amizade entre Euríalo e Niso. Turno entra na cidade pelo portão, e luta até ao rio Tibre, para o qual é forçado a saltar ainda armado, e nada até ao seu acampamento.

X- Façanhas e morte de Palante

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Júpiter convoca um concílio dos deuses. Aquando do retorno de Eneias, há uma batalha sangrenta. Turno mata Palante.

XI- Funerais dos guerreiros. Façanhas de Camila

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XII- Combate de Eneias e de Turno. Vitória de Eneias

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Turno desafia Eneias para um combate singular. Os termos são aceites, mas Juturna provoca um tumulto entre os latinos, e Eneias é ferido. Vénus o cura de forma milagrosa, e Turno é forçado a duelar; o poema conclui com a morte deste.

Simbologias da Eneida

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Eneias na corte de Latino
Óleo em tela de Ferdinand Bol, 1661-1663 ca, Rijksmuseum, Amsterdam

A Eneida simboliza o poder do Império Romano, sob o comando de Augusto.

Dido simboliza o poder de Cartago, rival de Roma, que seria por esta destruída na Terceira Guerra Púnica. Dido também simboliza Cleópatra, rainha do Egipto, que se tinha aliado a um general romano, Marco António, para resistir a Roma. Marco António e Cleópatra foram derrotados na batalha de Áccio, ao largo do delta do Nilo e o Egito transformado em província romana. Dido simboliza assim a mulher misteriosa e sedutora do Oriente, que resiste ao poder romano mas que por ele é submetida. Por metonímia simboliza todo o Médio Oriente e Norte de África, que foram as últimas terras a serem conquistadas pelo Império Romano.

Turno simboliza os antecedentes latinos da "raça" romana, enquanto Eneias simboliza os antecedentes troianos (que são ficcionais). Eneias é uma personagem que permite dar a Roma uma ascendência mítica, juntando-se assim ao mito da fundação de Roma por Rómulo e Remo.

Vênus, mãe de Eneias, traduz o amor em força protetora e divina, assegurando que o destino de Roma seja cumprido. Juntos, eles expressam o movimento de tradução entre tempos, culturas e valores, no qual o passado é continuamente transformado em promessa de futuro. Ela simboliza o amor e a proteção divina. Vênus é também símbolo da mediação entre o humano e o divino, pois, ao intervir em favor do filho, assegura que o destino traçado pelos deuses se cumpra. Além disso, ela expressa a beleza e a fertilidade que dão continuidade à vida e, também, a história. [7]

Repercussões literárias da Eneida

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Dante Alighieri, no seu famoso episódio da descida aos infernos, é levado pela mão de Virgílio para ver os mesmos.

Luís de Camões inspira-se directamente neste grande épico romano para escrever os seus Os Lusíadas.

A CAPCOM inspira-se no autor para criar a personagem Vergil do jogo, Devil May Cry. E posteriormente em 2012 no jogo Resident Evil Revelations pode-se encontrar várias referências ao livro, além de citações diretas e ainda é possível ver um dos personagens a ler o livro.

Sêneca cita frequentemente Virgílio em seus textos, especialmente em suas Cartas a Lucílio. [8]

Mistura genérica na Eneida

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O relacionamento entre Dido e Eneias, narrado no livro IV da Eneida, constitui um dos exemplos mais representativos do tópos literário do amor trágico, recorrente em obras épicas como a Ilíada (Heitor e Andrômaca) e as Argonáuticas (Jasão e Medeia).Essa parte da narrativa apresenta características do amor trágico e elegíaco. A linguagem e tópica (lugares-comuns) do livro colocam a Dido na posição de amator (amante) das elegias augustanas, que se apaixona por Eneias e comete suicídio ao ser abandonada pelo troiano.[9]

A função do amor trágico no livro IV da Eneida se desdobra em duas camadas: intranarrativa e extranarrativa. O primeiro, intranarrativo, se estabelece pelo malfadado amor entre Dido e Eneias, característico do tópos do amor trágico, marcado por elementos recorrentes como paixão, perda, renúncia e a impossibilidade da realização amorosa, e que, como um tópico presente nas narrativas épicas, serve também como um obstáculo à jornada do herói. Tanto que, do livro I ao VI, ocupa-se da construção do ἦθος (éthos) heroico de Eneias e, quando o herói recusa a permanecer com a rainha e partir de Cartago à Itália, mostra que seu destino é ser o fundador de Roma, próprio de um herói épico e não um amante elegíaco.[10] Há um atrito entre a épica, encarnado nos valores de Eneias, e a poesia trágica e elegíaca, pela qual Dido sucumbe.[9] O herói, destinado a partir e cumprir os deveres impostos pelos deuses, ocasiona a ira e amargura de Dido que se vê abandonada:

