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Conde de Caminha

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Armas de Souto Maior chefe, in Livro do Armeiro-Mor (fl 81r) (1509). Ver armas de Pedro Álvarez de Soutomaior, conde de Caminha, no artigo

O título de Conde de Caminha é um título nobiliárquico que foi criado por carta de 5 de Julho de 1476 do rei D. Afonso V de Portugal, então esposo da que se dizia rainha Juana de Castela, filha do rei Henrique IV de Castela, a favor de Pedro Álvarez de Soutomaior, grande nobre da Galiza e um dos maiores vultos da história galega da segunda metade do século XV, que passou para a história como Pedro Madruga.

A lenda conta que Pedro Madruga deveu a sua alcunha de "Madruga" a uma disputa que teve com os Sarmiento de Ribadavia, em que combinaram delimitar os seus territórios no lugar onde se encontrassem certo dia, saindo ambos dos seus castelos ao canto do galo. Terá cantado muito cedo o do Soutomaior, porque quando se dispunha o Sarmiento a sair do seu castelo de Ribadavia encontrou aos pés da muralha o Soutomaior, a quem terá dirigido a seguinte saudação, que deu origem segundo a tradição à alcunha: Madruga, Pedro, madruga.

Conde de Caminha (1476)

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Artigo principal: Pedro Madruga

Pedro Álvarez de Soutomaior (ca. 1400-1486)[1] pertencia à linhagem nobre galega dos Soutomaior, senhores do castelo de Soutomaior e grandes senhores de terras na Galiza, principalmente em Pontevedra. Era filho bastardo, mas foi legitimado em 1468 e herdou os domínios da Casa de Soutomaior com aprovação do rei Henrique IV de Castela, cujo reinado foi caracterizado pela anarquia e disputas entre as mais poderosas casas nobres do reino.

Pedro Madruga apossou-se da cidade galega de Tui cerca de 1456, expulsando o bispo. Foi feito Visconde de Tui em 25 de julho de 1473 pelo rei Henrique IV de Castela, título reabilitado pelo rei Afonso XIII de Espanha no ano de 1921, estando vigente e ocupado na atualidade. Pedro Álvarez de Soutomaior y Zúñiga pemaneceu na posse da cidade o resto dos seus dias, e aproveitando-se da guerra "[...] destruiu, saqueou, arrasou na sua província tudo o que pôde pertencente a inimigos seus [...]", nas palavras de Anselmo Braamcamp Freire na sua obra Brasões da Sala de Sintra.[2]

Esteve envolvido na Grande Revolta Irmandinha na Galiza (1467-1468), nos conflitos que opunham Henrique IV aos Fonseca arcebispos de Santiago de Compostela, inimigos também dos Soutomaior, e em conflitos com os Sarmiento de Ribadavia também inimigos dos Soutomaior, entre outros. Finalmente, após a morte de Henrique IV em 1474, envolveu-se na Guerra de Sucessão de Castela (1475-1479) sobre os direitos de sua filha Joana, a Beltraneja – possivelmente filha da rainha com o fidalgo Beltrán de la Cueva – ao trono de Castela. Durante esta guerra, em que assumiu a liderança do partido da Beltraneja na Galiza, apoiou o monarca português D. Afonso V, cuja corte já antes frequentara e que o tinha auxiliado durante a revolta irmandinha. A intervenção de D. Afonso V na guerra de sucessão castelhana teve o seu ponto alto na Batalha de Toro em Março de 1476, em que Pedro Álvarez de Soutomonior também participou do lado português. Quatro meses mais tarde recebeu o título de conde de Caminha, não se sabe bem se foi dignidade espanhola ou portuguesa, por se considerar, então, Afonso V de Portugal, Afonso XII de Castela, rei consorte e proprietário do reino com sua mulher a rainha Juana I, filha do rei Henrique IV de Castela, e que se refere a vila portuguesa na foz do rio Minho, justamente na fronteira entre Portugal e a Galiza.[3]

