Cidade-estado



Uma cidade-estado[1][2][3] ou cidade-Estado[4][5] (plural: cidades-estado ou cidades-estados)[4] é uma cidade independente, com governo próprio e autônomo, sendo comum, esta denominação, na Antiguidade, principalmente na Grécia Antiga, tais como Tebas, Atenas e Esparta. Mais tarde as cidades-estado e suas ligas, também vieram a fazer um papel importante na península Itálica. Por exemplo, as repúblicas de Gênova, Pisa, Florença, Amalfi e, a mais famosa de todas, Veneza. O mesmo ocorreu na Alemanha, como a Liga Hanseática medieval ('Hansa' é um termo do alemão antigo que significa 'Liga'). Na Alemanha moderna existem três cidades que muitas vezes podem ser classificadas erroneamente de cidades-estado: Hamburgo, Berlim e Brema, que apesar de não pertencerem a nenhuma província ou subdivisão do país (tendo status político ao mesmo nível destas), ainda estão sob o poder da República Federal da Alemanha, isto é, não são independentes, como uma cidade que é corretamente tida como "cidade-estado" deve ser (como é o caso de Singapura).
Atualmente, o termo cidade-estado também é, às vezes, empregado para designar cidades que se transformaram em minúsculos países, como Vaticano e Mônaco, politicamente autossuficientes.
Singapura, na Ásia, conhecida internacionalmente como um dos Quatro Tigres do Oriente, uma referência a sua robusta economia, também é uma cidade-estado. Ainda na Ásia, Honcongue e Macau também são consideradas cidades-estado por serem consideradas Regiões Administrativas Independentes dentro da China;
No norte da África, Tânger foi uma cidade-estado por algum tempo no século passado. Quando a França e a Espanha dividiram o Sultanato de Marrocos em zonas administrativas de acordo com o Tratado de Fez de 1912, Tânger recebeu um status especial. A Convenção de 1923 transformou o status de Tânger em uma "cidade internacional", governada por uma assembleia legislativa de vinte e seis representantes estrangeiros, oriundos do Reino Unido, França, Espanha, Portugal, Itália, Bélgica, Países Baixos, Suécia e Estados Unidos. O poder executivo ficou sob o manto do Comitê de Controle, composto de representantes consulares dos países signatários. O poder do judiciário era administrado por cortes de juízes da paz da Bélgica, França, Espanha e Reino Unido. Árabes e judeus tinham sistemas de corte próprios.
Antiguidade
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A partir do século VIII a.C., os gregos formaram as chamadas pólis, que eram cidades-estado (cidades autónomas): estas cidades eram economicamente autossuficientes (autarquia); tinham uma massa proporcionada de cidadãos; era nestas cidades que se davam os cultos cívicos, religiosos e aos heróis e tinham leis próprias.
No decurso do desenvolvimento das civilizações, como um processo natural de sobrevivência, formaram-se cidades-Estado e, anteriormente, pólis. Historicamente, as cidades-Estado faziam frequentemente parte de grandes áreas culturais (regiões, países) e de diversas alianças políticas, como por exemplo:
- As cidades-Estado da Antiga Mesopotâmia, da Fenícia ou da civilização Maia;
- As pólis gregas;
- As Cidades-estado italianas na Idade Média e no Renascimento;
- As cidades livres da Alemanha medieval (Sacro Império Romano-Germânico);

De acordo com uma das teorias, a emergência das cidades-Estado gregas tornou-se possível durante o declínio do sistema tribal entre 1000 e 800 a.C., quando comunidades dissidentes começaram a formar autogovernos, a partir dos quais surgiram as cidades-Estado na Grécia continental, nas ilhas do Egeu e no oeste da Ásia Menor. À medida que a população e a atividade económica das primeiras pólis cresciam, grupos de colonos fundaram novas cidades-Estado ao longo das costas dos mares Mediterrâneo e Negro entre 750 e 550 a.C. As cidades-Estado gregas distinguiam-se por uma grande diversidade de formas de organização social, da monárquica à democrática. Esta diversidade era, simultaneamente, a força das cidades-Estado — onde se alcançou um progresso do pensamento científico e social sem precedentes para a época — e a sua fraqueza: em diferentes momentos, caíram vítimas de estruturas estatais agressivas de maior escala — a Macedónia, Cartago e Roma (esta última foi originalmente criada como uma cidade-Estado, mas cresceu até se tornar um império como resultado de guerras de conquista bem-sucedidas e da centralização do poder estatal)[6]. Uma alternativa à conquista eram as alianças voluntárias ou semivoluntárias para defesa mútua (as ligas do Peloponneso, Deliana e Beócia), contudo, estas revelaram-se efémeras.
