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Dido

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 Nota: Para outros significados, veja Dido (desambiguação).
Dido
Rainha de Cartago
Rainha dos Cartagineses
ReinadoSéculo IX a.C. -
Século IX a.C.
Sucessor(a)Hano I (como oligarca)
Dados pessoais
NascimentoTiro
Morte
Cartago
Nome completo
Elissa/Dido
CônjugeSiqueu
PaiMatã I
ReligiãoPúnica

Elissa de Tiro[a], comumente conhecida como Dido, segundo a lenda, foi a primeira rainha de Cartago.[1] Era filha de Matã I, rei de Tiro,[carece de fontes?] e irmã do também rei de Tiro Pigmalião (r. 814–803),[2][3] que matou o primeiro marido de Dido, Siqueu, por cobiçar a sua riqueza.

Relação[4]com Eneias e representação do amor (Eneida IV)'.[5]

Em Eneida IV, Virgílio apresenta a paixão de Dido por Eneias como um acontecimento ambíguo: inicialmente tratado como acolhimento e proteção, o amor evolui para uma força transtornada que compromete a autonomia política de Cartago e põe à prova a “pietas” de Eneias. A narrativa articula o afeto com os termos “furor” e “amor”, contrasta o desejo privado com o dever público. Estudiosos observam que o episódio funciona tanto como provação para Eneias — em diálogo com os modelos homéricos — quanto como crítica à vulnerabilidade política que a paixão causa em Dido.

Biografia

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Dido consegue fugir com alguns amigos e partidários, levando consigo as riquezas do marido. Chegando a Costa do Mediterrâneo, norte da África, Dido resolve ficar e formar sua nova pátria. Ela negocia com o Rei Jarbas a compra de terras e ficou acertado que poderia comprar apenas a quantidade de terra que conseguisse cercar usando a pele de um único touro. O pedido é aceito e Dido logo manda cortar o couro de um touro em estreitas tiras com o qual cercou uma imensa área de forma circular onde construiu a cidade com o nome de Birsa (couro). Em torno dessa cidade começa a se formar outra, Cartago, que logo se torna próspera.

Esta história de fundação de Cartago ficou no folclore da Física com o nome de "Problema de Dido", que se pode enunciar como: "Dada uma curva de comprimento finito, qual é a forma que esta curva deve ter para que a sua área seja máxima?"[6]

Eneias chega a Cartago com seus troianos depois de um naufrágio. Dido recebe-os muito bem, mostra-se muito hospitaleira já que ela mesma passara por um sofrimento parecido. Dido acaba se apaixonando por Eneias,[7] que se mostra feliz ao ter a oportunidade de parar de uma vez por todas com suas aventurosas peregrinações, recebendo um reino e uma esposa. Passam-se meses e os dois vivem apaixonados. Eneias parece esquecido da Itália e do império que estava destinado a fundar em suas terras. Quando Júpiter vê essa situação, manda o mensageiro Mercúrio lembrá-lo de sua missão e ordenar que parta imediatamente. Dido, numa tentativa frustrada de convencê-lo a ficar, acaba se apunhalando e se jogando numa pira funerária.

Na Eneida, Dido é movida pela paixão e seus sentimentos, enquanto Eneias segue o que os deuses mandam e a sua missão de fundar Roma. Nesse relacionamento, o conflito de amor humano e dever divino simbolizam o destino pessoal e o coletivo, que é o tema principal da epopeia virgiliana. E a morte de Dido seria o lado triste desse dever, além de um sacrifício para a glória romana, segundo Vasconcellos.[carece de fontes?]

Dido na Eneida de Virgílio

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Dido é citada no primeiro livro da Eneida, quando Eneias chega nas proximidades de Cartago. Vênus disfarçada de caçadora fala que o império próximo era da Rainha de Cartago “A Dido o império pertence, exilada de Tiro potente, / para livrar-se do irmão. Longa é a injúria; variados os fatos. / Recordarei tão-somente por cima o que mais interessa.”[8] Vênus conta que Dido, avisada em sonho por seu falecido marido, foge de Tiro pois ia ser a próxima vítima de seu irmão.

Após sua chegada na cidade, Eneias é convidado por Dido a se hospedar em seu castelo. Vênus, preocupada, manda o cupido flechar a rainha no peito, para que ela se apaixonasse pelo herói. Dido oferece um jantar em seu castelo, no qual seu hóspede narra toda a história que antecedeu sua chegada.

A rainha, agora no Livro IV, fala para sua irmã que tem medo de se entregar a Eneias por conta da promessa de nunca mais se apaixonar. Ana, sua irmã, responde: “Na solidão e em perpétua viuvez murcharás tanto viço, / sem conheceres doçuras maternas e os dons da alma Vênus?”[9] Juno e Vênus então fazem um acordo perante a nova situação, levando os dois a uma caçada, durante a qual houve uma tempestade trazida por Juno que os levaram a ficarem presos em uma caverna. Esse momento foi quando consumaram seu amor.