Dido decide se matar. Faz construir uma pira à qual se juntam as armas deixadas por Eneias e o leito em que se deitaram, que Dido, certa de que houve entre eles um casamento, chama de "leito conjugal" (lectumque iugalem, 496). Ao ver o troiano partir, Dido, no auge do furor, invoca os deuses para que vinguem a perfídia de Eneias. (VASCONCELLOS, 2014, p. 55)[9]

Em nível extranarrativo, Virgílio utiliza a imagem mítica e a maldição lançada por Dido na narrativa para justificar o contexto histórico da rivalidade entre Cartago e Roma (as chamadas Guerras Púnicas). Desse modo, o retrato de Dido a partir de convenções genéricas da elegia, como “mísera, ferida, infeliz, insana, ociosa, irada”, parece também estar em função do projeto de Virgílio de estabelecer a história romana no mito, justificando o empenho dos cartagineses na luta contra os romanos por um desejo de vingança fundado na frustração amorosa. [10]

Traduções

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Em verso, há as seguintes traduções da Eneida:

A Eneida de P. Vergílio Marão traduzida do latim em verso solto português por Leonel da Costa Lusitano, de 1638. Composta em decassílabos não rimados, não chegou a ser impressa nem publicada. O manuscrito autógrafo está hoje na Biblioteca Nacional de Portugal, mas pertenceu ao poeta árcade e tradutor de poesia grega e latina Antônio Ribeiro dos Santos (o árcade "Elpino Duriense").

Os primeiros versos desta tradução de Leonel da Costa:

As armas e o Varão insigne canto,
Que sendo fugitivo, pelo fado,
Primeiro das regiões da antiga Troia
Chegou à Itália e praias de Lavino;
Ele nas terras foi mui perseguido
E por força dos Deuses no mar alto,
Por amor do furor lembrado sempre
Da fera Juno: também muitas cousas
Sofreu na guerra, até que edificasse
A Cidade e metesse em Lácio os Deuses,
Donde procede a geração Latina,
Donde os Padres Albanos e altos muros
Da famosa, soberba e altiva Roma.


Eneida portuguesa, de João Franco Barreto, composta em oitava-rima, primeira a ser publicada: os seis primeiros livros em 1664, os seis restantes em 1670 na Officina de Antonio Vicente da Silva. Foi republicada em Lisboa em 1981 em coedição da Imprensa Nacional e a Casa da Moeda, com introdução, notas, atualização e estabelecimento do texto de Justino Mendes de Almeida.

Primeira oitava desta tradução, de influência camoniana:

As armas e o varão canto, piedoso,
Que primeiro de Troia desterrado
A Itália trouxe o Fado poderoso,
E às praias de Lavino veio armado;
Aquele que, no golfo tempestuoso
E nas terras, foi muito contrastado,
Por violência dos Deuses e excessiva
Lembrada ira de Juno vingativa.


Eneida de Publio Virgílio Maram traduzida e ilustrada por Cândido Lusitano (alcunha árcade de Francisco José Freire). Composta entre 1769 e 1770 em decassílabos não rimados, permanece inédita e pode ser consultada na Academia das Ciências de Lisboa.


Eneidas de Virgílio em verso livre, de Luís Ferraz de Novais, publicadas em Lisboa em 1790 pela Officina de Fellipe José de França e Liz ("Eneidas" referem-se a "livros da Eneida", e "verso livre" significa "verso sem rima", não "verso sem metro").


Eneida de António José de Lima Leitão, que integra os dois volumes finais do Monumento à elevação da Colônia do Brazil a Reino e o estabelecimento do Tríplice Império Luso. As obras de Publio Virgilio Maro, em três volumes impressos e publicados no Rio de Janeiro pela Typographia Real em 1818. Composta em decassílabos não rimados, é a primeira impressa no Brasil.


Eneida, traduzida por José Victorino Barreto Feio (os oito primeiros livros) e José Maria da Costa e Silva, que completou o livro IX aproveitando todos os fragmentos do espólio de Barreto Feio, acrescentando o que faltava, e traduziu os demais (X, XI e XII). Composta em decassílabos não rimados, foi impressa entre 1845 e 1857, pela Imprensa Nacional de Lisboa (livros I a VIII) e pela Tipografia do Panorama (livros IX a XII). organizada por Paulo Sérgio de Vasconcellos, foi republicada no Brasil em 2004, pela editora Martins Fontes, de São Paulo.