Pedro Álvarez de Soutomaior casou em Portugal durante a revolta dos irmandinhos com Teresa de Távora, filha de Álvaro Pires de Távora, 10.º senhor da Casa de Távora, de quem teve um filho, Álvaro de Soutomaior. Nos anos de 1482-1485, seus conflitos com os seus inimigos na Galiza – entre eles os Valadares, os Montenegro, e os Sarmiento – forçaram o conde de Caminha a tomar medidas violentas que lhe valeram o desagrado dos reis de Castela. Pouco pacientes com o seu antigo inimigo, estes decretaram a sua perda das possessões familiares a favor de seu filho Álvaro, numa iniciativa de Teresa de Távora para evitar a ruína da Casa de Soutomaior. Pedro Álvarez de Soutomaior dirigiu-se então a Castela em Janeiro de 1486 para pedir o perdão de suas majestades. Parando em Alba de Tormes para se encontrar com o seu amigo o duque de Alba, acabaria por encontrar a morte de forma suspeita.

Seu filho, Álvaro de Soutomaior y Távora, foi o segundo Conde de Caminha, mas não foi reconhecido como tal em Portugal, por ser considerado um título castelhano. Contudo, também nunca foi instituído como seu por lá, permanecendo num limbo nobiliárquico que seu atual representante genealógico, de ascendência portuguesa, terá de resolver, declarando lealdade ao Rei de Portugal ou ao Rei de Espanha, escolhendo o seu senhor. No entanto, neste último país, jamais poderia ser titulado como tal, pois a reabilitação da nobreza é limitada e teria de ser feita dentro de 40 anos de vacância, algo que não ocorre em Portugal, onde, por não ser considerado uma dignidade portuguesa, o chefe dinástico não pode resolvê-lo. O título não permaneceu em Portugal, mas também não passou para Castela, como aconteceu com o viscondado de Tuy, apesar de toda a historiografia portuguesa publicada sobre o assunto. A existência de descendentes portugueses do primeiro titular também foi demonstrada, desmantelando assim as importantes impressões da historiografia publicada até então. Os descendentes dos Condes de Caminha são tanto espanhóis quanto portugueses.[3]

Titulares

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  1. D. Pedro Álvarez de Soutomaior y Zúñiga, 1.º Conde de Caminha, título espanhol ou português;
  2. D. Álvaro de Soutomaior y Távora, 2.º Conde de Caminha.
  3. D. Francisca de Soutomaior y Enríques, 3ª Condessa de Caminha.[3]

As armas dos Soutomaior eram: de prata, com três faixas xadrezadas de ouro e vermelho, de três tiras. Timbre: um leão de prata (ou: de vermelho), carregado das três faixas do escudo.

Estas armas encontram-se no Livro do Armeiro-Mor (fl 81v), no Livro da Nobreza e Perfeiçam das Armas (onde o leão do timbre é de vermelho) (fl 17r), no Thesouro de Nobreza (onde o leão do timbre é de prata) (fl 34r), etc. Encontram-se também na Sala de Sintra.

Braamcamp Freire, nos Brasões da Sala de Sintra, refere as seguintes armas para o conde de Caminha: de prata, com três faixas xadrezadas de ouro e vermelho, de quatro tiras, cada peça carregada de uma cotica em faixa de negro.[4]

Castelo de Soutomaior, do conde de Caminha

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Ver também

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Condados do século XV

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Referências Bibliográficas

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  1. «Pedro Álvarez de Sotomayor (Briografía)». Real Academia de la Historia. Consultado em 7 de dezembro de 2025 
  2. FREIRE, Anselmo Braamcamp: Brasões da Sala de Sintra. Apêndice. Vol. III, p. 322-324
  3. a b c González Blanco, Elisa; Orantos y Martín-Requejo, Rodolfo-Francisco (2025). «Dictamen sobre el Condado de Caminha.». Consultado em 7 de dezembro de 2025 
  4. Id., Ibid.