Esta forma de organização social era comum na Antiguidade também fora da civilização grega: entre os seus representantes contam-se, nomeadamente, Tirza, uma cidade-Estado governada por um rei[7], Simrom, uma cidade-Estado cananeia[8], entre outras. Na língua dos antigos fenícios, em particular, não existia um etnónimo para se referirem a si mesmos como um povo unido; em vez disso, autodenominavam-se pelo nome das suas cidades-Estado de origem, entre as quais as mais bem-sucedidas foram Tiro, Biblos e Sidom[6]. Na Palestina, numerosas cidades-Estado existiram antes da emergência de Estados territoriais na região, durante as Idades do Bronze Média e Tardia. No Período de Amarna, quando os faraós controlavam a região militarmente mas a população local mantinha autonomia administrativa, a área destas formações estatais variava entre 375 (Achshaph) e 2,5 mil km² (Hazor). Em termos de população, as mais significativas eram a própria Hazor, no Vale de Hula (estimada em mais de 16 mil habitantes no total, incluindo mais de 10 mil dentro das muralhas), Megido, no Vale de Jezreel (mais de 7000 habitantes), Gate, Gezer, Laquis, Gat-Padalla na costa mediterrânica e Siquém, na parte montanhosa do país (cerca de 4,5 mil habitantes)[9].
Idade Média
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O renascimento da cidade-Estado como forma de organização social começou no século XI, quando uma série de cidades individuais da Itália medieval (em primeiro lugar a Veneza e o Amalfi, bem como Bari, Otranto e Salerno) atingiram níveis notáveis de prosperidade económica. A maioria destas cidades mantinha contacto com o Império Bizantino, e o reatamento do comércio com o Oriente assegurou-lhes elevados rendimentos. No século seguinte, cresceu a influência de repúblicas urbanas como Pisa e Génova, que se destacaram no contexto da luta contra os árabes, e de cidades comerciais do interior — Pavia e a Lucca. No sul da Itália, a conquista normanda pôs fim à autonomia das cidades[6].
Historicamente, os primeiros órgãos de governo das repúblicas urbanas italianas foram a assembleia geral de cidadãos — parlamento, concio ou arengo — e os cônsules eleitos por estas assembleias. Com a sofisticação das constituições, o aparelho administrativo cresceu, criaram-se conselhos municipais permanentes, e os cargos consulares foram frequentemente monopolizados por uma elite de proprietários de terras e comerciantes, formando uma nova nobreza urbana. Esta aristocracia envidou esforços significativos para estabelecer o seu poder sobre o Contado (as regiões agrícolas circundantes), retirando o controlo aos bispos-condes e a pequenos senhores feudais locais. Como resultado, em Itália não se verificou a divisão acentuada entre cidade e campo que existia, no mesmo período, na Alemanha e em França[6].

As cidades-Estado — cidades livres e cidades-comunas — foram também características de outras regiões medievais, nomeadamente do Sacro Império Romano-Germânico e da Rus' de Kiev. Na Alemanha, estas estruturas dividiam-se por origem em dois grupos: as cidades imperiais, fundadas em terras da coroa e, portanto, dependentes apenas do Imperador; e as cidades livres, originalmente fundadas por príncipes-bispos, mas que conquistaram a sua autonomia[10]. Muitas destas cidades integravam a Liga Hanseática. Na Europa Central, as cidades-Estado coexistiam com pequenos Estados territoriais. Assim, no final do século XIII, os cantões fundadores da Antiga Confederação Helvética (Unterwalden, Uri e Schwyz) vizinhavam com várias cidades livres (Berna, Lucerna, Zurique)[11].
Na Rússia Antiga, segundo observou o historiador A. I. Nikitsky, os conceitos de "cidade" e "Estado" eram terminologicamente indistinguíveis, o que motivou tentativas de explicar a história sociopolítica da Rus' através de conceitos próximos da pólis antiga[12]. Na bacia do Dniepre, o enfraquecimento do poder central levou, no final do século XI, à autonomia de cidades face ao Grão-Príncipe de Kiev, como Chernigov e Pereyaslavl. No final do século XI, crescia também a independência de Novgorod, a Grande, onde os príncipes tinham de partilhar o poder com os posadniks (magistrados eleitos). O culminar deste processo foi o estabelecimento, em 1136, da República de Novgorod[12].