Eneida brasileira, de Odorico Mendes, em decassílabos não rimados, cuja primeira edição é de 1854. É a primeira tradução feita por um brasileiro. Uma segunda edição, com alterações feitas pelo tradutor, foi publica em 1858 (integrando o Virgílio brasileiro: tradução completa dos três grandes poemas de Virgilio). As duas versões foram republicadas no Brasil: a de 1854, com estabelecimento do texto de Luiz Alberto Machado Cabral, pela Editora da Unicamp e Ateliê Editorial em 2005; e a de 1858, com organização de Paulo Sérgio de Vasconcellos, pela Editora da Unicamp em 2008, em edição bilíngue.

Eis os versos iniciais (da primeira edição):

"Eu, que entoava na delgada avena

Rudes canções, e egresso das florestas,

Fiz que as vizinhas lavras contentassem

A avidez do colono, empresa grata

aos aldeãos, de Marte ora as horríveis

armas canto, e o varão que, lá de Troia

Prófugo, à Itália e de Lavino às praias

Trouxe-o primeiro o fado. Em mar e em terra

Muito o agitou violenta mão suprema,

E o lembrado rancor da seva Juno;

Muito em guerras sofreu, na Ausônia quando

Funda a cidade e lhe introduz os deuses:

Donde a nação latina e albanos padres,

e os muros vêm da sublimada Roma."


Eneida, vertida pelo médico português João Félix Pereira, em decassílabos não rimados. Publicada em 1879 pela Typographia da Bibliotheca Universal, de Lisboa.


Eneida de Vergilio lida hoje, do português Coelho de Carvalho, impressa pela Livraria Ferreira Editora, de Lisboa, em 1908. Tradução em decassílabos, em oitava-rima.


Eneida, de Carlos Alberto Nunes, lançada em 1981 por ocasião do bimilenário da morte de Virgílio, por A Montanha Edições. Foi republicada em 2014, em edição bilíngue, com organização, apresentação e notas de João Angelo Oliva Neto, pela Editora 34, de São Paulo. É a primeira – e única – tradução em português feita em hexâmetros, resultando num verso de dezesseis sílabas poéticas, cujo ritmo é a sequência de seis grupos ("pés") de sílabas, sendo cada um composto por uma sílaba tônica seguida de duas átonas (o sexto grupo, em geral, com uma tônica e apenas uma átona), no seguinte esquema: ó o o | ó o o | ó o o | ó o o | ó o o | ó o (o). Há, ainda, a ocorrência de cesura (isto é, uma pequena pausa no interior do verso), que pode ser uma (no meio no do verso), ou duas (dividindo o verso em três partes).

Eis os versos iniciais:

"[Eu sou aquele que outrora || canções modulei ao compasso

da doce avena e, || saindo das selvas, || os campos vizinhos

a obedecer obriguei || à avidez do colono remisso,

nas gratas fainas da terra: o||ra os feitos horrendos de Marte]

As armas canto e o varão || que, fugindo das plagas de Troia

por injunções do Destino, ins||talou-se na Itália primeiro

e de Lavínio nas praias. || A impulso dos deuses por muito

tempo nos mares e em terras || vagou sob as iras de Juno,

guerras sem fim sustentou || para as bases lançar da cidade

e ao Lácio os deuses trazer || - o começo da gente latina,

dos pais albanos primevos || e os muros de Roma altanados."


Eneida do português Agostinho da Silva. Integra as Obras de Virgílio, que incluem Bucólicas e Geórgicas, todas em decassílabos não rimados. A edição é de 1993, publicada pelo Círculo de Leitores, em Lisboa.

Eis os versos iniciais:

"Sou eu aquele que em passado tempo

meu canto confiei à frágil frauta

e levei a que campos meus vizinhos

ao desejo do dono obedecessem,

que bom trato agradasse ao camponês.

Sou eu agora quem celebra em canto,

nos horrores das armas de Marvote,

o varão que primeiro veio de Troia

à nossa Itália, às praias de Lavínia,

em fuga obedecendo a seu destino,

bem batido por mares e por terras,

pela divina força dos de cima

e por ira tenaz da crua Juno,

tanto sofrendo em guerra até fundar

a cidade que é sua, até trazer

ao Lácio os deuses, e, daí provinda,

a raça dos Latinos, avós de Alba, depois muralhas da famosa Roma."


Em prosa, publicaram-se as traduções de Tassilo Orpheu Spalding, Jaime Bruna e David Jardim Jr.


Em 2003 foi publicada em Lisboa uma tradução em prosa, pela editora Bertrand, feita por professores da Faculdade de Letras de Lisboa e coordenada pelo Professor Luís Manuel Gaspar Cerqueira, que é a versão utilizada em todas as universidades portuguesas, contando já com quatro edições em 2011.