Insana de amor, Dido começa a deixar de lado seus afazeres com a cidade, e Jarbas, filho de Júpiter e pretendente da rainha, pede para o seu pai fazer algo, para que a rainha não ficasse com o Eneias. Júpiter fala com Mercúrio para que ele possa relembrar ao protagonista, em sonho, a sua missão.

Eneias decide partir, mas primeiro ele arruma suas coisas para depois contar a Dido. Porém, a rainha descobre antes, e em uma tentativa fracassada de fazê-lo ficar, ela é deixada à beira da loucura. E com um último ato, após perceber que não há saída, Dido faz uma pira com as coisas do herói, sobe nela, crava a espada que ele lhe tinha dado, ainda viva, e acende a pira. Após sua morte, Dido volta a ser personagem no Livro VI, quando Eneias vai ao mundo dos mortos. Ele a encontra no campo dos lamentos, onde ficam as almas atormentadas por amor. Ao tentar falar com ela, Dido lhe vira as costas e vai ao encontro de seu ex-marido, Siqueu.

Recepção moderna

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A história de Dido e Eneias, retratada na Eneida, de Virgílio, no livro IV da obra, ainda possui indubitável influência no mundo da literatura, tendo sido assim por séculos desde a sua publicação, mesmo que de forma indireta, sendo as constantes reinterpretações e releituras de Dido e de sua trajetória de paixão e tragédia, bem como de agência e resiliência, muito importantes para as autorias textuais que reinventam o mito, vieses da personagem explorados em Heroides, de Ovídio, em que se explora mais a voz feminina e a dor sentida por Dido.

Um exemplo de recepção moderna consta na peça do dramaturgo inglês William Shakespeare, Sonho de uma noite de verão, quando a personagem Hérmia, também sofrendo por um amor que se mostrava impossível, apesar de recíproco para com Lisandro, menciona Dido em uma declaração de amor: "Meu bom Lisandro, eu juro pelo arco de Cupido, pela ponta de ouro de sua flecha, pela pureza das pombas de Vênus, pelo o que as almas une e o amor fomenta, pelo fogo que a Dido consumiu quando partiu o herói troiano, por toda jura por homem quebrada (e são bem mais que a por mulher partida) no local que você determinar, com você amanhã hei de encontrar",[10] sendo esta fala uma reflexão do quão encrustada nas confecções ficcionais a história de amor e tragédia de Dido de Cartago se encontram e como esses aspectos da vida da personagem moldam trechos de obras românticas.

Notas

  1. Também escrito como Hêlissa, Elisa ou Alissa.

Referências

  1. M. A., Linguistics; B. A., Latin. «Meet Mythical Queen Dido, Founder of Ancient Carthage». ThoughtCo (em inglês). Consultado em 1 de outubro de 2020 
  2. Virgílio, Eneida, Livro I, 340
  3. Moscati, Sabatino (2001), The Phoenicians, ISBN 9781850435334 (em inglês), I.B.Tauris, p. 57, consultado em 13 de abril de 2013 
  4. Casali, Sergio (1 de dezembro de 2013). «RichARd tARRAnt (ed.), Virgil. Aeneid Book XII, Cambridge Greek and Latin Classics, Cambridge: Cambridge University Press, 2012, pp. 371, ISBN 9780521313636.». Exemplaria Classica. ISSN 2173-6839. doi:10.33776/ec.v17i0.2344. Consultado em 28 de novembro de 2025 
  5. Letchford, Clive (12 de agosto de 2022). «Vergil: Aeneid 7 (R.T.) Ganiban Pp. viii + 220. Indianapolis, IN: Hackett Publishing Company, 2021. Paper, US$17.95. ISBN: 978-1-8510-994-4». Journal of Classics Teaching (47): 101–101. ISSN 2058-6310. doi:10.1017/s2058631022000344. Consultado em 28 de novembro de 2025 
  6. «Bassalo, José Maria (s.d.) "Rainha Dido de Catargo e o Cálculo das Variações." Seara da Ciência. Universidade Federal do Ceará.» 
  7. Gleeson-White, Jane (2009). 50 Clássicos. que não podem faltar na sua biblioteca. 1 1 ed. Campinas: Verus. 276 páginas. ISBN 978-85-7686-061-7 
  8. Virgílio, P (1983). Eneida. Brasília: Universidade de Brasília. p. 17 
  9. Virgílio, P (1983). Eneida. Brasília: Universidade de Brasília. p. 72 
  10. Shakespeare, William (2016). Heliodora, Barbara, ed. A Midsummer Night's Dream. Col: William Shakespeare: Teatro Completo. Volume 2 1ª ed. [S.l.]: Nova Aguilar. p. 316 

Bibliografia

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Abrantes, Miguel Carvalho (2018), Las quexas que hizo la reyna Elisa Dido sobre la partida de Eneas : Tradução para o Português moderno. KDP.

Ligações externas

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O Commons possui uma categoria com imagens e outros ficheiros sobre Dido
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