América
[editar | editar código]Algumas das mais notáveis cidades-estado da América Central foram:
Teotihuacán, localizada a vinte e cinco quilômetros ao norte da atual Cidade do México; Copán, localizada em Honduras; Tula (México), uma cidade Tolteca que dominou a região central do atual país do México; Texcoco, uma pequena cidade-estado do México, fundada por volta dos anos 1200 nas margens do (drenado) lago Texcoco, a qual veio a servir de base de planos de ataque dos conquistadores espanhóis à capital de Tenochtitlán (a atual Cidade do México); e ainda no México, a cidade-estado de Tlaxcala, vizinha da cidade-estado de Texcoco (citada acima), e rival invicta da poderosa cidade-estado de Tenochtitlán, o que motivou seus líderes a ajudarem os espanhóis em sua histórica conquista desta cidade-estado, a capital azteca de Tenochtitlán.

É importante notar o papel histórico da jovem Malinche. Malinche, que já era bilíngue antes da chegada dos espanhóis, tendo sido fluente em seu idioma materno, o náuatle (idioma dos astecas, também conhecidos como mexicas) e iucateque (a língua de seus amos, uma das línguas do tronco maia peninsular), facilmente aprendeu também a falar o castelhano uma vez em contato com os espanhóis. Assim, dotada dessas habilidades linguísticas e, depois, adicionalmente, também na condição íntima de amante do conquistador Hernán Cortez, ela veio a auxiliar grandemente na devastadora dominação dos povos das terras da América Central pelos invasores ibéricos.
Vale notar que algumas destas civilizações da América Central chegaram a manter redes de comércio muito expansivas a se estenderem, por exemplo, até ao Vale de Ohio, ao norte, no atual estado de Ohio (localizado entre os estados de Nova Iorque e Michigan), na fronteira entre os Estados Unidos com o Canadá. Quanto aos limites meridionais destas vastas redes de empreitadas comerciais pelas cidades-estado da América Central, isso ainda não está bem claro e definido. Mas certo é que obtiveram seus conhecimentos de ourivesaria de seus contatos comerciais ao sul. Portanto, é concebível que tenham chegado a alcançar comercialmente, através de povos intermediários, até as grandes civilizações andinas da América do Sul.
Algumas das cidades-estado mais notórias da América do Sul foram Chancai, Cusco, Sipan, Cajamarca e Caral; esta última, supostamente, sendo a mais antiga de todas elas.
Ver também
[editar | editar código]Referências
- ↑ «cidade-estado». Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Infopédia
- ↑ «cidade-estado». Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Priberam Informática
- ↑ «cidade-estado». Dicionário Caldas Aulete da Língua Portuguesa. www.aulete.com.br. Lexikon Editora Digital
- ↑ a b «cidade-estado». Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Michaelis
- ↑ Grande Dicionário Houaiss, verbete cidade-Estado
- ↑ a b c d «Phoenicia». Encyclopædia Britannica (em inglês). Consultado em 13 de outubro de 2025
- ↑ «Tirza, cidade». Enciclopédia Judaica de Brockhaus e Efron (em russo). São Petersburgo. 1908–1913
- ↑ «Simrom, cidade». Enciclopédia Judaica de Brockhaus e Efron (em russo). São Petersburgo. 1908–1913
- ↑ Comparative Study of Thirty City-state Cultures 2000, pp. 68—72, The Palestinian City-States of the Bronze Age.
- ↑ Comparative Study of Six City-state Cultures 2002, p. 91, Was There a South-West German City-State Culture?.
- ↑ Comparative Study of Thirty City-state Cultures 2000, p. 16, Introduction: The Concepts of City-State and City-State Culture.
- ↑ a b Froyanov e Dvornichenko 1988.
Ligações externas
[editar | editar código]- FAMSI - Foundation for the Advancement of Mesomerican Studies, Inc.. Este sítio foi produzido em inglês mas ele possui uma boa seção em espanhol (ver o link abaixo). Sítio acessado em dois de novembro de 2005.
- FAMSI en español - Fundación para el Avance de los Estudios Mesoamericanos, Inc.). Sítio acessado em dois de novembro de 2005.
- Templo dos Guerreiros de Chichén Itza, Yucatán, México. Obra da cultura maia, localizada na região centro-norte de Yucatán, no país do México, América do Norte. As fileiras de colunas que aparecem na fotografia deste sítio originalmente sustentaram tetos construídos de madeira e reboco.