Em 2023, a editora brasileira 7 Selo, publicou a tradução da Eneida feita pelo Português Carlos Ascenso André.

A Eneida na arte

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Referências

  1. a b c d GLEESON-WHITE, Jane (2009). 50 Clássicos. que não podem faltar na sua biblioteca. 1 1 ed. Campinas: Verus. 276 páginas. ISBN 978-85-7686-061-7 
  2. «Dicionário Online - Dicionário Caldas Aulete - Significado de emular». www.aulete.com.br. Consultado em 27 de novembro de 2025 
  3. Hansen, João Adolfo (19 de dezembro de 2013). «INSTITUIÇÃO RETÓRICA, TÉCNICA RETÓRICA, DISCURSO». Matraga - Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da UERJ (33). ISSN 2446-6905. Consultado em 27 de novembro de 2025 
  4. Santos, Marcos Martinho dos (6 de dezembro de 2001). «Da disposição da <em>Eneida</em>, ou Do gênero da <em>Eneida</em> segundo as espécies da <em>Ilíada</em> e <em>Odisseia</em>». Letras Clássicas (5). 159 páginas. ISSN 2358-3150. doi:10.11606/issn.2358-3150.v0i5p159-206. Consultado em 27 de novembro de 2025 
  5. JONES, P. Reading Virgil. Aeneid I and II. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. SANTOS, M. M. dos. Da disposição da Eneida, ou Do gênero da Eneida segundo as espécies da Ilíada e Odisseia. Letras Clássicas, n. 5, p. 159-206, 2001. VASCONCELLOS, P. S. de. Épica I: Ênio e Virgílio. Campinas: Editora da Unicamp, 2014.
  6. Santos, Marcos Martinho dos (6 de dezembro de 2001). «Da disposição da <em>Eneida</em>, ou Do gênero da <em>Eneida</em> segundo as espécies da <em>Ilíada</em> e <em>Odisseia</em>». Letras Clássicas (5). 159 páginas. ISSN 2358-3150. doi:10.11606/issn.2358-3150.v0i5p159-206. Consultado em 30 de novembro de 2025 
  7. Aguiar, Fabrício (28 de outubro de 2011). [chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www.unicesumar.edu.br/epcc-2011/wp-content/uploads/sites/86/2016/07/fabricio_cesar_aguiar2.pdf «A REPRESENTAÇÃO DA DEUSA VÊNUS NAS EPOPÉIAS ENEIDA, DE VIRGÍLIO, EM OS LUSÍADAS, DE CAMÕES, E NA PINTURA DE BOTTICELLI – LEITURAS INTERTEXTUAIS»] (PDF). Encontro Internacional de Produção Científica. A REPRESENTAÇÃO DA DEUSA VÊNUS NAS EPOPÉIAS ENEIDA, DE VIRGÍLIO, EM OS LUSÍADAS, DE CAMÕES, E NA PINTURA DE BOTTICELLI – LEITURAS INTERTEXTUAIS: p.4. Consultado em 6 de novembro de 2025 
  8. «O Estoico» 
  9. a b c Vasconcellos, Paulo Sérgio de (19 de maio de 2014). Épica I: Ênio e Virgílio. [S.l.]: Editora da Unicamp 
  10. a b Martins, Paulo; Rodrigues, Mariana Marchini (28 de dezembro de 2017). «A Elegia no Canto IV da Eneida». CODEX – Revista de Estudos Clássicos (2). 91 páginas. ISSN 2176-1779. doi:10.25187/codex.v5i2.13971. Consultado em 27 de novembro de 2025 

Bibliografia

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  • BARRETO, João Franco. Eneida Portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1981.
  • VIRGÍLIO. A Eneida. Trad. por João Felix Pereira. Lisboa : Typ. Bibliotheca Universal, 1879.
  • VIRGÍLIO. Eneida Brazileira. Trad. Odorico mendes. Paris: Typ. de Rignoux, 1854.
  • VIRGÍLIO. Eneida. Trad. Carlos Aberto Nunes. Brasília: UnB, 1975;
  • VIRGÍLIO. Eneida. Trad. José Victorino Barreto Feio e José Maria da Costa e Silva. São Paulo: Martins Fontes, 2004
  • VERGÌLIO, Eneida. Trad. Luis Cerqueira, Ana Alexandra Alves de Sousa, Cristina Abranches Guerreiro. Lisboa, Bertrand Editora, 2011.

Bibliografia crítica

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Ligações externas

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